Política “Um governo visionário distribuiria máscaras nas favelas”, diz infectologista italiano

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“Um governo visionário distribuiria máscaras nas favelas”, diz infectologista italiano

Para Mario C. Raviglione, ex-diretor do Programa Global de Tuberculose da OMS, medida ajudaria a reduzir transmissão do vírus em comunidades densamente habitadas

Por Gabriel Bonis, de Berlim

Na luta contra a propagação do novo coronavírus, o governo brasileiro deveria instruir moradores das favelas a desinfetarem suas casas, usar programas sociais para condicionar a população a adotar medidas contra a COVID-19 e distribuir máscaras nas comunidades. É o que defende o médico italiano Mario C. Raviglione, ex-diretor do Programa Global de Tuberculose da Organização Mundial da Saúde (OMS), entidade com a qual esteve envolvido em projetos educativos para comunidades no Rio de Janeiro.

O Brasil tem mais de 188 mil casos confirmados da COVID-19 e superou as 13 mil mortes, conforme dados do Ministério da Saúde desta quinta-feira 14. Em um relatório de 10 de maio, a universidade britânica Imperial College de Londres alerta que o Brasil terá mais de 7,7 mil mortes nesta semana.

“Idealmente, [é preciso] usar máscara se alguém estiver tossindo, porque é assim que se reduz drasticamente a propagação. Um governo visionário teria uma distribuição dessas máscaras e educaria a população. Isso é crucial e é de baixo custo”, diz o diretor do Centro Global de Saúde da Universidade de Milão, na Itália.

Densamente povoadas, as favelas da cidade do Rio de Janeiro registram ao menos 81 mortes. Em São Paulo, os casos confirmados de coronavírus avançam na periferia. Segundo a prefeitura, os distritos da cidade com maior quantidade de mortes pela COVID-19 possuem grande quantidade de favelas, cortiços e conjuntos habitacionais.

Neste contexto, Raviglione acredita não ser “a hora de relaxar” medidas de isolamento social, conforme vem defendendo o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Para o infectologista, o país deveria ainda usar mecanismos de proteção social para ajudar a população e para condicioná-la a adotar medidas de distanciamento e investir em saúde pública.

“Esta situação exigirá uma preparação adequada para a próxima crise. E isso requer investimento. Portanto, os políticos que a cada ano continuam cortando os investimentos em saúde pública são responsáveis por esse tipo de situação”, afirma.

Por outro lado, o médico reconhece que o isolamento tem consequências negativas – além das econômicas. Um relatório da Lancet Psychiatry mostra que 21% dos 1,099 entrevistados no Reino Unido estavam extremamente preocupados com o impacto do auto-isolamento, do distanciamento social e do lockdown em sua saúde mental.

Nos EUA, 19% dos entrevistados para uma pesquisa encomendada pela Universidade de Phoenix revelaram que o prolongamento do distanciamento social terá sérias implicações em sua saúde mental. “Esse tipo de situação deve ser levado em consideração”, diz Raviglione.

Lavar as mãos com frequência é uma das recomendações da OMS para evitar a propagação do novo coronavírus. Foto: Couleur / Creative Commons / Pixabay

Que lições você aprendeu com a crise italiana do COVID-19? O que elas  podem ensinar a países como o Brasil?

Mario C. Raviglione – Existem quatro lições principais. A primeira: houve uma tentativa de alguns políticos, mal informados por seus próprios epidemiologistas e consultores, de minar a seriedade da situação. A segunda é a falta de preparação, apesar da alta pontuação alcançada pela Itália na auto-avaliação anual realizada como parte de regulamentos internacionais de saúde. A pontuação italiana foi bastante alta. No entanto, esse status de preparação não era exatamente o que deveria ser. Portanto, confiar apenas na auto-avaliação não é suficiente. Depois, há o grande problema de escassez de serviços bem preparados, o que resultou em pessoas que não receberam atendimento suficiente. Outra lição está relacionada à capacidade de gerenciamento de riscos. Na Itália, a noção de comunicação adequada com a sociedade simplesmente não estava ali. Isso teria levado a uma adesão muito maior às recomendações no início, talvez até evitando o lockdown no país. O risco não foi comunicado adequadamente.

Quais foram os piores aspectos da pandemia na Itália?

