Destaque, Política Por que o estímulo de Trump ao ressentimento racial branco é eficaz

Por que o estímulo de Trump ao ressentimento racial branco é eficaz

The Conversation
As ações racistas do presidente dos EUA são ruins para todos os americanos da classe trabalhadora

Por Donald T. Tomaskovic-Devey e Eric Hoyt*

Muitos homens brancos dizem se sentir ameaçados pela crescente presença e sucesso das minorias no mercado de trabalho.

Mas há alguma evidência para apoiar essa ameaça econômica percebida, uma percepção que pode fornecer terreno fértil para as atuais rodadas de mensagens políticas racistas e xenófobas?

Em nosso relatório mais recente, Race, States and the Mixed Fate of White Men, examinamos a conexão entre as populações minoritárias e as perspectivas de trabalho de homens brancos em empresas do setor privado.

Privilégio do homem branco

Cientistas sociais geralmente concordam com três descobertas de pesquisa sobre homens brancos nos EUA e a noção de que eles estão perdendo seus privilégios raciais não conquistados, mas esperados.

Primeiro, homens brancos em todos os níveis de educação têm mais probabilidade do que mulheres e minorias não asiáticas de obter acesso a empregos com salários mais altos.

Em segundo lugar, enquanto os salários médios das pessoas da classe trabalhadora nos EUA estagnaram nas últimas décadas, e a insegurança econômica aumentou, os ganhos para os empregos de classe média e alta – que são dominados por brancos instruídos – dispararam.

Uma terceira descoberta é que os homens brancos da classe trabalhadora são o grupo que é mais racialmente ressentido e mais oposto à imigração. Essa conclusão é baseada em análises de dados de pesquisas de toda a população dos EUA examinando tanto o comportamento eleitoral quanto as atitudes em relação a negros e imigrantes, concentrando-se nos principais apoiadores do presidente Donald Trump e no conteúdo de suas mensagens políticas para eles.

Esse ressentimento provavelmente explica por que os brancos da classe trabalhadora, particularmente os homens, são tão receptivos às mensagens anti-imigrantes e racistas de Trump – e por que ele os mira.

Suspeitamos que a recepção a mensagens racistas e xenófobas poderia ser um reflexo de uma crescente competição entre brancos da classe trabalhadora e homens de minorias por empregos cada vez mais inseguros e de baixa remuneração.

Homens brancos dominam a comitiva executiva

Em nosso estudo, comparamos a participação de diferentes grupos raciais de ocupações específicas com sua porcentagem da força de trabalho de seu estado. Em outras palavras, queríamos ver o quão sub ou super-representados homens brancos, negros e hispânicos, estavam em vários empregos.

Em geral, descobrimos que enquanto alguns homens brancos estão prosperando em funções executivas e gerenciais, há outro grupo de homens brancos com experiências de emprego muito diferentes.

Homens brancos são super-representados em cargos de nível executivo em todos os estados do país em relação à sua parcela da força de trabalho. O Texas, onde as minorias representam um terço da força de trabalho e os brancos um pouco mais de 37%, foi o mais extremo. Os homens brancos ocupavam 85% dos cargos executivos do setor privado, fazendo com que eles estivessem super-representados em altos cargos por 138%.

Outros estados com populações minoritárias consideráveis, como a Califórnia e o Novo México, também mostraram que os homens brancos são especialmente favorecidos em seu controle da comitiva executiva.

Descobrimos o mesmo padrão, embora menos extremo, de vantagem masculina branca nos cargos de gerência do setor privado.

Competição da classe trabalhadora

O padrão muda drasticamente, no entanto, quando olhamos para empregos de baixa remuneração da classe trabalhadora.

Estes incluem operadores de máquinas e fábricas, trabalhadores manuais e ocupações de serviços. Tais empregos normalmente exigem diplomas de ensino médio ou menos e tendem a pagar salários baixos. Descobrimos que mais da metade desses empregos pagam abaixo da meta de salário mínimo de US$ 15 por hora.

Em todos os estados, os negros eram super-representados como operadores de máquinas, trabalhadores manuais e trabalhadores de serviços. Homens hispânicos eram super-representados em trabalhos de operários de máquinas e trabalhos manuais em todos os estados, exceto no Havaí.

A super-representação da classe trabalhadora para homens de minorias tende a ser maior em estados com populações minoritárias pequenas, como Vermont, Maine e Dakota do Norte.

Mas queríamos chegar mais diretamente ao grau em que os homens brancos da classe trabalhadora estão competindo pelos mesmos empregos de baixa remuneração que os homens de minorias. Assim, comparamos o número de homens negros, hispânicos, nativos americanos e nativos havaianos que realizavam trabalho operacional, operário ou de serviço versus homens brancos. Em todos os estados, exceto no Havaí, essas minorias são em sua maioria negras ou hispânicas ou ambas.

Descobrimos que em quase todos os estados, os homens brancos da classe trabalhadora estavam competindo por empregos com grupos relativamente grandes de homens de minorias. E em 20, havia mais homens de minorias nesses empregos da classe trabalhadora do que homens brancos. Esse padrão era mais extremo em Washington, DC e na Califórnia, onde havia mais de três homens nessas carreiras para cada homem branco.

Melhorando a vida da classe trabalhadora

Isso não significa que os brancos da classe trabalhadora tenham perdido toda a sua vantagem racial, mas sim que ela é mais tênue e existe em um contexto de estagnação e insegurança salarial. Pesquisas mostram que muitos brancos atribuem o fato de estarem presos em empregos inseguros e de baixos salários à competição com minorias, mas não estão cientes das tendências mais amplas de estagnação salarial e de crescente insegurança para todos os empregos da classe trabalhadora.

Portanto, talvez não surpreenda que essa combinação de concorrência visível e culpa equivocada crie condições férteis para alimentar o ressentimento racial e imigrante.

Talvez seja politicamente mais simples encorajar os trabalhadores a verem uns aos outros como rivais, mas as soluções políticas que realmente farão a diferença precisam se concentrar na segurança econômica compartilhada – em vez de nos jogos de culpa.

*Donald T. Tomaskovic-Devey é professor de Sociologia e diretor do Centro para Equidade no Emprego da Universidade de Massachusetts Amherst, EUA. Eric Hoyt é diretor de pesquisa na mesma instituição. Uma versão maior deste artigo foi publicada em The Conversation.

Foto: SAUL LOEB / AFP