Política Um mar agitado para Maurício Macri

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Um mar agitado para Maurício Macri

O apoio de Bolsonaro e o acordo do Mercosul com a União Europeia não beneficiam o presidente em busca de reeleição, dizem especialistas

Por Gabriel Bonis, de Berlim

Enfrentando greves gerais, inflação elevada, apelo ao Fundo Monetário Internacional, peso em queda livre e previsão de recessão de 1,3% da economia argentina em 2018, a situação do presidente Maurício Macri não é nada tranquila. Em busca da reeleição, ele aparece atrás de Alberto Fernández, que tem como vice Cristina Kirchner, embora em empate técnico: 45% contra 43%, segundo o instituto de pesquisa Isonomia.

A distância entre Fernández e Macri vem caindo, em especial após o presidente anunciar o peronista Miguel Pichetto como seu candidato a vice. Mas a tormenta econômica da Argentina pode custar caro ao mandatário, cujo governo é considerado ruim por 54% da população. Neste cenário, nem mesmo o alardeado princípio de acordo entre a União Europeia e o Mercosul reavivaria significativamente a campanha macrista.

“O governo de Macri procurou mostrar o acordo como um sinal de integração ao mundo. Não é, porém, significativa para a maioria dos eleitores indecisos ou desencantados com o governo esse tipo de política internacional, cujos efeitos na vida cotidiana são difíceis de perceber no curto prazo”, afirma Martín Retamozo, doutor em Ciências Sociais pela Universidade Nacional de La Plata.

Macri, por outro lado, ainda pode se beneficiar com a extrema polarização no país. Mesmo deixando a cabeça da chapa para Fernández, Cristina Kirchner possui alta rejeição popular e do mercado. “A candidatura de Cristina é funcional para a de Macri. A presença dela permite a polarização: o eixo discursivo ‘nós contra eles’ é possível quase que exclusivamente com a presença dela”, diz Fernando Domínguez Sardou, professor de Política Comparativa da Universidade Católica da Argentina.

As listas finais de candidatos serão definidas nas primárias de 11 de agosto. O primeiro turno das eleições ocorre em 27 de outubro.

O pleito é relevante para o Brasil, onde o presidente Jair Bolsonaro declarou apoio a Macri e criticou uma visita de Fernández ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na prisão em Curitiba. O ex-capitão chegou a dizer que haveria atrito com a Argentina em caso de vitória do candidato de Kirchner.

“É claro que um triunfo de Alberto Fernández, ao menos no início da administração, traria atrito com o governo Bolsonaro. A visita de Fernández foi para posicionar sua candidatura ideologicamente no concerto regional. A atuação de Bolsonaro em resposta a essa visita dificilmente terá um impacto no cenário eleitoral, mas a situação pode mudar se Fernández vencer a eleição. A vocação de reaproximação de ambas as partes terá que ser negociada permanentemente a partir desse momento”, diz Sardou.

O apoio de Bolsonaro e suas pequenas intromissões na eleição argentina, contudo, não devem ter efeito prático no resultado do pleito, argumenta Retamozo. “Bolsonaro não tem capital político para que sua voz seja considerada significativa e, em qualquer caso, seria necessário ver quais efeitos teria dado a avaliação principalmente negativa que ele tem na sociedade argentina.”

Politike – O senhor acredita que o acordo em princípio do Mercosul com a UE terá algum efeito positivo para a campanha de Macri?
Fernando Domínguez Sardou: Além dos impactos positivos, o princípio de acordo entre a UE e o Mercosul permitiu que Macri, ao menos parcialmente, colocasse em ordem os eixos da campanha. Desde então, a proposta de campanha governista foi muito mais claramente definida em termos de “passado x futuro”. Este argumento é o principal elemento propositivo da campanha para os próximos quatro anos. Ao mesmo tempo, permite unificar o discurso crítico da principal força de oposição em torno da possível crise de empregos derivada do acordo. Em resumo, considero que o potencial efeito positivo do princípio de acordo na campanha é neutralizado com os flancos críticos do mesmo, embora permita consolidar a proposta de campanha governista.

Martín Retamozo: O governo de Macri procurou mostrar o acordo como um sinal de integração ao mundo. Isso é funcional para a narrativa macrista, no entanto não é significativa para a maioria dos eleitores indecisos ou desencantados com o governo esse tipo de política internacional cujos efeitos na vida cotidiana são difíceis de perceber no curto prazo. Para o eleitorado convicto, funcionou como um incentivo em um contexto no qual eles não têm muitas realizações de gestão para mostrar. Neste sentido, o anúncio do pré-acordo teve alguns efeitos reconfortantes para o Macrismo, mas estes foram diluídos na opinião pública quando a agenda de problemas estava localizada em outros eixos como a situação socioeconômica e, até mesmo, a corrupção.

