Política Angela Merkel sai de cena: o que isso significa?

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Angela Merkel sai de cena: o que isso significa?

 

Longe da popularidade de outros tempos, a chanceler não vai se candidatar novamente e abrirá mão da liderança de seu partido

The ConversationPor Daniel Hough*

A política alemã tem sido dominada por dois partidos desde o fim da guerra, os Democratas Cristãos (CDU) e os Social-Democratas (SPD). Os recentes resultados eleitorais nos estados da Baviera e Hesse evidenciam, no entanto, que eles estão em apuros.

Isso ficou ainda mais claro quando, no dia seguinte à eleição de Hesse, Angela Merkel, líder de longa data da Alemanha, anunciou que não voltaria a concorrer ao posto de chanceler na eleição de 2021 e que não se candidataria à reeleição como líder a CDU, em dezembro.

Merkel reconhece que sua marca não é mais o ativo eleitoral de outros tempos e que a necessidade de preparar um sucessor torna-se urgente.

Resistência no topo

Os partidos democratas-cristãos – CDU e seu parceiro regional, a CSU – e o SPD continuam a governar nacionalmente como parte de uma longa e grande coalizão, mas veem suas proporções de voto despencarem para mínimos históricos.

Enquanto isso, a extrema-direita representada pela Alternativa para a Alemanha (AfD), desde a eleição de Hesse, está agora presente em todos os 16 parlamentos regionais, além do Parlamento Europeu e no Bundestag (Congresso nacional). Os verdes estão voando alto nas pesquisas de opinião e tiveram um desempenho admirável nas recentes eleições regionais.

A CDU e o SPD agora têm algum tempo para tentar moldar a narrativa nacional de uma maneira que lhes convenha. Ambos buscam sair da coalizão, mas isso não pode começar em breve.

A CDU / CSU e o SPD são auxiliados pelo fato de que a Alemanha caminha para um período de relativa tranquilidade eleitoral. Isso dá ao governo algum espaço para respirar. Políticos de ambos os partidos estão conscientes de que as disputas internas prejudicaram o governo.

Nem Merkel nem Andrea Nahles (líder do SPD) têm o menor interesse em derrubar a coalizão e convocar novas eleições. Isso seria um desastre eleitoral para ambas as partes. Eles precisam, de alguma forma, fazer o governo nacional funcionar. Segundo Nahles, isso envolverá uma avaliação periódica para ver se há evidências suficientes de sucesso do SPD para merecer continuar a aliança.

O termômetro de 2019

Um indicador interessante de onde a Alemanha pode acabar em 2021 poderia ser para onde os eleitores descontentes da CDU irão em cada uma das eleições regionais de 2019. As eleições nacionais alemãs são frequentemente vencidas e perdidas no leste.

Em Brandemburgo, na Saxônia e na Turíngia, a CDU não tem muito a perder, como na Baviera e em Hesse, tendo alcançado 26,7%, 26,9% e 28,8% no último pleito. Mas desde 1990 o eleitorado do leste tem sido mais volátil do que o da porção ocidental. Os eleitores mudam suas preferências e, às vezes, drasticamente.

Se os Verdes forem novamente capazes de captar o mesmo número de eleitores da CDU do que a AfD, então podemos considerar isso como uma indicação justa de que sua base de apoiadores cresce nacionalmente. Dado que a AfD não é neófita nesses três estados (levou 12,5%, 9,7% e 10,6% dos votos, respectivamente, em cada uma das últimas eleições regionais), não será a novidade que tem sido até agora.

Prever tendências nacionais a partir de pesquisas regionais pode ser um jogo perigoso. Mas dado que o governo alemão tem agora a melhor parte de um ano para parecer e agir como quem sabe o que faz, as três eleições regionais no leste do país serão um excelente momento para fazer um balanço de todas as tendências surgidas em 2018.

* Professor de Política da Universidade de Sussex, no Reino Unido. Uma versão diferente deste artigo foi originalmente publicada no The Conversation.

Foto: Tobias SCHWARZ / AFP