Política Merkel inicia saída de cena ao deixar comando da CDU
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Merkel inicia saída de cena ao deixar comando da CDU

Thorsten Faas, da Universidade Livre de Berlim, diz que a chanceler alemã será lembrada por sua maneira calma e não polarizadora

Por Gabriel Bonis, de Berlim

Após 18 anos, Angela Merkel deixou oficialmente o comando da União Democrata-Cristã (CDU). A chanceler da Alemanha será substituída por sua aliada Annegret Kramp-Karrenbauer (ou AKK), ex-ministra do Interior e ex-premier do estado de Sarre, que conseguiu uma apertada vitória na conferência do partido em 7 de dezembro.

Enfraquecida por uma série de derrotas em eleições regionais, Merkel desistiu de disputar a liderança da CDU ainda em outubro, mas anunciou a intenção de permanecer como chanceler federal até 2021. E a vitória de AKK garante, ao menos por enquanto, a possibilidade de Merkel concluir seu atual mandato.

O cenário seria diferente caso Friedrich Merz, rival de longa data que a chanceler alemã forçou a se retirar da política em 2009, tivesse superado AKK. O empresário conservador tinha o apoio de diversos homens aniquilados ou ofuscados por Merkel durante sua longínqua e bem sucedida carreira. Merz perdeu a possibilidade de vingança por 35 votos.

“A votação foi apertada e a CDU está claramente dividida. E o gatilho para essa divisão é o caminho pelo qual a chanceler Merkel optou nos últimos 20 anos. Ela modernizou o partido e levou consigo muitos de seus integrantes, mas nem de longe todos eles”, diz Thorsten Faas, professor de Ciências Políticas na Universidade Livre de Berlim.

Considerada uma voz da razão na Europa, Merkel perdeu força e apoio popular na Alemanha. Em parte devido à política de portas abertas que trouxe ao país mais de 1 milhão de refugiados e migrantes desde 2015.

Neste cenário, a CDU perdeu espaço para o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), que agora ocupa cadeiras nos 16 parlamentos regionais e na Bundestag. “Merkel será lembrada por sua maneira bastante apolítica, calma e não polarizadora de governar o país”, afirma Faas.

Politike: A CDU elegeu AKK como sua próxima líder, mas o partido quase deu um grande golpe em Merkel. Friedrich Merz perdeu por meros 35 votos. O que isso significa para Merkel?
Thorsten Faas: A votação foi extremamente apertada e a CDU está claramente dividida. E o gatilho para essa divisão é o caminho pelo qual a chanceler Merkel optou nos últimos 20 anos. O que aprendemos é que ela modernizou o partido e levou consigo muitos de seus integrantes, mas nem de longe todos eles. Partes do partido esperam muito mais polarização, algo que Merkel nunca realmente valorizou, já que sempre preferiu um tipo de liderança mais pragmático.

Politike: Qual serão os desafios de Merkel para se manter no cargo até 2021? Como ela será lembrada?
TF: Não há garantia (de que ela continuará por todo esse tempo), mas é mais fácil para ela colaborar com AKK do que com Merz. Merkel navegou a Alemanha e a UE por uma série de graves crises, em grande parte de maneira bem-sucedida. Mas ela também será lembrada por sua maneira bastante apolítica, calma e não polarizadora de governar o país. Além disso, os partidos alemães enfrentam as eleições europeias, bem como uma série de pleitos estaduais na Alemanha Oriental em 2019. As eleições regionais serão difíceis para a CDU. Merkel pode esperar por essa eleição antes de sair de cena e deixar o palco para AKK.

Politike: Quais serão os principais desafios de AKK na chefia da CDU?
TF: Unir o partido é o seu primeiro, e principal, desafio agora. E, dado o processo de eleição de liderança e a proximidade dos resultados, isso não é nem de longe um negócio garantido. Annegret Kramp-Karrenbauer tentou pacificar o partido nomeando um jovem conservador para o cargo de secretário-geral, mas aparentemente isso não é suficiente.

FOTO: Merkel conseguiu eleger sua substituta Annegret Kramp-Karrenbauer (à esq.) na CDU, mas será o bastante para manter-se como chanceler até 2021? Crédito: ODD ANDERSEN / AFP