Raviglione – Na Itália, houve uma consciência muito aguda da preparação insuficiente para enfrentar algo como uma pandemia. Portanto, a capacidade disponível para lidar com emergências de saúde simplesmente não existia. Como consequência, acredita-se que o país teve uma taxa de mortalidade mais alta que em outros lugares. Outro aspecto negativo foi a posição escandalosa de políticos que, no início, tinham a tendência de diminuir completamente o que estava por vir. E, por outro lado, mais tarde, talvez, criando pânico devido a uma comunicação de risco mal gerenciada. Esta é uma lição a ser aprendida: é importante também preparar a comunicação para o público em geral. Em alguns lugares, os serviços sofreram tremendamente, levando à impossibilidade de prestar atendimento adequado àqueles que precisavam de assistência na UTI ou ventilação mecânica. Acredito que esta situação exigirá automaticamente uma preparação adequada para a próxima crise. Esta certamente não é a primeira e não será a última. E isso requer investimento. Portanto, os políticos que a cada ano continuam cortando os investimentos em saúde pública são responsáveis por esse tipo de situação.

O senhor testemunhou alguma situação chocante durante a pandemia na Itália?    

Raviglione – Um aspecto chocante é a quantidade de estigmatização. No começo, era contra a população chinesa ou de descendência chinesa na Itália. Eles foram literalmente discriminados. Então, isso se voltou para pessoas do norte da Itália. Havia declarações, às vezes de brincadeira, outras, mais seriamente, dizendo às pessoas do norte que ficassem por lá, para não virem ao sul. Finalmente, agora existem situações humilhantes para os profissionais de saúde de unidades que tratam pacientes com COVID-19. Por exemplo, descobrir onde esses trabalhadores moram e colocar cartazes para que eles basicamente não voltem.

O senhor trabalhou na cidade do Rio de Janeiro com líderes comunitários de favelas em projetos da OMS relacionados à tuberculose. Quais são os principais desafios de combater doenças infecciosas em comunidades pobres?

Raviglione – Tive a oportunidade de conhecer líderes comunitários do Rio em pelo menos duas ocasiões no Brasil, quando estava trabalhando para a OMS na resposta global contra a tuberculose e na noção de como influenciar a situação nas favelas de uma forma favorável, facilitando, por exemplo, o diagnóstico precoce de pacientes com tuberculose ou a adesão ao tratamento – que é fundamental se alguém quiser curar uma pessoa da tuberculose. Essa experiência foi positiva por causa de organizações comunitárias não-governamentais que funcionam como intermediárias entre o sistema formal da região metropolitana ou do município do Rio e as comunidades, onde normalmente os trabalhadores da saúde não podem simplesmente ir. Ter esses líderes como intermediários é absolutamente essencial. Os desafios e a solução para erradicar doenças infecciosas nesses tipos de ambientes são assegurar que líderes comunitários e voluntários que trabalham nas favelas sejam informados e transmitam essas informações e o risco real para as pessoas de forma que elas também estejam preparadas. As condições de vida nas favelas são muito difíceis e é nesse tipo de ambiente que o risco é muito alto porque as pessoas vivem congestionadas.

O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. A maioria das nações ricas está fornecendo apoio financeiro suficiente a seus cidadãos para que fiquem em casa. No Brasil, esse suporte é pequeno, o que preocupa a população mais carente. Qual seria um equilíbrio adequado entre evitar um caos na área da saúde e uma crise de pobreza?

Raviglione – Nos últimos 15 anos, o Brasil teve à sua disposição uma série de mecanismos de proteção social, incluindo o famoso Bolsa Família. Eu me pergunto por que [o governo]não simplesmente ativa esses mecanismos ou os expande. Por exemplo, se essas forem transferências condicionadas de dinheiro, elas podem estar ligadas à condição de usar uma máscara se você estiver doente. Esses mecanismos de proteção social devem ser disponibilizados em situações de emergência a quem precisa. Não há outra maneira senão diferentes tipos de proteção social. Pode-se usar transferências condicionadas de renda ou de itens, como máscaras e produtos de limpeza, que facilitariam a adoção de certas medidas.

Bairro do Heliópolis, em São Paulo. Foto: Ricardo Stuckert / Creative Commons

Já há diversos casos e mortes confirmadas pela COVID-19 nas favelas do Rio de Janeiro e na periferia de São Paulo. Essas áreas tendem a ser densamente povoadas e pobres. Qual é o potencial de propagação do vírus nessas regiões?

Raviglione – É muito alto. Em todo o mundo vimos muitos casos surgindo rapidamente durante o surto nas grandes cidades. Vimos isso em Wuhan, Nova York e Milão. Nas cidades, as pessoas vivem em ambientes muito mais densos, o que facilita a transmissão. Uma favela é o melhor modelo que se pode pensar em uma rápida disseminação do vírus, já que as pessoas vivem congestionadas, com várias indivíduos em uma mesma casa. Você só precisa de um contaminado e os outras serão infectados de maneira bastante direta.

