Política O mundo compra mais armas, o Brasil perde espaço como exportador

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O mundo compra mais armas, o Brasil perde espaço como exportador

Segundo o instituto sueco SIPRI, potências ocidentais inundaram o Oriente Médio com armamentos entre 2014 e 2018

Por Gabriel Bonis, de Berlim

As importações de armas por países do Oriente Médio aumentaram 87% entre os períodos de 2009-2013 e 2014-2018, representando 35% das aquisições mundiais de armamentos nos últimos cinco anos. Houve queda em todas as outras regiões. Os dados são do levantamento anual “Tendências em Transferências Internacionais de Armas”, do Instituto Internacional de Pesquisas para a Paz de Estocolmo (SIPRI, na sigla em inglês), na Suécia.

O SIPRI computa informações sobre todas as transferências internacionais de armas relevantes para “Estados, organizações internacionais e grupos armados não estatais” desde 1950. Os dados refletem volume de entregas de armas, não os seus preços.

Países da União Europeia e os Estados Unidos lideraram a lista dos maiores fornecedores de armamentos para o Oriente Médio em 2014-2018. Os maiores compradores na região foram a Arábia Saudita (envolvida em uma intensa guerra com o Iêmen), com um aumento de 192% ante 2009-2013, seguida por Egito (206%), Israel (354%), Catar (225%) e Iraque (139%).

“Os confrontos armados, como regra geral, são grandes impulsionadores de transferências de armas. Isso é basicamente o que estamos vendo no Oriente Médio. Há guerras em curso na região, e os países nas vizinhanças afetadas estão sentindo uma maior percepção de ameaça. Essas tensões levam países não envolvidos em guerras a obterem mais armas”, explica Aude Fleurant, diretora do Programa de Armas e Despesas Militares do SIPRI.

Segundo o instituto sueco, o volume de transferências internacionais de grandes armas também aumentou em 7,8% na comparação com o período de 2009–13. Os maiores exportadores entre 2014 e 2018 foram EUA, Rússia, França, Alemanha e China, que juntos respondem por 75% das vendas globais. Os maiores importadores foram Arábia Saudita, Índia, Egito, Austrália e Argélia, responsáveis por 35% de todas as aquisições.

O Brasil figura na 23ª posição entre os principais exportadores, com seus clientes mais relevantes sendo Afeganistão, Indonésia e Líbano. Entre 1984-88, o país ocupava o 13º lugar. “Nos anos 1980, o Brasil tinha um projeto muito ambicioso para desenvolver e sustentar uma indústria de armas abrangente. O País criou a capacidade de produção de armas em todos os principais segmentos do setor: terra, ar, naval e sensores. O Brasil estava prosperando como exportador, mas o seu principal destinatário era o Iraque – que estava em guerra. Quando o conflito naquele país terminou, não houve mais demanda iraquiana e a indústria de armas brasileira sofreu”, afirma Fleurant.

Hoje o Brasil está bem atrás de países exportadores de médio porte como Coreia do Sul (11º) e Turquia (14º).

Entre os maiores importadores, o Brasil aparece em 35º (França, EUA e Reino Unido são os principais fornecedores brasileiros). O país respondeu por 27% das aquisições de armas da América do Sul em 2014–2018, uma queda de 28% em relação ao período anterior. A Venezuela, a maior importadora da região em 2009-2013, registrou queda de 83%.

Politike: As importações de armas por países do Oriente Médio aumentaram 87%. Essa alta elevada está relacionada principalmente à complexa geopolítica da região ou há outra razão? Que tipo de armas os países da área compraram?
Aude Fleurant: A razão para a margem significativa de aumento é definitivamente o conflito. Os confrontos armados, como regra geral, são grandes impulsionadores de transferências de armas, especialmente para o país que as importa de nações fornecedoras. Isso é basicamente o que vemos no Oriente Médio. Há guerras em curso na região, e os países nas vizinhanças afetadas sentem uma maior percepção de ameaça devido ao movimento populacional ou ao fato de que pode haver aviões sobrevoando seu espaço aéreo. Essas tensões levam os países não envolvidos em guerras a obterem mais armas, o que também reflete no tipo de armamento importado. A Arábia Saudita importou 94 aeronaves de combate – a maioria F35, mas também alguns itens do Reino Unido. Muitos países ocidentais fornecem atualmente à Arábia Saudita e a outros países da região diferentes tipos de armas, principalmente mísseis guiados. Isso levou outros países a comprarem sistemas de defesa antimísseis. É um mecanismo de reação que adiciona mais tensões a uma área politicamente difícil.

Politike: Países europeus e os EUA foram os principais fornecedores de armas para o Oriente Médio. Considerando o quão instável e propensa a conflitos a região, esses países ocidentais deveriam reduzir a oferta local de armas?
AF: Não fazemos este tipo de declarações normativas. No entanto, posso dizer que vários países da Europa, como Holanda, Finlândia e Alemanha, impuseram um embargo ou interromperam as vendas à Arábia Saudita. Por outro lado, Reino Unido, França, Espanha e Itália, os maiores produtores de armas na Europa, não o fizeram – mesmo após pedidos de suas sociedades para suspenderem transferências à Arábia Saudita por causa da situação do Iêmen. Logo, há diferentes visões na Europa. Os EUA não estão preocupados de forma alguma, pois consideram o reino saudita como um aliado.

