Economia Como construir uma “gig economy” mais justa em quatro etapas

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Como construir uma “gig economy” mais justa em quatro etapas

Empregos via aplicativos vieram para ficar, mas há muito a se fazer para garantir que os seus trabalhadores não sejam explorados

Por Mark Graham*

Você provavelmente já ouviu pelo menos duas coisas sobre a “gig economy”, o fenômeno da oferta de trabalhos temporários por grandes empresas de tecnologia. Primeiro, ela é grande. Em 2019, aproximadamente 1 em cada 10 trabalhadores no Reino Unido ganha a vida nesse mercado. Nos EUA, esse número é estimado em 8%. No início deste ano, uma pesquisa pan-africana mostrou que 1,3% dos africanos adultos ganham dinheiro com aplicativos de serviços. Em todo o mundo, esse campo não para de crescer.

Segundo, os empregos criados não são necessariamente de boa qualidade. Devido à maneira como a plataforma de trabalho é organizada, a prática parece emprestar-se estruturalmente a resultados indesejáveis para os empregados, que podem sofrer com baixos rendimentos, roubo de salários, precariedade, condições perigosas de emprego e discriminação. Quando qualquer um desses problemas surge, as plataformas simplesmente apontam para o fato de que não são responsáveis. Em vez disso, tendem a se apresentar como um intermediário simples, e não como uma entidade que tem a capacidade de moldar as condições reais de trabalho no local.

Aqui estão quatro estratégias nas quais devemos pensar se quisermos criar uma “gig economy” menos exploradora:

1) Precisamos de mais transparência sobre a natureza do trabalho “gig” em si. Usuários, investidores, trabalhadores e reguladores precisam saber mais sobre a natureza dos empregos que estão sendo criados e como eles podem ficar aquém dos padrões de trabalho decente.

Nesse sentido, meus colegas e eu iniciamos o projeto Fairwork: uma iniciativa que classifica as plataformas em torno de 10 critérios de práticas de trabalho justas. Essas pontuações podem ser usadas para comparar diretamente plataformas entre si.

2) Precisamos de mais responsabilidade dentro do setor. No momento, muitas plataformas operam em lacunas regulatórias e frequentemente alegam que a regulamentação existente não se aplica a elas.

“Somos uma empresa de tecnologia”, dizem, em vez de reconhecer que são de fato uma empresa de táxi de alta tecnologia, ou de entrega de alimentos, ou de limpeza e assim por diante. Portanto, precisamos garantir que o trabalho e os trabalhadores sejam protegidos pela regulamentação existente ou precisamos desenvolver novas abordagens.

3) Devemos reconhecer que a transparência e a regulamentação só nos levarão até certo ponto. Mudanças reais acontecerão quando trabalhadores puderem negociar com seus chefes coletivamente ao invés de individualmente. Trabalhadores “gig” geralmente são tratados como empresas individuais que devem competir entre si. Mas é quando se reúnem como colegas que podem coletivamente gerar melhores salários e condições de trabalho.

4) Finalmente, o futuro real da “gig economy” que devemos procurar é aquele caracterizado pela propriedade democrática. Não há razão para que esses trabalhadores não sejam seus próprios chefes. O movimento de cooperativismo de plataforma ilumina alguns dos potenciais reais de plataformas próprias e gerenciadas por trabalhadores para todos os serviços possíveis. Também podemos pensar em gerir plataformas como serviços cívicos.

Em muitos lugares, as plataformas estão se tornando serviços. Considere o desejo da Uber de se tornar um “sistema operacional para a sua vida cotidiana”. Nossas cidades, sem dúvida, precisarão de sistemas operacionais. Mas devemos nos perguntar se queremos um sistema gerenciado de forma privada, administrado por uma empresa irresponsável com sede em outro país – ou um sistema gerenciado localmente, de propriedade local, democrático e responsável.

Não podemos voltar o relógio para um mundo sem essas plataformas. Mas, olhando para estratégias que envolvem transparência, responsabilidade, poder do trabalhador e propriedade democrática, temos à nossa frente as ferramentas para avançar em direção a uma economia de plataforma menos exploradora e mais justa.

A economia de plataforma em 2030 poderia ser aquela em que os consumidores saibam mais sobre seus impactos, os reguladores estejam aplicando padrões mínimos, os trabalhadores exerçam o seu poder coletivo e todos descobrimos maneiras de construir, apoiar plataformas de “gig economy” democraticamente executadas e responsáveis.

FOTO: KaiPilger / Creative Commons / Pixabay


*Mark Graham é professor de Geografia da Internet na Universidade Oxford, Reino Unido, e co-autor do livro The Gig Economy: A Critical Introduction. Esse texto foi originalmente publicado pelo Instituto para Internet da Universidade Oxford, e aparece aqui com a autorização do autor.