Política A encruzilhada de Macri

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A encruzilhada de Macri

O presidente argentino perde as eleições primárias de lavada e agora precisa tentar reverter o cenário até outubro ou iniciar uma transição

Os eleitores argentinos deram um choque de realidade no presidente Maurício Macri e em suas políticas de austeridade nas eleições primárias de 11 de agosto. O governista, que até aparecia em pesquisas de opinião à frente ou empatado com o candidato peronista Alberto Fernández, sofreu um duro baque: perdeu por 16 pontos de vantagem (49% x 33%).

As primárias servem para definir as principais coligações e como um teste para o primeiro turno, que ocorre em 27 de outubro. Mas o mercado, claramente pró-Macri, reagiu com pânico. O desvalorizado peso despencou 30% e algumas empresas argentinas com ações nos Estados Unidos perderam mais da metade do seu valor.

“As primárias forneceram informações que as pesquisas não davam: a inquietação social com a gestão do presidente era maior do que a mídia e os analistas previam. No entanto, não sei se este triunfo é uma adesão plena à fórmula vencedora ou uma rejeição da gestão Macri”, afirma Fernando Domínguez Sardou, professor de Política Comparativa da Universidade Católica da Argentina.

Caso esse resultado se repita, Macri corre sério risco de perder a disputa no primeiro turno para o candidato unigod pela ex-presidente Cristina Kirchner, vice na chapa. “Como, à primeira vista, é difícil que Macri seja reeleito, o governo está em uma encruzilhada dupla: por um lado, tem que garantir uma transição ordenada. Por outro, tem que tomar uma série de decisões políticas fortes para neutralizar a reação dos mercados pela derrota nas eleições”, diz o acadêmico.

Macri, prossegue Sardou, não tem outra alternativa a não ser mudar a direção de seu programa. “Mas não o de campanha, o de governo. E embora pareça difícil, é possível que Macri se recupere em termos de resultados eleitorais.”

Politike: Pesquisas de opinião indicavam um cenário mais equilibrado, mas Macri perdeu as primárias para Fernández de forma contundente. O que explica esse resultado?

Fernando Domínguez Sardou:
A vitória de Alberto Fernández era esperada, mas não por essa margem. Os 16 pontos de vantagem da “Frente de Todos” são um claro sinal contra o governo de Mauricio Macri. Neste sentido, acredito que as primárias forneceram informações que as pesquisas não davam: a inquietação social com a gestão do presidente era maior do que a mídia e os analistas previam.

A falta de pesquisas confiáveis combinadas dificultou a análise dos cenários. Não sei se devo, no entanto, ler este triunfo da Frente de Todos como uma adesão plena à fórmula vencedora ou como uma rejeição da gestão Macri. A má administração da economia, combinada com o forte impacto nas classes média e baixa – em termos de inflação e emprego-, aliado à “decepção” que significou para esses setores a quebra de promessas de campanha nesta área pode ser a explicação central do resultado. De qualquer forma, sem pesquisas críveis, isso são apenas conjecturas.

Politike: O resultado das primárias indica que Macri também sofrerá uma derrota significativa em outubro ou pode ser visto como uma mensagem para ele mudar a direção de seu programa?

FDS: O principal impacto do resultado das primárias é que ele reorganiza não apenas a competição – como normalmente seria esperado nessas eleições -, mas a ação do governo. Como, à primeira vista, é difícil que Macri seja reeleito, o governo está em uma encruzilhada dupla: por um lado, tem que garantir uma transição ordenada, mas, por outro, tem que tomar uma série de decisões políticas fortes para neutralizar a reação dos mercados pela derrota nas eleições.

Alberto Fernández, por sua vez, dada a muito provável chegada à Presidência, precisaria moderar seu discurso e se mostrar mais como presidente do que como candidato a tal. Ele também precisa ficar distante da própria Presidência, porque senão seria identificado com as políticas adotadas nestes meses. Creio que o cenário é, ao menos, confuso e complexo para todos os atores, porque a campanha, o gerenciamento e a transição se cruzam inevitavelmente.

Em resposta concreta à pergunta, Macri não vai ter outra alternativa a não ser mudar a direção de seu programa. Mas não o de campanha, o de governo. E embora pareça difícil, é possível que Macri se recupere em termos de resultados eleitorais.

Para isso, é necessária uma combinação de fatores que, embora possíveis, dificilmente ocorrerão: 1) aumento da participação eleitoral, e que a maior parte desses novos eleitores vá para Macri; 2) transferência para Macri de votos de terceiras forças (Roberto Lavagna, Gómez Centurión e José Luis Espert, principalmente); 3) e que Alberto Fernández perca alguns eleitores. Esses três fenômenos foram vistos em eleições anteriores, mas nunca combinados. Se acrescentarmos a isso o mal-estar econômico esperado após as reações dos mercados, é difícil. Ao mesmo tempo, os eleitores das terceiras forças, dado o resultado esmagador, dificilmente migram para o macrismo.

Politike: Após as primárias, o peso e as ações de empresas argentinas nos Estados Unidos entraram em colapso. Por que o mercado reagiu assim?

FDS: Sem ser especialista em questões de mercado e política econômica, a campanha caracterizou-se, no início, pela forte presença de discursos inquietantes para os mercados. Especialmente naqueles aspectos relacionados ao pagamento dos diferentes instrumentos financeiros do Estado. No entanto, vejo que isso dificilmente acontecerá. O que aconteceu foi uma forte convicção dos mercados em relação à continuidade da Macri nos últimos dias. Se combinarmos a surpresa do esmagador resultado eleitoral com a incerteza da primeira derrota severa de um governista em uma eleição primária na história argentina, acredito que os mercados reajam pela incerteza de curto prazo em relação às políticas a seguir. Macri pode continuar com o mesmo “livro de receitas” políticas se quiser ganhar uma eleição? E o que se sabe sobre as políticas a serem aplicadas por Alberto Fernández? E a partir de quando elas serão aplicadas? Desde agosto ou dezembro? Essas incertezas levam os mercados a reagirem como se vê. E creio que não representam uma surpresa para ninguém na Argentina.

Politike: Jair Bolsonaro disse que se a esquerda retornar ao poder na Argentina, o país poderia se tornar uma Venezuela. Além disso, disse que o sul do Brasil receberia milhares de argentinos fugindo. Como o senhor analisa essa declaração?

FDS: Eu não concordo com esta afirmação de forma alguma. O peronismo foi caracterizado por governar por períodos relativamente longos da história argentina, depois de enfrentar eleições extremamente bem sucedidas com uma certa unidade, mas depois resolveu suas discrepâncias internas do governo. Comparar o fenômeno com a Venezuela, dessa perspectiva, parece ao menos equivocado. Em qualquer caso, não são comparáveis, devido às características de cada país, suas populações e seus processos políticos.

Foto: Juan Mabromata/AFP