Politike: A Austrália se tornou o quarto maior importador mundial de armas em 2014–18. Por quê?
AF: A principal razão é que a Austrália está um pouco desconfiada da China na região Ásia-Pacífico. Logo, prepara-se para grandes tensões. O país está se voltando para seus fornecedores regulares (EUA, Reino Unido e Europa) para obter grandes sistemas de armas, como aeronaves de combate F35. Essas aquisições de armas, às vezes, ocorrem muito antes (do ano em que são registradas). A Austrália era parceira do programa F35, portanto os compraria assim que estivessem prontos. Há alguma sobreposição entre duas coisas. O que desencadeia a maioria das aquisições são as tensões na região em relação às intenções da China. A outra parte é que a Austrália passa por um processo de modernização de suas armas, incluídas aeronaves de combate e outros tipos de armas grande escala. Isso aumentará a sua quantidade significativa de armas recebidas. O país compra F35s, grandes navios, aeronaves de patrulha e capacidades de guerra antissubmarina, que revelam o tipo de ameaça e capacidades necessárias para a Austrália garantir seu perímetro na água.

Politike: O SIPRI diz que “as preocupações com a proliferação de mísseis balísticos em muitas regiões levaram a um aumento nos últimos 10 anos no número de países que importam sistemas de defesa de mísseis balísticos”. Por que isso aconteceu?
AF: Mísseis, balas, armas e granadas são o coração da guerra. Não se pode travar uma guerra sem munição, e mísseis são parte muito importante disso. Quando as tensões aumentam em diferentes regiões, como no Oriente Médio e na Ásia (Paquistão vs. Índia), estamos falando de mísseis balísticos e de mísseis balísticos nucleares.

Os países têm comprado sistemas de mísseis para se preparar para conflitos. Portanto, os países que não previram estar envolvidos – ou próximos de um conflito – não compraram necessariamente mísseis, mas sistemas de defesa para combatê-los, além de provavelmente alguns mísseis para retaliar algum ataque. Isso gera um acúmulo de tipos específicos de armas realmente usadas em cenários de guerra, o que é preocupante.

Politike: No período de 2014-2018, o Brasil foi o 23º maior exportador de armas, em comparação com a 13ª posição em 1984-88. Por que o desempenho do país caiu tanto?
AF: Nos anos 1980, o Brasil tinha um projeto muito ambicioso para desenvolver e sustentar uma indústria de armas abrangente. O país pretendia criar, e de fato o fez, a capacidade de produção de armas em todos os principais segmentos do setor: terra, ar, naval e sensores (radares e orientação). O Brasil estava prosperando nos anos 80 como exportador, mas o seu principal destinatário era o Iraque, para quem o Brasil fornecia equipamentos durante a guerra.

Quando o conflito naquele país terminou, não houve mais demanda iraquiana e a indústria de armas brasileira sofreu. Isso levou ao fechamento de diversas empresas, fazendo com o que Brasil perdesse espaço como exportador desde então. O governo tem tentado, desde o fim dos anos 2000, reconstruir sua capacidade de produção de armas para se tornar um grande produtor e exportador de armas. Esse tipo de projeto é, porém, extremamente difícil e caro de se implementar.

Há um grande componente envolvendo o bem-estar econômico do país. E a economia na América do Sul não está particularmente saudável. Assim, o projeto mais ou menos esfriou. Os franceses vêm ajudando o Brasil a construir um submarino nuclear, mas isso ainda levará muitos anos para ser alcançado.

Politike: Os principais importadores do Brasil são Afeganistão, Indonésia e Líbano. Que tipo de armas eles compraram?
AF: Uma das principais exportações do Brasil são os Super Tucanos. Essas aeronaves de combate mais leves são imensamente populares e, na maioria das vezes, um nicho para países com pouca receita, como muitos na África Subsaariana ou Central. Eles são muito fáceis de usar e um pouco menos dispendiosos do que aeronaves de grandes países ocidentais. O Brasil também vende veículos armados, veículos blindados, aeronaves de transporte ERJ 145 e vários sistemas de lançadores de foguetes.

Politike: O SIPRI argumenta ser difícil para exportadores menores implementarem “uma política de crescimento ambicioso” de vendas de armas no longo prazo porque as exportações podem flutuar significativamente. Por que isso ocorre?
AF: Tem muita relação com poder pagar (por essa tecnologia). É extremamente caro e leva décadas para desenvolver capacidade real. Por exemplo, a Coréia do Sul agora é capaz de produzir armas. Levaram 50 anos. A Índia tem tentado desde a sua independência e ainda não é capaz de produzir suas próprias armas. Eles estão despejando enormes quantias de dinheiro neste projeto, mas questões estruturais parecem bloquear um progresso significativo.

Então, a Índia é um dos principais importadores do mundo. Isso é um indicativo de como é difícil criar, desenvolver e sustentar uma capacidade abrangente de produção de armas em um país.

É possível criar essa indústria, mas a demanda é geralmente muito cíclica. As empresas de pequenos produtores sempre enfrentam dificuldades quando todas as plataformas e armas são compradas. É definitivamente um empreendimento muito arriscado para qualquer país.

Assim, às vezes, os países fazem isso de forma diferente. Israel se concentra em capacidades muito específicas, por exemplo. Desta forma, trabalham com outros produtores para incorporar seu sistema em plataformas maiores. Produtores menores tendem a se especializar em algo. Até o Canadá é especializado em motores para aeronaves e helicópteros.

Foto: Soldado durante treino no maior campo militar da Europa, em Canjuers, na França. Crédito: GERARD JULIEN / AFP