Política MI6 deixa James Bond de lado para atrair “pessoas comuns”

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MI6 deixa James Bond de lado para atrair “pessoas comuns”

The Conversation

Serviço secreto britânico costuma ser associado ao violento espião fictício, mas nova campanha de recrutamento quer eliminar essa conexão 

Por Klaus Dodds e Lisa Funnell*

O Serviço Secreto de Inteligência britânico (SIS, na sigla em inglês), comumente conhecido como MI6, sempre teve uma relação de amor e ódio com seu mais famoso agente fictício, James Bond. E, por mais que funcionários seniores do MI6 reclamem que os filmes de Bond perpetuam conceitos equivocados sobre seu ofício, eles ainda podem usar sua reputação para atrair candidatos.

Antes do Intelligence Services Act de 1994, até mesmo reconhecer a existência do SIS era difícil. Hoje, contudo, o site do SIS aponta que sua sede em Vauxhall, em Londres, “se tornou facilmente identificável devido a suas aparições em diversos filmes de James Bond”.

Agora, reconciliada com o fato de estar presente aos olhos do público, a agência lançou um vídeo de recrutamento para atrair novos talentos que claramente tenta se livrar da marca Bond. Como o Daily Mail afirmou, o MI6 tem um propósito óbvio em mente: dissipar a imagem de “licença para matar” e, em vez disso, destacar “as ‘habilidades interpessoais’ que está procurando em novos funcionários”.

O narrador no vídeo de recrutamento da agência diz aos ouvintes que “somos agentes de inteligência” enquanto um tubarão nada em uma piscina. As imagens do tubarão são intercaladas com as uma criança e, em seguida, as de uma mulher (talvez sua mãe) olhando para o tanque. Então, o narrador afirma: “não fazemos o que você pensa”. 

Em vez de “nadar com o tubarão” no estilo clássico de Bond, o vídeo enfatiza “captar as pistas silenciosas que importam”. Implicitamente, sinaliza inteligência e trabalho sutil de reconhecimento. À medida que a mulher e a criança se abraçam, o narrador conclui que o conjunto de habilidades que o MI6 está buscando é “cotidiano” e que “secretamente, somos exatamente como você”.

Para os fãs de Bond, o tubarão é familiar em décadas de cenas sinistras – veja 007 contra a Chantagem Atômica (1965), O Espião que me Amava (1977) e Permissão para Matar (1989). E embora o mundo tenha mudado desde o fim da Guerra Fria, os filmes atuais do agente secreto ainda giram em torno da ideia de que a Grã-Bretanha precisa de um herói duradouro para proteger seus cidadãos de ameaças perigosas, adaptáveis e sempre presentes.

Mas no mundo real, como o MI6 por trás do vídeo deixa implícito, as ameaças que a Grã-Bretanha enfrenta hoje devem ser combatidas por heróis “cotidianos”.

Espiões cotidianos

Esse é um tema que ganhou força desde a Guerra ao Terror, que transformou o contraterrorismo em responsabilidade de todos, não apenas de um punhado de agentes de origens elitista. Certamente, ao invés de enfatizar as qualidades extraordinárias de indivíduos privilegiados (Bond, afinal, é um homem branco, heterossexual, de classe média-alta, fisicamente apto, ocidental e cisgênero), o vídeo sugere uma abordagem mais coletivista da espionagem e celebra implicitamente a diversidade, ao menos em termos de idade e raça.

Até hoje, mulheres e meninas de cor raramente são apresentadas como heróis em narrativas de ação ou de espionagem. O vídeo do MI6 parece reconhecer isso, talvez até tentando capitalizar nesse sentimento ao convidar candidatos “inusitados”. E o que fica, em particular, é a ênfase do anúncio em gênero e maternidade.

Bond não é pai. Até a era de Pierce Brosnan começar em meados dos anos 1990, o cânone Bond tinha poucas personagens mulheres notáveis, com controle total sobre suas vidas e trabalho. Mães estavam completamente ausentes até que Judi Dench foi escalada em 007 Contra GoldenEye (1995) como M, a chefe de Bond. 

Embora M tenha feito referências passageiras a seus filhos nos tempos de Brosnan, nos filmes de Daniel Craig ela assumiu um papel de mãe de aluguel em relação ao próprio Bond. Mas, é claro, ela foi forçada a uma troca: conforme o papel materno de M veio à tona, especialmente em 007 – Operação Skyfall (2012), suas decisões foram cada vez mais escrutinadas e sua capacidade de comandar o MI6 foi questionada.

Trabalho de campo, como Bond sugere a Eve Moneypenny em Skyfall, não é para qualquer um. Ele diz depois que ela é rebaixada a uma posição de escritório como punição por acidentalmente ter atirado nele. Como a série há muito tempo associa o “trabalho de tubarões” aos homens, com Bond rotineiramente retratado como mais competente do que suas colegas agentes, é interessante ver o MI6 real lidando de frente com estereótipos de gênero, sugerindo que as mulheres podem ser, ao mesmo tempo, espiãs e mães capazes. Então, novamente, a mãe e a filha são mostradas meramente observando o tanque, talvez sugerindo que o papel das mulheres na inteligência ainda pode ser sentar atrás de uma mesa e “ler os sinais”. Então, o trabalho de campo é realmente para todos?

No que diz respeito aos filmes de Bond, o diretor Danny Boyle está prestes a ter a palavra em seu ainda sem título Bond 25. Talvez, depois de seu infame rebaixamento, Moneypenny seja confiada novamente a um “trabalho de tubarão”. O que isso pode significar para a imagem real do MI6 e, por extensão, seus esforços de recrutamento, é outro assunto.

* Klaus Dodds é professor de Geopolítica na Royal Holloway, Universidade de Londres (Reino Unido). Lisa Funnell é professora-assistente de Estudos Femininos e de Gênero na Universidade de Oklahoma (EUA). Este texto foi originalmente publicado em The Conversation. Leia o original aqui.