Home 1, Política “O carisma de Alexei Navalny desafia o Kremlin”

Home 1, Política

“O carisma de Alexei Navalny desafia o Kremlin”

Para Ben Noble, professor de Política Russa na University College London, possível envenenamento de opositor de Putin mostra que críticos correm risco

Por Gabriel Bonis, de Berlim

Na quinta-feira 20, Alexei Navalny partiu de um aeroporto na Sibéria para retornar a Moscou. Pouco após a decolagem, um dos mais proeminentes críticos do presidente Vladimir Putin sentiu-se mal. O voo foi desviado para a cidade de Omsk, onde o ativista recebeu atendimento em um hospital.

O governo alemão ofereceu tratamento a Navalny no Hospital Charité, considerado o melhor da Europa. Mas familiares precisaram pressionar os médicos russos para que ele pudesse ser transferido para Berlim no sábado 22.

Apoiadores do ativista acreditam que o seu chá foi envenenado no aeroporto. Os médicos russos não encontraram indícios de venenos e disseram que a emergência poderia ter sido causada por uma “doença metabólica”. Eles descartaram qualquer pressão do Kremlin.

Os médicos alemães, contudo, têm outra opinião. Segundo o Charité, onde Navalny segue em coma e em estado grave, testes indicaram envenenamento por “uma substância do grupo de inibidores de colinesterase”. Ainda não se sabe a substância exata.

O governo alemão colocou Navalny sob proteção policial. O ativista foi detido diversas vezes na Rússia e cumpriu sentenças por protestos não autorizados. Ele também lidera a Fundação Anticorrupção, que investigou políticos do círculo de Putin.

Diversos críticos do presidente russo sofreram ataques por seu posicionamento. Entre eles a jornalista Anna Politkovskaya, morta a tiros, e o agente de inteligência Alexander Litvinenko, envenenado com a substância radioativa polônio 210 em um hospital em Londres, no Reino Unido. Ambos foram assassinados em 2006.

“O veneno é usado para que o método de ataque e os links com os agentes responsáveis por um ataque possam ser ocultados. Mas também para assustar ainda mais jornalistas críticos e opositores. Buscar proteção contra um tiro pode exigir certo tipo de medidas, mas se proteger contra veneno requer um conjunto muito mais amplo de ações “, explica Ben Noble, professor de Política Russa na University College London.

Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, rechaçou o diagnóstico dos médicos alemães e negou que o envenenamento de Navalny tenha sido sancionado por Putin. Ele ainda afirmou que uma investigação sobre o caso será lançada apenas se o envenenamento for definitivamente comprovado.

“Podemos nunca saber se o Kremlin ordenou diretamente este ataque. O que podemos dizer com certeza, entretanto, é que o Kremlin não tomou medidas para incumbir o Estado russo de proteger efetivamente os políticos da oposição e jornalistas críticos daqueles que podem lhes desejar o mal”, diz Noble na entrevista a seguir.

Politike: Quem o senhor acha que pode estar por trás das tentativas de envenenar oponentes do Kremlin?
Ben Noble: Em 25 de agosto, o porta-voz de Putin, Dmitry Peskov, disse não ver uma “tendência” nas tentativas de assassinato de críticos de Putin. Isso parecerá absurdo para muitos. A longa lista de ataques por envenenamento (e outros meios) a jornalistas críticos e políticos da oposição, sem mencionar ex-oficiais de segurança russos no exterior, como Alexander Litvinenko e Sergei Skripal, mostra que os críticos do Kremlin se colocam em um risco nitidamente maior.

Podemos nunca saber se o Kremlin ordenou diretamente este ataque a Navalny. O que podemos dizer com certeza, entretanto, é que o Kremlin não tomou medidas para incumbir o Estado russo de proteger efetivamente os políticos da oposição e jornalistas críticos daqueles que podem lhes desejar o mal. O exemplo mais claro veio em fevereiro de 2015, quando Boris Nemtsov, ex-vice-primeiro-ministro da Rússia, foi assassinado bem ao lado do Kremlin. Segundo muitos relatos oficiais, a liderança de Putin ficou chocada com isso e o assassinato foi relacionado a Ramzan Kadyrov, líder da República da Chechênia.

