Carrossel, Política “Parece improvável que Maduro permaneça no poder”

“Parece improvável que Maduro permaneça no poder”

Gabriel Leon, professor de Economia Política no King’s College London, acredita que a pressão internacional irá derrubar o regime

Por Gabriel Bonis, de Berlim

Desde que Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, se declarou líder interino da Venezuela no fim de janeiro, a pressão internacional sobre Nicolás Maduro tem aumentado exponencialmente. A oposição contesta o segundo mandato do sucessor de Hugo Chávez, alegando fraudes nas eleições presidenciais de 2018, não reconhecida por diversos países, entre eles EUA e Brasil.

Guaidó prometeu convocar eleições livres e transparentes, o que lhe garantiu até o momento o reconhecimento de 42 países, entre eles 19 integrantes da União Europeia. O México e o Uruguai sugeriram a negociação de um “acordo de paz nacional” para encerrar a crise política em Caracas.

“Creio que seja improvável que esse plano funcione porque Maduro não tem incentivo para negociar. Quando estiver fora da Venezuela, ele provavelmente será processado. E, embora Guaidó oferece imunidade, o passado sugere que os ditadores latino-americanos acabam eventualmente processados por seus crimes”, afirma Gabriel Leon, professor de Economia Política no King’s College London, no Reino Unido, e especialista em conflitos, forças armadas e mudanças institucionais.

Apoiado pela China e Rússia, o regime de Maduro cortou relações diplomáticas com os EUA. Washington, por sua vez, impôs sanções bilionárias à petroleira estatal PDVSA e entregou a Guaidó o controle de contas oficiais da Venezuela naquele país.

As chances de Maduro concluir seu contestado segundo mandato, avalia o academic, são cada vez mais remotas. “No momento isso parece improvável, dada a crise econômica e a pressão internacional que o regime enfrenta. É difícil imaginar que a economia venezuelana possa se recuperar sem uma mudança no governo.”

Maduro, contudo, ainda possui o apoio das Forças Armadas, que desde a era Chávez ocupa generosos espaços nas estruturas do Estado. Por enquanto, os militares seguem dispostos a proteger o atual regime, com algumas poucas exceções: Francisco Yánez, general de Divisão da Aviação, e o coronel José Luís Silva Silva, ex-adido militar da embaixada nos EUA, declararam apoio a Guaidó.

Politike: O senhor acredita que Maduro terminará seu mandato atual? Qual o impacto da crescente pressão internacional sobre o regime?
Gabriel Leon: No momento parece improvável, dada a crise econômica e a pressão internacional que o regime de Maduro enfrenta. É difícil imaginar que a economia venezuelana possa se recuperar sem uma mudança no governo. A pressão internacional é destinada a fazer com que os militares se voltem contra Maduro, e isso pode funcionar.

Politike: O senhor acredita que Juan Guaidó representa uma possibilidade real de transição democrática na Venezuela ou sua decisão de invocar a Constituição para assumir o cargo de presidente interino piora a crise?
GL: A decisão de Guaidó revitalizou a oposição na Venezuela e aumentou a pressão nacional e internacional sobre Maduro. E isso pode marcar o início do fim para Maduro, mesmo que no curto prazo piore o cenário.

Politike: Parte da comunidade internacional está correta em apoiar Guaidó?
GL: Em termos de uma estratégia para forçar Maduro a deixar o poder, estão corretos. Mas esse movimento traz alguns riscos. As sanções impostas à petroleira venezuelana tendem a piorar a crise econômica e humanitária, além de poder levar ao envolvimento de outros atores, inclusive a Rússia.

Politike: É possível que a proposta do Uruguai e do México para uma solução negociada na Venezuela tenha algum potencial de funcionar?
GL: Creio improvável porque Maduro não tem incentivo para negociar. Quando estiver fora da Venezuela, ele provavelmente será processado. E, embora Guaidó ofereça imunidade, a experiência passada sugere que os ditadores latino-americanos acabam eventualmente processados por seus crimes. No passado, Maduro pediu diálogo, mas simplesmente usou a oferta para ganhar mais tempo e se reagrupar.

FOTO: LUIS ROBAYO / AFP