Direitos Humanos “Visitar o passado é importante para curar as feridas”

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“Visitar o passado é importante para curar as feridas”

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Mais de 20 anos após o genocídio de Srebrenica, ainda há rejeição ao uso do termo na Bósnia-Herzegovina. Diferentes narrativas sobre o ocorrido impactam as novas gerações, avalia acadêmico bósnio

Por Gabriel Bonis

Este é o quarto texto da série especial do Politike sobre os 20 anos do fim da guerra civil na Bósnia-Herzegovina. As demais partes podem ser lidas aqui, aqui e aqui.   

Há cerca de 22 anos, no auge da guerra civil da Bósnia-Herzegovina, a Europa observou imóvel o maior genocídio ocorrido no continente desde a Segunda Guerra Mundial. Em 11 de julho de 1995, tropas bósnio-sérvias invadiram a cidade de Srebrenica e massacraram mais de 8 mil homens muçulmanos do grupo étnico dos bosniaks, que haviam buscado refúgio no local proclamado pelo Conselho de Segurança da ONU como uma zona de segurança.

Mesmo sob proteção de 600 soldados holandeses, Srebrenica caiu rapidamente. Mais de 20 mil muçulmanos, entre eles crianças, mulheres e idosos fugiram para uma base próxima em Potočari, de onde foram evacuados por tropas da ONU. Os bósnio-sérvios deportaram 23 mil mulheres e crianças para o território controlado pelos bosniaks, mas massacraram os homens capturados.

O evento foi definido como genocídio pela Corte Internacional de Justiça. Mesmo após mais de duas décadas, a Sérvia continua a não reconhecer como genocídio os assassinatos em massa em Srebrenica. As tensões étnicas internas na Bósnia também persistem.

A guerra civil terminou em 1995 com o Acordo de Paz de Dayton, que desenhou a Constituição bósnia. O documento dividiu o país em duas áreas internas autônomas: a Federação da Bósnia e Herzegóvina, onde vive a maior parte dos bosniaks e croatas, e a República Srpska, majoritariamente habitada por sérvios étnicos (e onde também não se usa o termo genocídio sobre Srebrenica).

O tema ainda é muito complexo para se debatido abertamente pela sociedade, conforme argumenta Saša Madacki, ex-diretor do Centro de Direitos Humanos da Universidade de Sarajevo, nesta entrevista. O genocídio, defende ele, precisa ser enfrentado sem rodeios para evitar que narrativas diferentes sobre o fato distorçam a história real, uma vez que parte da sociedade bósnia ainda se recusa a definir o massacre em Srebrenica como genocídio.

Madacki alerta, contudo, ser necessário individualizar as condutas dos perpetrados para não generalizar a culpa de crimes de guerra contra todo um grupo étnico.

Por que é importante manter a memória do genocídio de Srebrenica duas décadas após o ocorrido? 

Saša Madacki: Quando falamos de Srebrenica 20 anos após o genocídio, algo crucial é como trazer esse fato histórico de forma completa para o currículo das escolas, de maneira apropriada para que ele não seja esquecido. Infelizmente, ainda há a negação do genocídio como um dos discursos dominantes da sociedade bósnia. Há uma parcela da sociedade que gostaria de negar a existência deste fato, enquanto outra gostaria de preservar a história, mantê-la viva. Esses discursos contrastantes estão criando um problema para os jovens atuais.

As testemunhas presenciais possuem um conhecimento profundo do que ocorreu. Temos que garantir que todas as futuras gerações saibam quem fez o quê, contra quem, por quê e como [durante a guerra civil]. Para este propósito é preciso trazer os fatos para os livros das escolas, e não os mitos. Temos que tentar evitar os mitos e aqueles que os criam, para que possamos estabelecer uma boa base para a educação.

Isso é importante por diversas razões. Por exemplo, uma geração que está na escola e que nasceu até oito anos após o genocídio não terá nenhuma experiência pessoal, nem mesmo secundaria de ler aquilo nos jornais. Eles estão se relacionando com aquilo em um passado distante. E isso pode criar um problema por causa das histórias de que o genocídio nunca aconteceu, que ninguém é culpado. Isso pode criar um problema para o futuro porque ao não se refletir de forma adequada, aquilo pode se repetir.

Os fatos históricos precisam ser estabelecidos e isso pode ser feito apenas ao introduzi-los no currículo usando de forma extensiva os arquivos. Acredito fortemente que os arquivos, que estão sob posse do Tribunal Internacional de Haia, na Holanda, devem ser transferidos em cópia para a região. Essa ideia de um tribunal como um mecanismo residual para estabelecer centros de informações é algo bom, mas é preciso ser feito de diversas maneiras.

Uma delas é abrir os arquivos para todos e não considerá-los como algo científico, disponível apenas para acadêmicos analisando o tema em profundidade ou para o Judiciário, que utiliza esses fatos em julgamentos nas cortes. Os arquivos precisam ser abertos para as escolas, para a academia e o público em geral.

