Política O acordo do Brexit de Theresa May sobreviverá?

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O acordo do Brexit de Theresa May sobreviverá?

The Conversation A teoria dos jogos tem uma resposta para o desafio da premier do Reino Unido no parlamento britânico

Por Nicos Georgiou*

A União Europeia pode ter aprovado o acordo de Theresa May para a saída do Reino Unido do bloco, mas fazer com que os próprios parlamentares britânicos sigam o mesmo caminho parece impossível. E a abordagem da premier é confusa.

Por um lado, May tem dito aos deputados pro-Remain (que desejam ficar na UE) que eles precisam votar a favor do seu acordo ou não terão acordo algum. Por outro lado, a primeira-ministra tem alertado eurocépticos de que eles podem enfrentar outro referendo ou uma eleição a menos que apoiem seu acordo.

Essas duas ameaças não podem ser verdadeiras simultaneamente; ou a premier enlouqueceu ou há uma razão.

Considerando a segunda opção, por que essa seria uma estratégia viável? A matemática oferece uma forma de entender a situação.

Na teoria dos jogos, há algo chamado o dilema do prisioneiro, que pode ajudar a explicar a atitude de May. Esse jogo em particular demonstra que dois jogadores racionais – neste caso, os prisioneiros – escolherão delatar uns aos outros, embora pareça ser do seu interesse cooperar.

Este é o cenário: dois ladrões são presos por um roubo de jóias. Eles são culpados, mas a polícia não consegue encontrar as jóias e não há evidências concretas para ligá-los ao crime. A polícia, portanto, precisa de uma confissão.

Cada prisioneiro tem duas estratégias: culpar seu parceiro ou permanecer fiel. Se os dois apontarem o dedo um para o outro, ambos serão condenados a quatro anos de prisão. Se ficarem em silêncio, evidências circunstanciais os colocarão na prisão por um ano. Se um cooperar e o outro não, quem ficar em silêncio irá para prisão por cinco anos, enquanto quem “dedurar” sairá livre.

Essas regras são conhecidas pelos ladrões, e a polícia os mantêm em salas separadas. E agora o paradoxo se revela. Cooperar e permanecer fiel seria a melhor opção para os criminosos como um par, pois levaria ao menor tempo de prisão (dois anos no total). Mas para o indivíduo é mais complicado. Se você confia que seu parceiro irá cooperar permanecendo em silêncio, você pode também delatar e sair livre. E se você não confia no seu parceiro, você deve definitivamente delatar. Em última análise, o custo de permanecer em silêncio é o mais alto, com potencialmente cinco anos de prisão. Os jogadores racionais, portanto, sempre desertarão em vez de cooperarem.

Embora contra-intuitivo, isso funciona porque os números são manipulados. O dilema do prisioneiro não necessariamente levaria os presos a delatar se, quando ambos confessassem, por exemplo, acabassem na prisão por dez anos (em vez de quatro) e levariam de um a cinco anos de prisão por ficarem em silêncio.

O dilema dos deputados conservadores

O dilema do prisioneiro pode ser usado para modelar diversas situações sociais e políticas. Com a estratégia do Brexit, o papel dos prisioneiros é desempenhado pelas duas facções conservadoras, os remainers (aqueles que desejam permanecer na UE) e os brexiteers (que apoiam a saída do Reino Unido da UE). Cada grupo tem a opção de votar a favor ou contra o acordo – cooperando ou não. O custo de cada decisão é político.

Se ambas as facções votarem contra o acordo, haverá algum custo político – já que ele provavelmente não será aprovado. Mas não há certeza sobre o que acontecerá depois. Isso pode desencadear uma eleição de liderança, uma eleição geral, um novo referendo ou uma saída da UE sem um acordo.

Todos os deputados gostam de ao menos uma dessas opções. Então, se todos pensarem que há uma boa chance de conseguirem o que realmente querem (o que é impossível), o custo político será percebido como baixo.

Se ambas as facções votarem a favor deste acordo, ele terá uma alta probabilidade de aprovação (sempre há deputados trabalhistas dispostos a votar contra sua linha partidária). Cada um dos grupos conservadores pode culpar o outro pelo “mau negócio” que foram “forçados” a assinar, mas poderia ser uma estratégia de custo mais elevado, já que todos fundamentalmente não gostam de algo sobre o acordo. Assim, pode parecer que a melhor aposta seria que as duas facções cooperassem para votar contra.

Mas a primeira-ministra pode colocar seus parlamentares em uma situação de dilema do prisioneiro para garantir que não cooperem uns com os outros para inviabilizar o seu acordo. May poderia fazer isso convencendo ambas as facções de que votar a favor do texto é bom para elas, mas ruim para as outras.

Para fazer isso, a premier precisaria ajustar o valor do custo percebido de modo que seja mais alto se os deputados conservadores votarem contra do que a favor – independentemente do que os opositores políticos do outro grupo escolham fazer. Dessa forma, se ambas as facções se comportassem da maneira mais racional possível, acabariam votando a favor, não apenas para colocar o outro grupo em apuros, mas para a sua própria redenção.

May já está dizendo aos parlamentares que se eles votarem com ela, conseguem o que querem (ou melhor, eles não obtém o que não querem). O outro grupo pode ser posto como fanático ou inimigo do povo (dependendo de qual facção ela está falando).

A modulação dos custos envolve a remoção da opção favorita de cada equipe da mesa: fazer com que os remainers pensem que um segundo referendo é impossível e com que os brexiteers achem que a UE nunca melhorará o acordo – exatamente o que a premier vem fazendo.

Para o dilema dos prisioneiros, as suposições são simples: ambos os jogadores agem racionalmente para o seu melhor interesse e há apenas duas estratégias possíveis envolvidas. Se cada grupo acreditar no que May tem dito a eles – é o seu acordo ou nada – então ela estabeleceu o dilema do prisioneiro perfeitamente.

Os remainers apoiarão o acordo como a opção de menor custo e a que impedirá os brexiteers de obter um não acordo como resultado. Os brexiteers vão apoiá-la também, em parte para impedir que os remainers obtenham um segundo referendo.

Logo, se May for persuasiva, a teoria dos jogos sugere que o acordo vai ser aprovado. Claro, este é apenas um dos vários modelos matemáticos. E há certas suposições envolvidas que podem não capturar completamente a complexidade da realidade. Os jogadores não são indivíduos, mas grupos. Cada deputado tem diferentes níveis de ambição e dedicação ao país. E se ela pode garantir que suas facções agirão racionalmente é a maior questão de todas. Afinal, o Brexit é uma questão altamente emotiva.

*Professor de Matemática, Probabilidade e Estatística na University of Sussex, no Reino Unido. Este artigo foi originalmente publicado em The Conversation.

Foto: LIAM MCBURNEY / POOL / AFP