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“Não se pode esperar paz se não houver justiça”

Para Christina Greer, especialista em política racial e étnica nos EUA, protestos após a morte de George Floyd são o resultado do racismo estrutural nos EUAPor Gabriel Bonis, de Berlim

Quase duas semanas após a morte de George Floyd, mais um americano negro vítima da brutalidade policial nos Estados Unidos, manifestantes continuam a sair pelas ruas do país – e também no exterior – para protestar contra o racismo e a desigualdade racial. Mesmo em meio à pandemia do novo coronavírus, milhares participam dos atos, que registraram alguns episódios de violência e confronto com policiais.

Em 25 de maio, Floyd foi detido por comprar cigarros com uma nota falsa em Minneapolis. Pouco após o homem ser imobilizado e algemado, um civil filmou um policial branco ajoelhado por mais de 8 minutos sob o pescoço de Floyd. Ele não apresentava resistência e dizia “não consigo respirar”.

Poucos dias antes, a jovem negra Breonna Taylor foi morta por policiais que entraram de noite em sua casa, em Louisville, para cumprir um mandato de uma operação sobre tráfico de drogas na qual ela não figurava como suspeita. Taylor acabou atingida por disparos após o seu namorado atirar contra os oficiais, pensando se tratar de um invasor.

“O que estamos vendo nas cidades de todo o país é o culminar da brutalidade policial incontrolável e iniquidades de educação, saúde, assistência médica, economia e políticas públicas. Claramente, pedir educadamente por mudanças não entrou nos corações e mentes dos eleitos e de muitos cidadãos. Então agora as revoltas são o resultado”, diz Christina Greer, professora-associada no departamento de Política Sociais da Universidade Fordham – Lincoln Center, nos EUA.

Os quatro policiais envolvidos na morte de Floyd foram demitidos. Derek Chauvin, que ajoelhou no pescoço de Floyd, responderá por assassinato em segundo grau. Tou Thao, Thomas Lane and J Alexander Kueng enfrentarão acusações de ajuda e incentivo a assassinato.

O Departamento de Assuntos Interiores da Polícia de Minneapolis recebeu 18 reclamações contra Chauvin antes da morte de Floyd, mas nunca o puniu de forma severa. Thao tinha seis reclamações em seu registro. “Muitos prefeitos, prefeituras e promotores de justiça fecham os olhos para as injustiças raciais sistêmicas nas forças policiais. Eles sempre desculpam esses abusos como ‘apenas algumas maçãs podres’, afirma Greer, especialista em política racial e étnica nos EUA.

Os casos de Floyd e Taylor são apenas dois exemplos recentes envolvendo brutalidade policial contra grupos minoritários nos EUA. Há de se lembrar que, em 2015, Dylan Roof, um jovem branco armado, matou nove pessoas em uma tradicional igreja afro-americana em Charleston. Ele foi detido em uma estrada e acompanhado pela polícia sem violência e vestindo um colete à prova de balas.

“Roof não foi apenas capturado completamente ileso. Ele foi levado a um Burger King por policiais antes que o trouxessem de volta à Carolina do Sul”, recorda Greer.

A senhora acredita que os protestos atuais resultarão em mudanças concretas em relação ao racismo?
Christina Greer: O que estamos vendo nas cidades de todo o país com milhões de manifestantes é o culminar de brutalidade policial incontrolável e iniquidades de educação, saúde, assistência médica, economia e políticas públicas em geral. Claramente, ajoelhar-se de forma silenciosa não inspirou funcionários eleitos a agir. Claramente, pedir educadamente por mudanças não entrou nos corações e mentes dos eleitos e de muitos cidadãos. Então agora as revoltas são o resultado. Não se pode esperar paz se não houver justiça.

Oficiais envolvidos na morte de Floyd e Taylor tiveram queixas de cidadãos por brutalidade ou má conduta. Por que essas reclamações normalmente não resultam em punição severa?
CG: Muitos prefeitos, prefeituras e promotores de justiça fecham os olhos para as injustiças raciais sistêmicas nas forças policiais. Eles sempre desculpam esses abusos como “apenas algumas maçãs podres”. Devemos ser honestos sobre o quão difundidos nacionalistas brancos têm se infiltrado em nossas forças policiais em todo o país. Para lidar com essas injustiças, precisamos de uma reimaginação radical do que a força policial deve fazer. Devemos revisar completamente os processos de recrutamento e treinamento. E devemos diminuir o financiamento desses departamentos de polícia para que eles não continuem comprando armas de guerra para usar contra seus próprios residentes.

Donald Trump disse que poderia enviar o exército a algumas cidades para controlar os protestos. O presidente dos EUA também comparou os manifestantes a bandidos. Como a senhora vê a abordagem dele em relação às manifestações?
CG: Trump gosta de “conversa de homem grande”. Ele admira regimes autoritários porque está totalmente desinteressado em governança e no papel de um executivo como alguém que ouve e responde ao Congresso ou ao povo. Ele deve usar táticas violentas para escalar essa situação, porque precisa se distrair do fato de ter falhado com o povo americano durante a crise da Covid-19, na qual mais de 108 mil americanos morreram e o desemprego atingiu mais de 40 milhões. Ele não quer falar sobre seus fracassos, por isso baseia-se em conversas duras e linguagem racializada para alimentar as chamas da divisão racial e calcificar sua base, assustar os eleitores no meio do caminho e continuar a desviar-se das falhas de sua administração.

Em 2015, Dylan Roof matou nove em uma igreja afro-americana. Ele foi detido sem violência e recebeu até um colete à prova de balas. Por que muitos negros presos pela polícia não recebem o mesmo tratamento de um atirador em massa branco?
CG: Dylan Roof não foi apenas capturado completamente ileso, ele foi levado a um Burger King por policiais antes que o trouxessem de volta à Carolina do Sul. Muitos policiais veem apenas pessoas negras e latinas (homens, mulheres e crianças) como criminosos, perigosos, “bandidos” e coisas piores. Eles ouvem essa retórica dos mais altos escalões, têm equipamentos paramilitares que os “preparam para a guerra” a cada dia que entram nas comunidades negras e latinas. Muitos dizem que seu trabalho é suprimir essas comunidades e mantê-las sob controle ao invés de trabalhar com a comunidade e criar confiança.

FOTO: Philip Pacheco / AFP