Em meio à pandemia, alguns habitantes das favelas do Rio pulverizam desinfetantes, como água sanitária e hipoclorito de sódio, nas ruas de suas comunidades. A idéia é conter a propagação do vírus. Isso é realmente eficaz?

RaviglioneNão vejo como a pulverização desses produtos impedirá a propagação do vírus. O vírus se espalha por diferentes mecanismos. Quando alguém tosse ou fala, elimina-se milhões de pequenas gotas de saliva. As menores podem ser espalhadas a uma distância muito curta e você pode inalá-las. Os maiores podem pousar em superfícies. Se eles caírem em uma mesa ou telefone celular, podem ficar lá por horas. Então você pode tocar a superfície e depois seus olhos, boca ou nariz. Portanto, seria muito mais útil as pessoas usarem esses desinfetantes dentro de suas casas, onde mantêm móveis ou onde uma pessoa com COVID-19 pode ir e contaminar, por exemplo, a mesa. O que lhes deve ser ensinado é limpar dentro de suas casas, que podem ser veículos do vírus, e não a rua.

O que pode ser feito para impedir a propagação do vírus em favelas?

RaviglioneA população nessas áreas deve ser instruída, por exemplo, a não desperdiçar seu desinfetante nas ruas e limpar as mãos. Mas é muito difícil impedir [a propagação do vírus]em uma favela. O acesso às favelas seriam os líderes da comunidade. [Em projetos da OMS sobre tuberculose], fornecíamos educação [a líderes comunitários no Rio]e eles voltavam e educavam sua própria comunidade. Essas são as pessoas que podem instruir o uso de desinfetantes nas casas. E é claro, idealmente, o uso de máscara se alguém estiver tossindo, porque é assim que se reduz drasticamente a propagação. Se você tossir com uma máscara, as gotas serão bloqueadas. Isso tem que ser ensinado. Um governo visionário na cidade ou estado do Rio, ou o governo federal, teria uma distribuição dessas máscaras e educaria a população. Se aqueles com sintomas usam a máscara, o potencial de infectar outras pessoas é muito limitado. Isso é crucial e é de baixo custo. Mas requer provavelmente a intervenção de líderes comunitários.

É possível relaxar as medidas de distanciamento social e aplicar outras complementares e ainda conter a disseminação do vírus?

RaviglioneNão quando você está em uma situação como essa no Brasil, onde os casos estão aumentando. No momento, não há evidências de que o pico tenha sido alcançado. Muitos países tiveram seu pico, que agora está caindo. Mesmo nessas situações, seria imprudente relaxar algumas das medidas. Não é hora de relaxar nada. É hora de realmente fortalecer algumas das medidas.

FOTO: KAROLY ARVAI / AFP / POOL

Bolsonaro sugeriu que políticas de distanciamento seriam responsáveis por mortes por COVID-19. Como o senhor responde a esse comentário?

Raviglione  Não acho que faça sentido. É sempre difícil demonstrar cientificamente [os efeitos do distanciamento social]porque não é um ensaio clínico. É um pouco mais difícil, porque implica todo o comportamento social das pessoas. Há uma política de distanciamento social, mas as pessoas ainda comem e andam juntas. Então, de certa forma, é não é simples quantificar. No entanto, observamos nessa epidemia que em todos os países onde houve distanciamento social o vírus em algum momento após o pico começa a declinar. Não ouvi falar de outro lugar em que o distanciamento social tenha criado o problema. Distanciamento social é a solução. Dizer que é o problema não faz sentido científico.

Pode-se dizer que o distanciamento social, especialmente quando há um bloqueio rígido, tem outras consequências. Um artigo recente mostrou que durante o lockdown cerca de 40% das pessoas mencionaram problemas de saúde mental. Em algumas delas, seriam problemas bastante graves. Então você tem esse tipo de situação que deve ser levado em consideração. O New England Journal of Medicine relatou que cardiologistas identificaram que o número de mortes no norte da Itália, além daquelas atribuídas ao COVID-19, poderia ter sido atribuído ao infarto do miocárdio ou à doenças coronarianas, porque as estatísticas mostram que o número de pessoas admitidas em hospitais com esses problemas cardíacos diminuiu drasticamente durante o COVID. E a ideia é que eles possam ter ficado em casa. Eles podem não ter sido solicitados a ir ao hospital. É essa mentalidade que causou a morte.

Foto em destaque: NakNakNak / Creative Commons / Pixabay