Política, Política Externa “De fora, vê-se um país cuja democracia está muito ameaçada”

“De fora, vê-se um país cuja democracia está muito ameaçada”

 

Daniel Buarque, pesquisador da imagem global do Brasil, alerta para a percepção negativa em relação a Jair Bolsonaro

A Gabriel Bonis, de Berlim 

A eleição de Jair Bolsonaro provocou reações negativas em grande parte da mídia internacional. O jornal francês Le Monde definiu a vitória como a vingança do “brasileiro médio”. O alemão Der Spiegel considerou o ex-capitão uma ameaça à democracia.

Mas como a imagem do presidente eleito pode afetar o País no exterior? “O presidente é uma figura importantíssima para a imagem internacional de uma nação. Basta ver o quanto a reputação global dos EUA piorou sob Donald Trump. Isso deve afetar o Brasil de forma semelhante. Com a diferença de que o Brasil não tem o poder militar e econômico dos EUA. O Brasil depende muito mais do soft power para poder avançar seus interesses em política externa”, explica Daniel Buarque, doutorando em Relações Internacionais pelo King’s College London, onde pesquisa como a percepção internacional do Brasil afeta as relações exteriores.

“É importante ressaltar que imagem não é apenas uma questão de vaidade nacional. A percepção que outros Estados têm do Brasil (e de seu governo) tem grande relevância nas negociações internacionais. O governo de Dilma era muito mal visto por empresas, investidores e o mercado internacional de forma geral. Isso afetou fortemente a atração de capital estrangeiro”, diz o autor do livro “Brazil, um país do presente – A imagem internacional do ‘país do futuro’.”

Politike: Como a eleição de Jair Bolsonaro afetou a imagem internacional do Brasil?
Daniel Buarque: A reação imediata é de que o País se juntou a uma onda de populismo nacionalista em crescimento no mundo. O Brasil tem sido visto como ligado à realidade dos EUA sob Donald Trump, das Filipinas sob Rodrigo Duterte e da Turquia de Recep Erdoğan. De fora, vê-se um país cuja democracia está muito ameaçada. Isso não tem um efeito tão imediato sobre a imagem do Brasil como um todo (os estereótipos tradicionais de praia e de festa, mas não muito sério para trabalho e economia) e até se alinha um pouco à ideia comum no exterior de que se trata de um país politicamente instável e dado a rupturas em seu sistema.

No longo prazo, entretanto, o efeito pode ser bem drástico. Isso porque, mesmo sem tratar exatamente da imagem do País, a percepção sobre Bolsonaro no exterior é a pior possível. A mídia estrangeira, analistas, acadêmicos e artistas no exterior se posicionaram de forma praticamente unânime contra ele, descrevendo-o como um populista de extrema-direita capaz de alguns dos comentários mais absurdos saídos da boca de um político.

Politike: É possível que a percepção negativa em torno do presidente eleito afete as relações do Brasil com outros países?
DB: Sim. O presidente é uma figura importantíssima para a imagem internacional de um país como o Brasil, e também para as relações internacionais. No caso da imagem, basta ver o quanto a reputação global dos EUA piorou sob Trump. Isso muito provavelmente vai afetar o Brasil de forma semelhante. Com a diferença de que o Brasil não tem poder militar e econômico como os EUA. O Brasil depende muito mais do soft power, da imagem, para poder avançar seus interesses em política externa. Então é provável que a eleição de Bolsonaro atrapalhe o País no exterior.

Logo de cara, é só ver como as relações com a Argentina estão se estremecendo depois das declarações de Paulo Guedes contra o Mercosul. Ou se pensarmos no fato de que alguns setores falam em ação contra a Venezuela de Maduro. Isso tudo pesa contra a forma como o Brasil se coloca historicamente em política externa, e pode afetar seu posicionamento. Por outro lado, o perfil populista nacionalista de Bolsonaro pode aproximar o país de outros de perfil semelhante, como os EUA de Trump.

Politike: A imagem de um presidente costuma ter impacto relevante na imagem de um país? Como lidar com isso?
DB: Sim, a imagem do presidente afeta, positiva e negativamente. Os EUA são ótimo exemplo. O ex-presidente Barack Obama era muito respeitado no exterior. Ele melhorou a percepção e a reputação internacional do país após um governo de George W. Bush muito pouco popular no resto do mundo. Trump desfez tudo isso rapidamente. De forma semelhante, no caso do Brasil, o ex-presidente Lula, chamado de “o cara” por Obama, estava muito associado à ascensão brasileira no fim da década passada, com grande popularidade (positiva) internacionalmente.

Desde o governo Dilma isso se perdeu um pouco, mas sem necessariamente piorar a imagem do País. No caso de Temer e de Bolsonaro, a tendência é claramente de piora. Nesse contexto, é importante ressaltar que imagem não é apenas uma questão de vaidade nacional.

A percepção que outros Estados têm do Brasil (e de seu governo) tem grande relevância nas negociações internacionais do país e nos negócios. O governo de Dilma era muito mal visto por empresas, investidores e o mercado internacional de forma geral. Isso afetou fortemente a atração de capital estrangeiro. Bolsonaro ganhou a eleição impulsionado em parte por um mercado que rejeitava o PT e queria reformas na economia. Assim que ganhou, entretanto, percebe-se uma mudança no tom dos investidores, que não confiam nele, não acham sua retórica positiva, e preferem aguardar.

Além disso, imagem também conta para a política externa, para atrair grandes eventos e para negociações internacionais. O Brasil sonha há décadas com um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Se deixar de ser visto como uma democracia estável, esse objetivo fica mais longe.

Foto: Fernando Frazão/Agencia Brasil