Carrossel, OxPol, Política Quando o técnico é político

Quando o técnico é político

Após acordo de paz com as FARC, Bogotá foca agora na exportação de experiência em segurança para mudar a imagem do país no cenário internacional

Por Jan Eijking*

Em um discurso de despedida no ano passado, pouco antes de deixar o cargo, o ex-presidente Juan Manuel Santos gabou-se: “Hoje temos as melhores forças armadas da nossa história.” Orgulhosamente, ele acrescentou: “Somos uma referência global” E, de fato, parece que a Colômbia abriu um novo capítulo. Desde os acordos de paz de 2016 com a maior organização guerrilheira colombiana, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o país parece estar em alta.

Com as Farc na mesa de negociações, a história continua e o país finalmente conseguiu olhar para o futuro e dedicar seus recursos à transição e reconstrução: a reintegração de ex-combatentes, a redistribuição de territórios anteriormente ocupados e a recuperação de uma economia enfraquecida por décadas de violência e corrupção.

A Colômbia conseguiu convencer a platéia internacional de sua suposta virada de 180 graus – longe daquela imagem de campeã mundial de exportação de cocaína e um dos focos de guerrilha da América Latina. Em seu lugar, Bogotá elaborou cuidadosamente e ensaiou de forma rigorosa a imagem de especialista em segurança: um Estado capaz de treinar outros com instituições de segurança menos experientes em habilidades policiais e militares. Mas um olhar mais atento à criação do novo produto de exportação da Colômbia mostra que há mais do que uma simples história de sucesso.

Criação de um novo bem de exportação

O novo bem de exportação colombiano é a experiência em segurança: a oferta de treinar unidades policiais e militares de outros países em habilidades como combate na selva, contranarcóticos urbanos ou interdição marítima. Desde 2012, a Colômbia assinou vários “acordos de segurança triangulados”, nos quais terceiros (principalmente Canadá e EUA) atuam como patrocinadores, pagando sessões de treinamento para países como Honduras, Guatemala e El Salvador (os países do Triângulo Norte), mas também Gana e outras nações da África Ocidental nas rotas do narcotráfico para a Europa.

Para os patrocinadores, esta é uma oportunidade de política externa de baixo custo e risco, enquanto para a Colômbia é um bem-vindo trampolim de mudança de imagem. Para os profissionais de segurança que recebem o treinamento, é o tipo de oferta gratuita difícil de se recusar. Mas o quão crível é a história de sucesso em que se baseia a nova reivindicação de status colombiana?

Desde que Santos serviu seu primeiro mandato como presidente, muita coisa mudou – certamente em relação ao conflito armado. O acordo de paz com as Farc foi um final bem-sucedido de vários anos de negociações em Havana. Não obstante, dois desenvolvimentos recentes desaceleraram o progresso: 1) o acordo foi rejeitado em referendo popular; 2) o governo de direita de Iván Duque, à sombra do “eterno ex-presidente” e militar convicto Álvaro Uribe, reavivou a política do confronto. Se isso significa um retorno aos velhos tempos permanece aberto ao debate, não se sabe, mas indica que a nova imagem internacional da Colômbia pode ser prematura.

Quid pro quo?

Imaginada ou real, a noção de um “retorno colombiano” está viva e bem. Mas quem dita os seus termos? Para o Canadá e os EUA, os acordos triangulares com a Colômbia são obviamente atraentes: as potências do Norte são capazes de manter a imagem de coesão e custos políticos baixos (em contraste com, por exemplo, a intromissão direta dos EUA na política da América Central e do Sul) deixando a lei e a ordem para um aliado confiável. Para os países receptores da América Central, existe simplesmente a oferta atraente de treinamento policial e militar gratuito por autoproclamados especialistas.

