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Um ministro só não faz Política Externa

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Diplomacia do segundo mandato de Dilma começa com novo chanceler, mas avanços dependem da vontade da presidente de colocar a mão na massa

A política externa do segundo mandato de Dilma Rousseff começou extra-oficialmente na semana passada, com a primeira viagem internacional da presidente em seu segundo termo no cargo.

No início do mês, Dilma cancelou sua ida ao encontro de representantes do mundo econômico e financeiro em Davos, na Suíça, para prestigiar a posse do presidente boliviano Evo Morales.

A troca não deixa de ser interessante, embora tentar prever se ela foi a mais acertada seja praticamente impossível para qualquer observador, mesmo os mais bem informados.

Enquanto a visita a Davos poderia parecer natural em tempos de tensão na economia, a ida à Bolívia pode indicar uma sinalização ao um reforço nas relações com os vizinhos sul-americanos, após quatro anos um tanto distantes (principalmente se comparado à atividade frenética dos dois mandatos de Lula). Basta lembra a elegante reclamação de Morales de que Dilma nunca esteva na Bolívia como presidente.

Ainda é cedo para dizer, mas poderíamos especular que cancelamento da visita a Davos também pode ser visto como uma espécie de “compensação” a setores do PT. Em tempos de medidas ortodoxas na economia, Dilma pode estar pensando investir em uma política externa mais próxima aos países do Sul – incluindo África e Ásia – para, entre vários outros motivos, agradar audiências domésticas à esquerda (é claro que os investimentos nesses países também são um poderoso atrativo).

Tal manobra não seria nova. Em um livro fundamental para se entender a construção das ideias que guiaram a política externa de FHC e dos primeiros anos de Lula, Sean Burges aponta para o que chama de “bifurcação” do governo Lula em seu primeiro mandato.

Para Burges, em meio a uma certa desconfiança dos mercados internacionais após a eleição de Lula, o primeiro presidente do PT decidiu dar ministérios ligados à economia a nomes mais ortodoxos, enquanto as Relações Exteriores ficaram nas mãos de dois nomes mais à esquerda: Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia. Neste caso, a política externa acabaria por contemplar algumas das bandeiras históricas do PT.

Ainda não é possível saber se Dilma poderia adotar estratégia parecida. Até porque o novo chanceler, Mauro Vieira, embora possua um currículo notável, tendo servido como embaixador em dois de nossos parceiros mais importantes – Argentina e EUA – não vem com a carga “autonomista” pela qual Amorim era reconhecido (para saber mais sobre os autonomistas, leia este artigo da professora Miriam Gomes Saraiva, da UERJ).

O novo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira (à frente) em sua cerimônia de posse. (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

O novo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira (à frente) em sua cerimônia de posse. (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Independente disso, um ministro sozinho não faz política externa. Entre analistas dos mais diversos matizes é quase consenso que houve um certo abandono da política externa por parte de Dilma em seu primeiro mandato. Mesmo mantendo “metade” do time de Lula (no caso, o assessor de política internacional Marco Aurélio Garcia), a diplomacia de Dilma I esteve bastante aquém da política externa que Amorim gostava de classificar como “ativa e altiva”(para outros, ela não passou de hiperativa e com poucos resultados, mas isso é tema pra outra conversa).

Aliado a isso, temos uma situação em que as verbas para o Ministério das Relações Exteriores tiveram uma vertiginosa queda no  governo Dilma, o que está levando a uma situação de penúria algumas das representações brasileiras no exterior. A contenção de verbas para a política externa já está tendo inclusive resultados mais drásticos. Acumulando dívidas de cerca de US$ 6 milhões, o Brasil perdeu o direito a voto no Tribunal Penal Internacional. Segundo o jornal O Estado de Sao Paulo, o país já soma U$ 100 milhões em dívidas com o sistema ONU.

Analisando os três primeiros anos do governo Dilma, João Marcelo Conte Cornelet, em um artigo publicado em meados do ano passado, defende que entre os motivos desta “contenção” na política externa estariam uma conjuntura internacional mais difícil, mas também o “perfil” administrativo da presidente.

De fato, ao contrário de FHC e Lula, Dilma não demonstra um interesse especial por política externa como o faz com a economia, por exemplo. Em um momento em que a figura do líder do executivo (como apontam Cason e Power) é cada vez mais fundamental para a diplomacia de um país, isso pode representar um freio importante para uma maior inserção do Brasil como ator global relevante.

Boa parte da decisão sobre como o Brasil irá se comportar no cenário internacional nos próximos anos está nas mãos da presidente. Agora é esperar para ver se teremos uma nova política externa ativa e altiva ou continuaremos com a timidez dos últimos anos.

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