Carrossel, Direitos Humanos, Home 1, Política O que Canadá e África do Sul podem ensinar aos EUA sobre reparações da escravidão

O que Canadá e África do Sul podem ensinar aos EUA sobre reparações da escravidão

The Conversation
O fracasso norte-americano em reconhecer e resolver a catástrofe da escravidão está atrasando toda a nação

Por Bonny Ibhawoh*

O fracasso dos Estados Unidos em entender, reconhecer e resolver a contínua catástrofe da escravidão está atrasando toda a nação. Sem um amplo reconhecimento público de que a riqueza original do país foi derivada injustamente da escravidão, e que os esforços deliberados pós-emancipação perpetuaram o abismo social e econômico entre a América branca e negra, não pode haver justiça ou cicatrização.

Recentemente, um grupo de proeminentes afro-americanos testemunhou perante o Congresso dos EUA sobre reparações para os descendentes de escravos, reabrindo uma ferida ainda dolorosa para aqueles que continuam sofrendo os efeitos tangíveis do legado racista da escravidão.

Questão polarizadora

Com vários candidatos presidenciais democratas tomando posições sobre o tema, a ideia de reparações pode finalmente se tornar uma questão na urna. Mas há uma maneira menos política, mais produtiva e mais prática de abordá-la, e ela já foi testada.

Alguns comentaristas afirmaram, acertadamente, que os americanos podem aprender com a África do Sul, que empreendeu um processo público nacional para estabelecer uma Comissão da Verdade e Reconciliação afim de debater sua longa história de apartheid, com o seu racismo legal institucionalizado.

O processo incluiu comoventes depoimentos televisionados de vítimas cujas famílias foram destruídas pela violência e brutalizadas por seu próprio governo. Ao trazer esses problemas à tona, o processo permitiu que o país enfrentasse décadas de atrocidades do apartheid e seu impacto devastador.

Lições do Canadá?

O Canadá estabeleceu sua Comissão de Verdade e Reconciliação em 2008, contrariando os críticos do modelo de justiça restaurativa e aqueles que afirmavam que o formato era mais adequado para países do “Terceiro Mundo” com instituições políticas e judiciais fracas.

A iniciativa canadense foi criada para documentar a história e o impacto do sistema escolar residencial do país sobre as crianças indígenas e suas famílias.

A comissão estudou mais de um século de esforços determinados e oficialmente sancionados para resolver o “problema indígena” do Canadá, separando crianças de seus pais e forçando-as ir a escolas onde frequentemente eram desnutridas, fisicamente e sexualmente abusadas por seus professores e proibidas de usar suas próprias línguas.

O esforço, descrito por alguns como genocídio absoluto, deixou gerações de famílias destruídas, empobrecidas e viciadas.

A Comissão de Verdade e Reconciliação do Canadá ofereceu oportunidades para as vítimas e suas famílias compartilharem suas experiências em sessões públicas e privadas. Todo o país finalmente ouviu, em caráter oficial, sobre a vergonha que acontecera nas escolas e seu impacto trágico sobre indivíduos, famílias e comunidades.

Quando a comissão divulgou suas conclusões em 2015, publicou um documento com 94 chamadas para ação que visavam ajudar na reconciliação, cobrindo bem-estar infantil, educação, saúde, idioma e cultura, justiça e equidade para os povos indígenas no sistema legal. Também recomendou-se a criação de museus e arquivos para documentar a história e as experiências dos povos indígenas.

Essa comissão não resolveu os problemas de marginalização e de assimilação forçada, mas estimulou conversas oficiais e cotidianas sobre esses assuntos.

Dúvida e apatia

Aqueles que defendem as indenizações duvidam das perspectivas de resolver o problema em um ambiente político paralisado pelo hiperpartidarismo, em que mesmo questões mais simples passam lentamente por processos que acabam mais para ganhar pontos políticos do que governança genuína.

Fazer a sociedade dos EUA enfrentar sua verdade é difícil quando, como um colega americano me disse, muitos ainda não têm ideia de que a escravidão e seus descendentes sinistros, incluindo as leis de Jim Crow e segregação, continuam a ter impactos terríveis nas vidas dos afro-americanos, tanto perpetuando o racismo quanto limitando severamente oportunidades econômicas e a mobilidade social.

Os defensores da reparação e seus oponentes precisam saber que o processo de verdade e reconciliação pode incluir averiguação histórica objetiva e justiça reparadora. O principal benefício é reconhecer e admitir o dano causado.

Aqueles contrários à verdade e à reconciliação, insistindo que o “pecado original” da escravidão nos EUA está em um passado distante, devem seguir as lições da África do Sul e do Canadá.

Deixadas a deteriorar, essas questões não desaparecerão nos EUA. A cada geração, a demanda para enfrentar os legados resistentes da escravidão torna-se mais forte. Políticos americanos e outros líderes podem escolher iniciar as conversas difíceis agora, ou chutar a lata mais uma vez para a próxima geração.

*Professor de História e Direitos Humanos Globais na Universidade McMaster, no Canadá. Uma versão mais longa deste artigo foi publicada no The Conversation.

FOTO: Mikdev / Creative Commons / Pixabay