Política O comediante e a Mãe Rússia

Política

O comediante e a Mãe Rússia

Para Orysia Lutsevych, da Chatham House, forte sentimento antiestablishment elegeu Volodymyr Zelensky na Ucrânia. Resta saber como será sua relação com Putin

A Gabriel Bonis, de Berlim

Aos 41 anos, Volodymyr Zelensky foi eleito presidente da Ucrânia em sua primeira disputa política. E a vitória sobre o atual ocupante do cargo, Petro Poroshenko, ocorreu de forma esmagadora: 73% a 25%.

“Zelensky venceu graças a um forte sentimento antiestablishment. Sua inexperiência com a política era, na verdade, sua força aos olhos dos eleitores. Sua vitória é um testemunho da insatisfação com a maneira como a Ucrânia é administrada”, explica Orysia Lutsevych, pesquisadora do Programa Rússia e Eurásia e gestora do Fórum da Ucrânia no think tank britânico Chatham House.

O comediante, definido pelo respeitado site Politico como “provavelmente o indivíduo menos preparado para liderar uma democracia na história mundial”, apostou na imagem de outsider e surfou na onda da frustração dos ucranianos com políticos, corrupção, problemas econômicos e a guerra na Bacia do Donets – região leste da Ucrânia.

A campanha do comediante foi quase toda digital. Ele não ofereceu propostas concretas, evitou expressar opiniões em público, não concedeu entrevistas longas, deu poucas coletivas e não fez comícios ou campanha de rua. Preferiu se comunicar com a população por meio de alguns programas de televisão e de videos no YouTube e Instagram.

Zelensky prometeu acabar com o conflito entre separatistas do leste apoiados pela Rússia (que anexou a região da Crimeia em 2014), uma guerra que dura mais de cinco anos e fez 13 mil vítimas. Mas não explicou como pretende fazê-lo.

“A Rússia está atrás de toda a Ucrânia e tentará destruí-la se não puder subordiná-la. Qualquer presidente ucraniano entende isso e terá de construir a dissuasão e a resistência para sustentar a Ucrânia com um vizinho tão destrutivo”, diz Lutsevych.

Vladimir Putin fez a primeira provocação: assinou um decreto facilitando a concessão de passaportes russos para a população dos territórios ocupados por separatistas. A equipe de Zelensky definiu a medida como uma admissão russa da “sua responsabilidade como um Estado ocupante” e afirmou que a ação não ajuda a obter um cessar-fogo.

A relação com a Rússia será um dos principais desafios do novo presidente. Mas ele saberá lidar com Putin? Seus críticos acham que o comediante tem falhado em fazer frente à Rússia e à sua influência cultural no país. “Zelensky pode querer melhorar as relações com a Rússia, mas o pensamento positivo não é uma política”, afirma Lutsevych.

Politike: A vitória de Zelensky parece fazer parte de um movimento global que elegeu líderes populistas com pouca ou nenhuma experiência política. Outros exemplos incluem: Donald Trump, Jair Bolsonaro e Matteo Salvini. O que explica sua vitória?
Orysia Lutsevych: Zelensky venceu graças a um forte sentimento antiestablishment. Sua inexperiência com a política era, na verdade, sua força aos olhos dos eleitores. Sua vitória é um testemunho de uma insatisfação com a maneira como a Ucrânia é administrada. Isto deve-se a várias razões: o impacto econômico negativo da guerra no leste do país, a anexação da Crimeia, as reformas dolorosas que aumentaram os preços de serviços, as mudanças do setor bancário, que provocou perdas de poupança, e a falta de progresso nas reformas anticorrupção. Zelensky aproveitou todas essa insatisfação.

Politike: Quais serão os principais desafios de Zelensky?
OL: Seu principal desafio é Ihor Kolomoyskyi, um magnata que teria apoiado sua campanha. Seu canal de TV, o 1+1, exibiu 14% de todo seu conteúdo sobre Zelensky nos três meses antes das eleições, e tudo em tom positivo. Os advogados de Kolomoysky integravam a equipe de campanha de Zelensky e o comediante visitou o magnata 13 vezes nos últimos dois anos. Kolomoyskyi é o oligarca que mais perdeu com as reformas de Poroshenko. Seu banco, o PrivatBank, foi nacionalizado e teve que ser refinanciado pelo Estado com 5 bilhões de dólares. Há suspeita de que, sob a presidência de Zelensky, Kolomoyskyi tentará restabelecer o controle sobre os bens e as acusações contra ele pelo Estado ucraniano serão retiradas.

Seu segundo desafio é cumprir promessas altamente populistas e ambiciosas. Muitos de seus eleitores esperam represálias contra a antiga elite, mas isso não faz parte das competências do presidente. Eles querem ver “o fim da era da pobreza”, mas a economia é competência do primeiro-ministro. Zelensky precisaria de uma coalizão no Parlamento, com eleições marcadas para outubro, para nomear como chefe do Executivo alguém que compartilhe de sua agenda. Seu elevado apoio popular pode colapsar tão rápido quanto ganhou ímpeto.

Politike: Zelensky prometeu trazer a paz para o leste da Ucrânia, onde separatistas apoiados pela Rússia têm combatido as tropas ucranianas há cinco anos. Ele não informou como faria isso. Como Zelensky administrará a guerra por procuração com a Rússia?
OL: Zelensky terá de manobrar nos limites do atual quadro legislativo e da opinião pública. Os ucranianos querem a paz com a Rússia, mas não a qualquer preço. A principal exigência de Putin é que a Ucrânia incorpore a Bacia do Donets como uma região autônoma. Neste momento, não há maioria no parlamento ou na sociedade para isso. Putin intensificou ainda mais o conflito por meio de um procedimento simplificado para emitir passaportes russos aos cidadãos ucranianos habitantes dos territórios ocupados. A vitória de Zelensky o levou a oferecer uma cenoura para a Bacia do Donets, pois o apoio popular à atual situação se deteriora e será difícil posicionar Zelensky – um falante de russo do leste – como um nacionalista perigoso. Isso poderia, na verdade, fortalecer o sentimento anti-russo na região. Assim, o paradigma de Zelensky de lidar com a agressão russa será mais do mesmo. Com a exceção de possivelmente mais ação na “frente de informação” para alcançar as mentes e corações de habitantes nos territórios ocupados.

Politike: Os críticos de Zelensky argumentam que ele não faz frente à Rússia. Zelensky estará mais inclinado a buscar um melhor relacionamento com Moscou? Ele será páreo para Putin?
OL: Zelensky pode querer melhorar as relações com a Rússia, mas o pensamento positivo não é uma política. Zelensky não é um presidente pró-Rússia e Putin entende isso. A Rússia está atrás de toda a Ucrânia e tentará destruí-la se não puder subordiná-la. Qualquer presidente ucraniano entende isso e terá de construir a dissuasão e a resistência para sustentar a Ucrânia com um vizinho tão destrutivo. Até o momento, a Rússia enviou os sinais opostos: alguns dias antes do segundo turno das eleições, impôs embargo ao petróleo bruto e a produtos petrolíferos para a Ucrânia.

FOTO: GENYA SAVILOV / AFP