Este caso mostra que o Kremlin não tem a capacidade de conter os impulsos assassinos de outros atores importantes da sociedade russa ou tolera tais ataques até certo ponto, embora isso às vezes possa resultar em ataques que colocam o Kremlin em uma situação estranha, conforme muitos frequentemente assumem que o Kremlin foi o responsável. Navalny certamente tem muitos inimigos, principalmente como resultado das investigações conduzidas por sua Fundação Anticorrupção, que analisa alegações de corrupção por políticos de alto escalão e funcionários do Estado na Rússia. Pode muito bem ser que um desses inimigos, em vez do Kremlin, tenha ordenado o ataque contra ele. Mas isso não isenta o Kremlin.

Politike: Por que o veneno costuma ser a arma escolhida contra opositores?
BN: Existem ao menos duas respostas possíveis. O veneno é usado para que o método de ataque e os links com os agentes responsáveis por ele possam ser ocultados. Mas isso depende de detalhes do veneno não serem descobertos por aqueles que tratam a vítima, o que às vezes acontece. A segunda resposta é que o veneno é deliberadamente usado para assustar ainda mais jornalistas críticos e opositores. Se a proteção contra um tiro pode exigir um certo tipo de medidas, proteger-se contra veneno requer um conjunto muito mais amplo de ações que perturbam ainda mais a vida de alguém.

Politike: O governo alemão argumentou publicamente que Navalny precisa de proteção. Mesmo que o Kremlin não esteja ligado ao ataque, o senhor acredita que ele falhou intencionalmente em proteger vozes de oposição na Rússia? Por que Putin teria interesse em proteger seus oponentes?
BN: Agora sabemos que o Serviço de Segurança Federal Russo, sucessor do KGB, monitorava Navalny incrivelmente de perto antes de ele ser envenenado em Tomsk, na Sibéria. O FSB não estava lá para protegê-lo, mas para observar o que ele estava fazendo. E isso levantou mais questões sobre o papel do Kremlin, se houver, no envenenamento. O Kremlin claramente não tomou medidas para proteger jornalistas críticos e políticos da oposição.

Além do claro incentivo para fornecer proteção a essas categorias, incluindo para melhorar a imagem da Rússia no exterior, o que pode ajudar em aspectos como o investimento estrangeiro direto, isso fala mais genericamente sobre a ausência do Estado de Direito na Rússia. Após um ataque, os russos não podem ter certeza de que o Estado investigará e tentará sinceramente levar os perpetradores à justiça.

Outro ponto que vale a pena enfatizar é que o Kremlin tem interesse em manter um certo número de vozes críticas, como a de Navalny, na política russa, visto que estas podem ser apontadas como evidências contra a alegação de que não há competição política ou pluralidade de vozes no país. Isso dá ao Kremlin um incentivo para proteger gente como Navalny, ao mesmo tempo em que frustra sua capacidade de funcionar. Mas esse é um ato de equilíbrio complicado.

Politike: Navalny é uma ameaça política real para Putin e seus associados?
BN: Não sabemos como Navalny se sairia contra Putin em uma eleição livre e justa. Uma pesquisa de outubro de 2019 realizada pelo Levada Center, uma agência de pesquisa independente na Rússia, mostrou que apenas 9% dos entrevistados se relacionaram “bastante positivamente” com as ações de Navalny, com 25% se relacionando “bastante negativamente”. Não está claro como esses números mudariam em um cenário eleitoral e de mídia mais livre na Rússia. Certamente não é evidente que Navalny seria a escolha democrática da maioria para presidente.

A ameaça de Navalny a Putin e seus associados assume duas formas principais. O primeiro é a descoberta da corrupção em grande escala. Um vídeo de 2017 da Fundação Anti-Corrupção sobre o então primeiro-ministro Dmitry Medvedev tem quase 36 milhões de visualizações no YouTube. Sabemos que os sujeitos dessas investigações desgostam profundamente que Navalny revele suas riquezas ilícitas.

A segunda forma de ameaça é a possibilidade de uma crítica efetiva ao Kremlin. A maioria dos partidos nominalmente de oposição na Rússia são domesticados, isto é, controlados pelo Kremlin em aspectos essenciais. Navalny é, em contraste, uma voz genuinamente autônoma e crítica. Ele também demonstra um tipo de atividade política online, engajada com os jovens, enérgica e inteligente, que contrasta com a visão do Kremlin da política como “gestão”. O carisma de Navalny desafia o Kremlin.

Foto: Bogomolov.PL / Creative Commons / Wikimedia Commons