Política Países ricos se beneficiaram da mudança climática nos últimos 60 anos

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Países ricos se beneficiaram da mudança climática nos últimos 60 anos

The ConversationA desigualdade global é 25% maior do que seria em um mundo com clima estável

Por Nicholas Beuret*

Aqueles menos responsáveis pelo aquecimento global sofrerão mais. Os países mais pobres, que contribuíram muito menos para as mudanças climáticas, tendem a se situar em regiões mais quentes, onde o aquecimento adicional causa a maior devastação. Eventos climáticos extremos, como a seca prolongada na Síria e as inundações de monções catastróficas do sul da Ásia, tem se tornado mais prováveis e mais severas.

Esses eventos desproporcionalmente causam morte, deslocamentos e problemas de safra. Como resultado, projeções estimam que as economias de nações mais pobres e mais quentes serão seriamente prejudicadas pela mudança climática nas próximas décadas, enquanto os países mais frios e ricos – responsáveis pela grande maioria da emissão extra de CO2 – podem até mesmo se beneficiar no curto prazo.

Conforme revela uma nova pesquisa, essa não é apenas uma preocupação futura: a injustiça econômica das mudanças climáticas opera há 60 anos.

O estudo, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, comparou o PIB per capita de diferentes países entre 1961 e 2010. Em seguida, usou modelos climáticos para estimar o PIB de cada país sem os efeitos da mudança climática. As descobertas são gritantes.

Muitas economias de países mais pobres cresceram rapidamente nos últimos 50 anos. Mesmo essa alta foi, no entanto, contida substancialmente pela mudança climática. A diferença no PIB per capita entre países mais ricos e mais pobres é 25% maior do que teria sido em um mundo com clima estável. E com os países mais ricos situados abaixo e os mais pobres acima da média anual de temperatura de 13ºC na qual a produtividade econômica atinge o auge, o aumento da temperatura global é um fator imediato dessa desigualdade.

Dos 36 países com as menores emissões históricas de carbono, que também são alguns dos mais pobres e mais quentes do mundo, 34 sofreram um impacto econômico em comparação com um mundo sem aquecimento, perdendo em média 24% do PIB per capita. Os 40% países mais pobres, muitos dos quais estão localizados na África Subsaariana, Ásia e Américas Central e do Sul, perderam entre 17% e 31% do PIB no último meio século.

A Índia, um dos menores emissores per capita, tem sido considerada campeã de crescimento econômico nas últimas décadas, mas a mudança climática desacelerou seu progresso em 30%. Enquanto o setor de serviços do país tem crescido, a área agrícola sofreu muito. Um aumento de três vezes nos eventos extremos de chuvas e a ampliação de secas severas reduziram o rendimento das safras e causam cerca de 10 bilhões de dólares em danos por ano somente para o setor agrícola.

O país também teve que gastar bilhões em resgate e reconstrução devido a ciclones como a tempestade Odisha, em 1999, que deixou dois milhões de desabrigados.

Para os países mais ricos, as mudanças climáticas aumentaram, porém, o caixa – 14 dos 19 maiores emissores agora se encontram em uma posição econômica melhor do que teriam se a temperatura do planeta tivesse permanecido constante, com um impulso médio de 13%.

Conforme fica cada vez mais evidente, não há soluções rápidas para a mudança climática ou a desigualdade. Reduzir as emissões não é suficiente. Paralelamente à mudança radical das economias das nações mais ricas do mundo, devemos exigir que reparações por injustiças passadas sejam pagas, que as dívidas do Sul global sejam canceladas e que a privatização de indústrias e terras locais seja revertida. Só então a desigualdade global pode ser verdadeiramente combatida.

FOTO: Photocurry / Creative Commons / Pixabay


*Professor da Universidade de Essex, no Reino Unido. Uma versão mais longa deste artigo foi originalmente publicada no The Conversation