Carrossel, Política Venezuela: “Líbia e Síria são exemplos de quão rápido estabilidade vira caos”

Venezuela: “Líbia e Síria são exemplos de quão rápido estabilidade vira caos”

Asa Cusack, do Centro América Latina e Caribe da London School of Economics, acredita que um conflito entre diversos atores políticos pode ocorrer no país

Por Gabriel Bonis, de Berlim

Em 23 de fevereiro, a crise venezuelana ganhou novos contornos com os violentos conflitos nas fronteiras do país com o Brasil e a Colômbia. Ao menos quatro manifestantes morreram nas proximidades de Pacaraima, em Roraima, ao serem impedidos pelas forças de segurança de Nicolás Maduro de acessarem carregamentos de alimentos e remédios enviados por Brasília e Estados Unidos.

Confrontos ocorreram ainda na divisa com a Colômbia, onde as doações também não chegaram aos venezuelanos. Maduro, que havia fechado a fronteira com o Brasil e Colômbia dias antes, cortou relações diplomáticas com Bogotá.

Apoiados pelo líder da oposição, Juan Guaidó (reconhecido por dezenas de países como o presidente interino da Venezuela), os carregamentos eram considerados por Maduro como uma forma de intervenção externa para derrubar o seu governo.

As crescentes tensões internas e com países vizinhos preocupam Asa Cusack, do Centro América Latina e Caribe da London School of Economics, no Reino Unido. “A violência na fronteira colombiana mostrou como grupos armados leais ao governo podem trabalhar em uníssono com as forças de segurança, mas também há gangues de drogas e guerrilheiros. Se houvesse um racha sério nas Forças Armadas, isso poderia levar a um conflito interno entre diferentes facções, atraindo os grupos não militares mencionados.”

Apesar de algumas deserções, Maduro detém apoio sólido das Forças Armadas. E esse cenário, segundo, Cusack, não deve mudar tão cedo, pois os militares dependem do governo. “Nos escalões mais baixos, os soldados e suas famílias precisam dos benefícios que recebem do Estado, portanto, mesmo que se oponham ao que está acontecendo, precisariam ter certeza do sucesso para participar de qualquer rebelião.”

Os países da região parecem, entretanto, pouco interessados em intervir na Venezuela. Na segunda-feira 25, o Grupo de Lima – composto por 14 nações que buscam formas de estabilização a Venezuela – defendeu a saída de Maduro e a realização de novas eleições, mas afastou a possibilidade de uso de força.

No domingo 24, Marco Rubio, senador republicano dos EUA, contudo, provocou polêmica ao compartilhar duas imagens de Muammar Gaddafi, ex-líder autoritário da Líbia. Na primeira, ele aparece sorridente. A foto seguinte o retrata ensanguentado, momentos antes de ser morto por rebeldes em uma operação militar apoiada por Washington.

Apesar de as images não serem acompanhadas de um texto, muitos consideraram que o tweet era uma mensagem para Maduro. “A Líbia e especialmente a Síria fornecem exemplos claros de quão rápida e devastadoramente a estabilidade pode se transformar em caos e ciclos aparentemente infinitos de violência”, diz Cusack.

Politike: Com a violência registrada em 23 de fevereiro na fronteira venezuelana com Brasil e Colômbia e a crescente pressão internacional sobre Maduro, qual a probabilidade de um conflito em grande escala na Venezuela?
Asa Cusack: Existe um risco real de conflito interno na Venezuela, dado o número e a variedade de grupos armados que operam dentro e nos arredores do país. A violência na fronteira colombiana em 23 de fevereiro mostrou ao mundo como grupos armados leais ao governo (colectivos), por exemplo, podem trabalhar em uníssono com as forças de segurança, mas também há gangues de drogas e guerrilheiros (Exército de Libertação Nacional, da Colômbia). Se houvesse um racha sério nas Forças Armadas com lealdades que permanecessem divididas, isso poderia levar a um conflito interno entre diferentes facções, potencialmente atraindo os grupos não militares mencionados anteriormente. Dito isto, uma vez que a intervenção externa foi a faísca mais provável para um conflito interno, a probabilidade de conflito foi reduzida significativamente pela reunião do Grupo de Lima na segunda-feira 25.

Politike: O senhor acredita que uma intervenção militar estrangeira é provável? Os países vizinhos seriam arrastados para uma intervenção ou tentariam se afastar deste cenário?
AC: A reunião do Grupo Lima revelou que há pouco apetite por intervenção militar em toda a América Latina, mesmo entre aqueles com as posições mais extremas sobre a Venezuela, incluindo Brasil e Colômbia. Estes dois países são obviamente importantes também por compartilharem as fronteiras mais importantes a oeste e sul da Venezuela.

Politike: Quais seriam as consequências para a América do Sul de um conflito de grande escala na Venezuela?
AC: As consequências são incognoscíveis, mas o pior caso seria uma espiral descontrolada na Venezuela que se espalhasse para a Colômbia e desestabilizasse ainda mais o frágil processo de paz em andamento naquele país. A Líbia e especialmente a Síria fornecem exemplos claros de quão rápida e devastadoramente a estabilidade pode se transformar em caos e ciclos aparentemente infinitos de violência. O grau extremo de animosidade na Venezuela poderia fornecer combustível suficiente para alimentar esse tipo de fogo por um longo tempo, o que torna ainda mais importante a redução da crise o mais rápido possível.

Politike: O senhor acredita que Maduro se manterá no poder por muito mais tempo? Em qual caso ele perderia o apoio dos militares?
AC: O momento exato é difícil de prever, mas desde o início senti que esse cenário poderia se arrastar por muito tempo. Até o momento, as deserções dos militares foram relativamente pequenas. E isso não é surpreendente porque, do ponto de vista deles, é um enorme risco desertar. Nos escalões mais baixos, os soldados e suas famílias dependem dos benefícios que recebem do Estado, portanto, mesmo que estejam cientes e se oponham ao que está acontecendo no país devido ao regime de Maduro, precisariam ter certeza do sucesso para participar de qualquer rebelião. O medo de retaliação severa se qualquer uma dessas ações falhar é outro fator dissuasivo. No topo, como muitos generais estão sob sanção, eles têm mais medo de processos por um futuro governo de oposição vingativo ou de extradição aos EUA para serem julgados lá. A menos que haja uma anistia viável e confiável para eles como parte de qualquer transição, os militares claramente se apegarão a Maduro. John Bolton (Conselheiro Nacional de Segurança dos Estados Unidos) e Marco Rubio (senador nos EUA) não ajudaram, respectivamente, ameaçando enviar Maduro para Guantánamo e tweetando fotos de um coronel Gaddafi ensanguentado.

FOTO: LUIS ROBAYO / AFP