Mas qual é a força-motriz da Colômbia? A segurança nacional é um candidato improvável – embora as teorias clássicas das relações internacionais possam tomar esse motivo como ponto de partida. Nesse raciocínio, a Colômbia enfrentaria algum perigo externo à sua própria estabilidade. Somente neste caso, ameaças à segurança (principalmente o comércio de narcóticos) fluem para fora da Colômbia e não para o país. Os benefícios para a Colômbia não são, portanto, imediatamente claros. Dado que os recursos de segurança do país estão amplamente ocupados com a atual violência, é surpreendente que a Bogotá possa realmente enviar alguns de seus principais oficiais em viagens de treinamento à Guatemala.

Um olhar mais atento aos atores envolvidos nesse turno ajuda a entender o quebra-cabeça. Podemos apreciar a transformação do país como um caso de construção de status, e como uma estratégia de negócios para a indústria de defesa da Colômbia. Por um lado, exportar experiência significa melhorar sua reputação, especialmente em um setor no qual foi prejudicado por décadas de conflito. Aqui, a reputação é moldada por uma interação de diretrizes governamentais e pelo interesse autônomo do setor de segurança na autopreservação.

Por outro lado, exportar experiência significa fornecer aos outros conhecimentos que eles só podem usar se tiverem acesso aos mesmos meios. E a Colômbia está mais do que feliz em fornecer esses meios. O volume de exportações da indústria nacional de defesa colombiana, INDUMIL (indústria militar), triplicou desde 2010, incluindo a venda pelo fabricante de equipamentos marítimos COTECMAR de um navio de desembarque anfíbio de 13,5 milhões de dólares ao governo de Honduras. Esses navios são fundamentais para os narcotécnicos marítimos, para os quais a Colômbia oferece treinamento em Honduras.

Assim, as evidências aparentemente apóiam uma interpretação de vantagem de mercado direta da atividade colombiana, em vez de “puro altruísmo”. Desde o ano passado, a Colômbia é parceira oficial da OTAN e, portanto, não só é confirmada em seu status de especialista em segurança, mas também recebe um certificado oficial de suas exportações nacionais de armas.

Não apenas vantajoso para ambas as partes

O fornecimento de treinamento em segurança na região e no exterior parece se encaixar na postura do país como uma “nova Colômbia” pós-conflito. Observar mais de perto os motivos de Bogotá, no entanto, juntamente com a combinação observada de oferta de treinamento com novas oportunidades de negócios para o setor de defesa, permite algumas conclusões interessantes.

A história da Colômbia nos diz que as reivindicações de experiência raramente são neutras. E que o fornecimento de know-how técnico é carregado de significado político. Por um lado, a reivindicação de um Estado por status de especialista também é uma reivindicação da superioridade de uma interpretação específica de suas ações (ou seja, a avaliação de que a Colômbia está entrando em uma “nova era”, estando pronta para compartilhar sua experiência agora); segundo, uma noção vaga de “compartilhamento de know-how técnico” deixa margem para o setor de segurança usar novas parcerias para outros objetivos, como o comércio de armas.

Com sua vasta experiência, a polícia e os militares colombianos são, sem dúvida, profissionais especializados em suas respectivas áreas. Mas se o Estado colombiano se apropriar dessa experiência para transmitir uma imagem, em casa e no exterior, que realmente não corresponde à realidade, então podemos estar negligenciando o trabalho doméstico que a Colômbia ainda deve fazer. E esse status como especialista internacional pode ser utilizado seletivamente para outros fins que não a cooperação. Isso é problemático.

É problemático para a comunidade internacional, que não questionou essa imagem, e é problemático para o futuro da Colômbia, pois exporta um sucesso que talvez ainda não tenha garantido.


Este artigo foi traduzido para o português por Gabriel Bonis sob a orientação do Politike. 

Artigo publicado originalmente em OxPol. Acesse o texto original aqui.

*Jan Eijking é doutorando no Departamento de Política e Relações Internacionais da Universidade de Oxford (DPIR), no Reino Unido.

Foto: O ex-presidente colombiano Juan Manuel Santos costurou um acordo de paz com as Farc. Crédito: FOTO: Juan BARRETO / AFP