É preciso também organizar a extração do material do arquivo e estabelecer exibições temporárias ou permanentes, que poderiam existir por cinco a dez anos antes de serem substituídas.

Quando se fala sobre o genocídio, quando se diz que 8 mil pessoas foram mortas em poucos dias em julho de 1995, às vezes os seres humanos não conseguem se relacionar com números. É algo nebuloso, mas quando confrontamos as pessoas de verdade com os indivíduos que foram mortos mostrando seus nomes, sobrenomes, número de identidade, alguns dos seus pertences, aí pode-se estabelecer uma relação com o fato.

É como Auschwitz. Ao se falar sobre o Holocausto, abordamos o número de seis milhões de vítimas, mas isso pode não dizer muito. Ao visitar Auschwitz e ver milhares e milhares de sapatos das pessoas que passaram por lá durante aquele período temos uma noção do tamanho daquela atrocidade.

Creio que histórias pessoais e a história oral devam ser introduzidas nas salas de aula do ensino secundário e da academia porque os historiadores escrevem a história do ponto de vista dos arquivos, na terceira pessoa. Mas a história oral diz que também devemos dar espaço para as pessoas que viveram os fatos darem os seus relatos. Quando você vê ouve essas histórias, então pode de fato criar uma imagem na sua mente sobre o que realmente aconteceu.

Precisamos acabar com a negação do genocídio confrontando com fatos reais aqueles que o recusam. Não podemos nos dar ao luxo de estabelecer a história de forma fragmentada. Todas as peças do quebra-cabeças precisam ser colocadas sob a mesa para que confrontemos aquele imagem, seja ela qual for. Algumas pessoas dizem que não devemos cutucar as feridas do passado, mas ir a fundo nos arquivos é necessário para curar essas feridas porque quando todos perceberem a escalda daquela atrocidade, vamos começar a reconsiderar as nossas perspectivas sobre o tema.

Centro de Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina. Foto: Gabriel Bonis

Como a exposição dos jovens a diferentes narrativas sobre o genocídio (nas famílias, na escola e na sociedade) afeta a compreensão deles sobre o tema?

SM: Há a narrativa dentro da família, uma testemunha ocular vai contar aos netos o que aconteceu. Depois há a narrativa na escola onde ainda há problemas em ensinar sobre o genocídio em sua escala total porque todos têm medo de colocar isso nos livros escolares. Ainda é um tema delicado com o qual não se sabe bem como lidar. Há as ONGs lutando pela verdade completa, assim como as famílias do sobreviventes e as associações das vítimas que estão tentando passar a verdade para a mídia. Alguns jovens acabam muito frustados em meio a esse cenário.

Dei um curso de verão sobre direitos humanos para jovens entre 17 e 21 anos de idade de todas as partes da Bósnia. Convidei três pessoas que estiveram em presas em campos durante a guerra para contarem suas histórias. Os jovens ficam surpresos porque ninguém está usando plurais para falar do que aconteceu, dizendo todos os croatas, sérvios e muçulmanos. Todos os convidados falam sobre responsabilidades individuais e isso é importante para não generalizar. Eles dizem “fui torturado por tal pessoa”. Desta forma, o criminoso tem um nome e o crime tem um perpetrador.

Isso também evita que entremos no jogo da culpa coletiva de nações ou grupos étnicos. Por isso é importante definir quem fez o quê contra quem, para evitar esse problema de “o seu povo fez algo contra o meu” entre grupos étnicos. O que se tem é um perpetrador que deve ser punido. Essa é a razão pela qual devemos estabelecer uma narrativa oficial baseada em fatos para impedir a impunidade.

Aquelas três pessoas contaram sobre suas experiências com base em fatos verificáveis e verificados pelas cortes. Ao menos a história oficial na corte já foi estabelecida.

Como o genocídio é ensinado nas escolas? Na Republica Srpska o termo genocídio não costuma ser usado nos livros.

SM: Eles usam o termo crime horrível. A palavra genocídio nunca é usada. Esta é uma das estratégias de negação porque alguns políticos acreditam que se disserem que houve genocídio, eles dirão que os sérvios como um povo são os culpados. Ainda há em nosso subconsciente a teoria do orgulho ou da culpa coletiva. Se você disser que somos culpados ou que o genocídio ocorreu, então indiretamente dirá que os sérvios são culpados. E por que o meu povo tem que sofrer com esta página escura na história desta grande nação?, eles se perguntam. Isso é um problema, mas ninguém realmente disse a essas pessoas que queremos a identificação de condutas individuais e dos ideólogos por trás dos crimes. Então, as coisas serão muito mais fáceis mesmo para os sérvios que acreditam neste tipo de coletividades.

Há cerca de 13 milhões de sérvios nos Bálcãs e uma estimativa de que existam cerca de três ou quatro mil criminosos de guerra. Não queremos responsabilização coletiva. Gostaria de ver os criminosos devidamente identificados e punidos.

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