Carrossel, Política As condições climáticas influenciam a transmissão do COVID-19?

Carrossel, Política

As condições climáticas influenciam a transmissão do COVID-19?

Embora os climas mais quentes possam retardar a propagação do vírus, confiar apenas neles não deve ser suficiente para retardar a sua transmissão

Por Jon Brassey, Carl Heneghan, Kamal R. Mahtani e Jeffrey Aronson*

A maioria dos países do mundo implementou agora um conjunto de estratégias para reduzir a transmissão do novo coronavírus e mitigar seus efeitos. Sabe-se que o vírus se originou na cidade portuária de Wuhan, na província central de Hubei, na China. No momento em que o primeiro caso foi identificado, Wuhan estava no inverno, quando as temperaturas médias podem variar de 1º C a 11º C.

Em 21 de março de 2020, a China registrou mais de 81 mil casos do novo coronavírus com 3,255 mil mortes. Pela primeira vez, o país também não registrou novos casos locais. Uma revisão rápida das evidências foi realizada para explorar se as condições climáticas podem influenciar a disseminação do SARS-CoV-2.

Evidências atuais

Estudos explorando o efeito do clima, principalmente temperatura e umidade, na transmissão de COVID-19

Para investigar o efeito da temperatura ambiente na transmissão do coronavírus, um estudo transversal avaliou a associação entre o número de casos e a temperatura média local em 429 cidades, principalmente chinesas. Os autores descobriram que, para cada aumento de 1º C na temperatura mínima, havia uma redução no número acumulado de casos de 0,86.

Um estudo de modelagem sugeriu que uma redução transitória da incidência poderia ocorrer, mas advertiu: “A chegada da primavera e do verão, por exemplo, pode dar a impressão de que o SARS-CoV-2 foi controlado com sucesso, porém as infecções podem aumentar novamente na temporada de inverno 2020-2021”.

Outro estudo de modelagem mostrou que a propagação atual do coronavírus sugere uma preferência pelo clima frio e seco. Os autores também relatam que a epidemia de SARS-CoV 2002-3 estava ligada a condições climáticas semelhantes. Se a pandemia do COVID-19 seguir as tendências do SARS CoV-2, então o pior cenário de uma pandemia global síncrona pareceria improvável, enquanto surtos globais sazonais assíncronos seriam muito mais prováveis.

A análise do surto de SARS em Hong Kong, Guangzhou, Pequim e Taiyuan demonstrou que a temperatura ambiente ideal associada aos casos de SARS estava entre 16º C e 28º C, o que pode estimular o crescimento do vírus. Reduções ou aumentos acentuados da temperatura ambiente relacionados ao período de frio levaram a um aumento dos casos de SARS devido à possível influência do clima no sistema imunológico humano. Este estudo sugeriu que maior possibilidade de que a SARS volte a ocorrer na primavera comparada ao outono ou inverno.

É importante observar que todos esses estudos são potencialmente enviesados por fatores de confusão não controlados. Portanto, qualquer conclusão sobre as previsões destes estudos possui alta incerteza. Outros vírus circulantes, como o vírus da gripe, seguem um efeito sazonal e, portanto, as taxas de coinfecção diminuem, o que pode impactar a mortalidade.

A avaliação das exposições é suscetível a erros que podem distorcer sistematicamente a exposição em nível de grupo. Agrupar casos de acordo com os dias de exposição pode introduzir um erro sistemático se as exposições atuais para o caso variarem significativamente ou se outras medidas estiverem sendo introduzidas, como o isolamento social.

Dois estudos adicionais relatam que “a mortalidade diária de COVID-19 está positivamente associada à faixa de temperatura diurna, mas negativamente associada à umidade relativa”. Os resultados sugerem que a temperatura se correlaciona positivamente com as taxas de infecção, enquanto se correlaciona negativamente com a umidade. É provável que a temperatura e a umidade contribuam no máximo com 18% da variação na transmissão. Outras variáveis, como medidas de saúde pública, são responsáveis pelo restante. Uma investigação adicional da influência da temperatura e da umidade do ar na transmissão de SARS-CoV-2 observou que para cada 1º C de aumento na temperatura e 1% de aumento na umidade relativa do ar, diminuía o coeficiente R em 0,0383 e 0,0224, respectivamente.

Nem todos os estudos encontrados sugeriram o clima como um fator influenciador na transmissão. Uma análise do número reprodutivo (R0) de (SARS-CoV-2) em toda a China mostrou que as alterações isoladas no clima (ou seja, aumento de temperatura e umidade) não necessariamente levariam a um declínio nos casos. O R0 entre os locais estudados foi calculado usando dados incompletos de contagem de casos relatados, com a data do relatório, ao invés da data de início do quadro, o que adiciona imprecisão a qualquer estimativa.

Um estudo adicional sobre o papel dos fatores ambientais nas taxas de transmissão do COVID-19 relata que o clima, isoladamente, não pode explicar a variabilidade do R0 nas províncias chinesas, cidades ou outros países.

Conclusões

  • Novos dados sugerem que o clima frio e seco pode facilitar a disseminação do novo coronavírus (2019-nCoV).
  • É necessário cuidado ao considerar as implicações desses achados, que podem estar sujeitas a fatores de confusão. Além disso, muitos destes novos dados para 2019-nCoV ainda precisam ser revistos por pares.
  • Embora os climas mais quentes possam retardar a propagação de 2019-nCoV, confiar apenas nas mudanças climáticas isoladamente é improvável que seja uma medida suficiente para retardar a transmissão do COVID-19.

O artigo não teve revisão por pares; ele não deve substituir o julgamento clínico individual e as fontes citadas devem ser checadas. O ponto de vista expresso neste comentário representa o ponto de vista dos autores.

Tradução: Tatiane Bomfim Ribeiro e Rachel Riera.

*Jon Brassey é editor associado no BMJ Evidence-Based Medicine. Carl Heneghan é professor do Centro de Medicina Baseada em Evidências no Nuffield Department of Primary Care Health Sciences, no Reino Unido. Kamal R. Mahtani é médico e professor associado do Centro de Medicina Baseada em Evidências. Jeffrey Aronson é médico e farmacologista clínico na mesma instituição.

Este artigo foi inicialmente publicado pelo Centro de Medicina Baseada em Evidências no Nuffield Department of Primary Care Health Sciences (CEBM) e pela Oxford-Brazil EBM Alliance. O texto aparece aqui com permissão dos autores e integra os esforços do CEBM para distribuir informações sobre o COVID-19.

FOTO: JURE MAKOVEC / AFP