Política Políticos marcham com nacionalistas na Polônia

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Políticos marcham com nacionalistas na Polônia

 

Para Olgierd Annusewicz, professor da Universidade de Varsóvia, “flerte” do governo com a extrema-direita é tentativa de cooptar votos

Por Gabriel Bonis, de Berlim

Uma multidão de mais de 200 mil manifestantes foi às ruas de Varsóvia no domingo 11 para participar da controversa Marcha da Independência e celebrar os 100 anos do renascimento da Polônia como país soberano, após o fim da Primeira Guerra Mundial.

O evento, organizado por grupos nacionalistas, chegou a ser banido pela prefeita da capital polonesa neste ano. Hanna Gronkiewicz-Waltz alegou preocupações de segurança e com o “nacionalismo agressivo”. Em 2017, mais de 60 mil manifestantes compareceram à marcha, que ganhou repercussão internacional devido a cantos racistas, xenófobos e violência.

O governo polonês liderado pelo partido de direita Lei e Justiça (PiS) decidiu então organizar o seu próprio evento seguindo a mesma rota da Marcha da Independência. Críticos consideraram o movimento como um aceno a grupos de extrema-direita.

“A Polônia tem um governo de direita e há eleitores entre aqueles que encaram o nacionalismo como perspectiva de mundo. Os nacionalistas concorrem às eleições desde os anos 1990, mas nunca conseguiram se eleger ao parlamento. Isso significa que os partidos de direita têm uma espécie de romance com esses eleitores. Se eles ficarem contra esses grupos, isso pode fortalecer partidos nacionalistas e levá-los ao parlamento”, explica Olgierd Annusewicz, professor-assistente do Instituto de Ciência Política e diretor-adjunto do Centro de Análise Política da Universidade de Varsóvia.

Uma corte regional derrubou a proibição da prefeita. Com isso, o governo precisou negociar com grupos de extrema-direita para evitar duas marchas concomitantes. A oposição boicotou o evento. Um acordo definiu que cantos e símbolos racistas seriam proibidos e que os participantes do evento sancionado pelo Estado marchariam primeiro, separados por um cordão militar de possíveis nacionalistas. Bandeiras com símbolos de supremacia branca, como a cruz Celta, estavam presentes, assim como movimentos fascistas da Polônia e da Itália.

O presidente Andrzej Duda abriu o desfile, no qual soldados poloneses se perfilavam perto a grupos fascistas. O PiS afirma rejeitar o antissemitismo e o racismo, mas críticos acusam o partido de frequentemente de se aliar à extrema-direita.

“É um tipo de jogo político. Ao menos parte dos eleitores nacionalistas poderiam ser cooptados (pelos partidos de direita). Não é de se espantar que integrantes do Lei e Justiça estejam flertando com eles”, diz Annusewicz.

Desde que chegou ao poder em 2015, o partido viu a Polônia se isolar cada vez mais da União Europeia em meio a acusações de tendências autoritárias do governo.

Politike: O senhor acredita que a decisão de reverter a proibição feita pela prefeita de Varsóvia e a negociação do governo com os nacionalistas são exemplos de tolerância com esses grupos por parte do Estado e do Judiciário?

Olgierd Annusewicz: Há um problema em se concordar com esse argumento. Cerca de duas semanas atrás, houve uma Parada Gay na cidade de Lublin. O prefeito havia banido o evento e o tribunal derrubou a decisão. O Judiciário defendeu a liberdade de expressão nos dois casos. É óbvio que podemos discutir a diferença entre uma Parada Gay e uma marcha nacionalista. Mas, de acordo com a lei, ambas são apenas marchas. Ninguém na moção para a marcha nacionalista escreveu que iriam usar slogans racistas ou de discurso de ódio. Pode-se esperar que isso ocorra por parte de nacionalistas na Polônia, mas, a menos que aconteça, o tribunal não tem motivos para julgar o contrário.

Em relação ao governo, a situação é um pouco diferente. A Polônia tem um governo de direita e há eleitores de direita entre aqueles que encaram o nacionalismo como uma de suas perspectivas de mundo. Eles fazem parte do eleitorado do partido Lei e Justiça. Na Polônia, nacionalistas concorrem às eleições desde os anos 1990, mas nunca conseguiram alcançar o mínimo de 5% dos votos para obter assentos no parlamento. Isso significa que os partidos de direita têm uma espécie de romance com esses eleitores. Se eles ficarem contra esses grupos, isso pode fortalecer partidos nacionalistas e levá-los ao Parlamento. É como um jogo no qual os partidos de direita não podem perder o apoio desses eleitores, mas não querem alienar os eleitores da centro-direita com esse romance.

Politike: O Estado negociou os organizadores da marcha nacionalista para evitar os cantos xenófobos do ano passado, mas soldados poloneses acabaram lado a lado com integrantes de movimentos fascistas poloneses e italianos, enquanto Duda abria a marcha. Que tipo de mensagem isso envia?

OA: Obviamente, não fica bem que soldados estejam lado a lado com fascistas poloneses e italianos. Houve relatos de gente agitando bandeiras com símbolos racistas. A oposição disse que havia uma coalizão entre a Lei e Justiça e os nacionalistas. É um tipo de jogo político, de palavras. Ao menos parte desses eleitores nacionalistas poderia ser cooptada (pelos partidos de direita). Não é de se espantar que integrante do Lei e Justiça flertem com eles. Quando analisamos a marcha pela perspectiva da oposição, eles afirmam que Duda colocou soldados poloneses lado a lado com fascistas. A Lei e Justiça alega que os nacionalistas estavam à margem e o que deveria contar eram as mais de 200 mil manifestantes que celebraram o dia. Há uma campanha pela frente e essa questão vai retornar. Duda verá essas fotos da marcha expostas pela oposição.

Politike: A Juventude de Toda a Polônia, movimento de extrema-direita co-organizador da marcha, postou um vídeo de uma bandeira da UE sendo incendiada durante a marcha, enquanto alguns entoavam “para baixo com a União Europeia”. Por que algo como isso aconteceu na Polônia, sem dúvida, o caso mais bem sucedido de adesão à UE até agora?

OA: É preciso levar em conta a história dos nacionalistas poloneses, sempre ligada aos jovens. À medida em que envelhecem, eles abandonam essa ideia e voltam-se à esquerda radical ou se afastam da política. Sei que não soa bem, mas foi apenas uma bandeira queimada. No ano passado, muitas bandeiras foram queimadas, carros destruídos e muito mais incidentes relatados. Sob este ponto de vista, foi uma marcha mais segura. Cerca de 90 manifestantes foram presos por apresentar programas racistas. A polícia conseguiu identifica-los. Não foi como nos anos anteriores, quando ninguém foi punido. O mais importante é que os movimentos nacionalistas não ganham território na Polônia, ao contrário do que ocorre na Alemanha e na Itália. Eles estão presentes na política polonesa, mas à margem.

FOTO: Janek Skarzynski/AFP