Politike – Alguns candidatos da direita argentina têm tentado se aproximar de Bolsonaro, como Juan José Gómez Centurión. Isso trará algum beneficio a eles? O apoio de Bolsonaro a Macri faz alguma diferença?
FDS: Em geral, não creio que traga algum benefício a esses candidatos. Bolsonaro continua uma personagem amplamente desconhecida para os argentinos. Nos setores mais informados da sociedade, a figura de Gómez Centurión se aproxima de posições de valorização que apresentam diferenças com o restante dos candidatos e atores do sistema – de maneira semelhante ao que aconteceu com Bolsonaro em sua época no Brasil. Fora destes setores, tanto Bolsonaro como Gómez Centurión têm um baixo nível de conhecimento, pelo que os efeitos deste apoio são marginais.

MR: O espaço da direita argentina tem três candidatos: Mauricio Macri, José Luis Espert e Gómez Centurion. Em termos econômicos, há uma proximidade dos três com as orientações de Bolsonaro, bem como no plano geopolítico. Gomez Centurion representa votos (embora as pesquisas deem-lhe cerca de 2%) de um núcleo duro (com tendências xenófobas, autoritárias e conservadoras), mas para Macri um discurso muito duro neste plano aliena potenciais eleitores de centro. Por outro lado, a estimativa do governo é que, em uma situação de segundo turno os votos “duros” da direita iriam para Macri sem a necessidade de assustar outros votos mais centristas que poderiam estar em disputa.

O fator Bolsonaro pode ser visto em um fato recente: enquanto Macri recebia Bolsonaro, o candidato peronista Alberto Fernández visitou Lula na cadeia. Embora haja ecos da voz de Bolsonaro na ministra da Segurança, Patricia Bullrich, ou do candidato a vice-presidente Miguel Pichetto, o que prevalece na campanha do governo nacional é uma afinidade da política econômica mais do que no plano do exercício dos direitos civis, por exemplo.

Politike – Alberto Fernández veio ao Brasil visitar Lula na prisão. Bolsonaro ficou irritado. Ele disse ao Clarín que se a chapa dele vencer, haverá atrito com a Argentina. O que o senhor acha dessa visita? E como o senhor vê essa atuação de Bolsonaro nas eleições argentinas?
FDS: É claro que um triunfo de Alberto Fernández, pelo menos no início da administração, traria atrito com o governo Bolsonaro. A visita de Fernández foi para posicionar sua candidatura ideologicamente no concerto regional. A atuação de Bolsonaro em resposta a essa visita dificilmente terá um impacto no cenário eleitoral, mas a situação pode mudar se Fernández vencer a eleição. A vocação de reaproximação de ambas as partes terá que ser “negociada” permanentemente a partir desse momento. Argentina e Brasil dificilmente podem ir a um confronto aberto, mas ambos terão que moderar suas posições se Alberto Fernández vencer. Vejo neste cenário espaço para Fernández moderar sua posição, ao contrário de Bolsonaro.

MR: Bolsonaro não é uma figura simpática na opinião pública argentina e ninguém no governo o apresenta como modelo a seguir. O mesmo governo argentino está constantemente tentando sair de uma comparação com o governo brasileiro. No entanto, suas “ameaças” reforçam a história macrista de uma comunidade internacional que espera um triunfo de Macri. Em geral, a dinâmica político-eleitoral da Argentina consegue se distanciar das tentativas de influenciar. Bolsonaro não tem capital político para que sua voz seja considerada significativa e, em qualquer caso, seria necessário ver quais efeitos teria dado a avaliação principalmente negativa que ele tem na sociedade argentina.

Politike – Com Cristina em segundo plano, como fica a disputa presidencial?
FDS: A candidatura de Cristina é funcional para a candidatura de Macri. A presença de Cristina como candidata permite e facilita a polarização: o eixo discursivo “nós contra eles” é possível quase que exclusivamente com a presença de Cristina. Inicialmente a candidatura de Fernández era vista como uma possibilidade de reduzir este confronto polarizado. Contudo, o destaque que Cristina ganhou na montagem das listas estruturou o eixo de competência. As figuras de Cristina e Macri ainda são as centrais da cena política argentina, e a presença sozinha de Cristina é o que possibilita esse esquema bipolar.

MR: A decisão de Cristina de não ser candidata e ao mesmo tempo sê-lo desconcertou o governo de Macri, que esperava fazer uma campanha com eixo em sua figura. Nesta parte da campanha, Cristina está fidelizando o seu próprio voto, enquanto Fernández está procurando votos mais distantes ou até mesmo adversos a Cristina. A decisão de Cristina em não liderar a chapa é entendida em dois cenários: eleitoral e de gestão. No eleitoral por entender que ela tinha um teto eleitoral e uma restrição no quadro de alianças, algo que com Fernández se superaria. Na gestão, porque no contexto desfavorável que sairá deste mandato presidencial, será necessário estabelecer negociações com o FMI e no Brasil (e agora a UE) e, novamente, um governo liderado por Fernández aparece potencialmente mais de acordo com o novo ciclo histórico. Na campanha eleitoral, o governo de Macri está reorientando seus ataques a outras figuras como o candidato a governador da província de Buenos Aires Axel Kiciloff, que foi acusado de ser “marxista” e “comunista” (ali havia um traço de bolsonarização de setores do governo argentino), o ex-ministro se definiu como um peronista keynesiano.

FOTO: Marcelo Camargo/Ag. Brasil