Política Ucrânia: da Revolução Laranja à crise de 2014

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Ucrânia: da Revolução Laranja à crise de 2014

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A origem do atual conflito no país está ligada a fatos que ocorreram há uma década.

O conflito na Ucrânia, que se arrasta há mais de um ano, já vitimou mais de 5,4 mil pessoas e provocou um colapso econômico de grandes proporções. Conforme analisado no artigo anterior desta série especial sobre o conflito na Ucrânia, a construção da identidade nacional ucraniana e, consequentemente, da política interna na Ucrânia nos mostrou que as crises no país vão muito além de disputas entre Rússia e Ocidente. Apesar dos primeiros anos após a independência do país terem acirrado divisões entre o Oeste e Centro (regiões pró aproximação com a União Europeia) e Sul e Leste (pró Rússia), os anos que sucederam a Revolução Laranja mostram uma quebra desse paradigma e a importância de se analisar aspectos internos. A Revolução terminou em 2005, com a ascensão do ex-primeiro ministro Viktor Yushchenko à presidência.

A década seguinte à Revolução Laranja foi marcada por mais uma série de instabilidades políticas e principalmente econômicas, elementos-chave na conflagração do atual conflito na Ucrânia. Para melhor entender os quase 10 anos entre a Revolução e os protestos na Praça Maidan em 2014, este segundo texto da série analisará as políticas econômicas e sociais dos dois presidentes que governaram a Ucrânia neste período, bem como as disputas e alianças políticas no país.

Viktor Yushchenko: nacionalistas pela primeira vez no poder

Apoiado por Yulia Tymoshenko e pelo Partido Socialista da Ucrânia (SPU), Viktor Yushchenko chegou à presidência após ter servido como primeiro ministro durante o governo de Kuchma. A chegada ao posto de primeiro-ministro ocorreu em um contexto no qual a economia ucraniana enfrentava sérias dificuldades no final da década de 1990. Yushchenko, então presidente do Banco Central do país, visou acalmar credores e investidores internacionais e restaurar a reputação ucraniana.

Sua vitória também foi alcançada graças à plataforma de governo considerada “economicamente liberal com orientação social”. As promessas de campanha de Yushchenko incluíam os seguintes pontos: criação de 5 milhões de novos empregos, financiamento para programas sociais, aumento do salário de professores, aumento do piso salarial e da aposentadoria, reforma fiscal, luta contra corrupção e desenvolvimento das zonas rurais.

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Apesar das promessas de reforma, uma das primeiras medidas de Yushchenko foi empossar Yulia Tymoshenko, uma das líderes das oligarquias do Oeste, no cargo de primeira-ministra e elaborar o Programa de Ação 2005, que continha medidas econômicas essencialmente liberais. Apesar de inovador, o Programa não estabelecia metas concretas e nunca foi oficialmente publicado, reforçando as características populistas da administração Yushchenko-Tymoshenko e teorias de que o principal objetivo dos governantes era garantir a maioria no parlamento nas eleições de 2006.

Também merecem atenção no período, as “reprivatizações”, a entrada do país na Organização Mundial do Comércio (OMC) e a política energética do governo Yushchenko.

Para lidar com denúncias de corrupção em privatizações durante o governo Kuchma, Yushchenko propôs anular a venda e reprivatizar algumas empresas. O processo, contudo, foi conturbado e dividiu opiniões entre o presidente e a primeira-ministra Tymoshenko nas decisões mais importantes, como critérios para seleção das empresas e como as reprivatizações seriam feitas na prática. O processo se tornou desastroso, despertando críticas de diversos especialistas, apesar de popular entre os eleitores de Yushchenko. A adesão à OMC também se tornou problemática devido à recusa do parlamento em aprovar leis de proteção à propriedade intelectual, uma das condições impostas pelos Estados Unidos para que o país fosse aceito na organização.

Os problemas com a política energética, por sua vez, tiveram início em 2005 quando o preço do petróleo no mercado mundial teve aumento significativo e petroleiras ucranianas pressionaram para que o governo permitisse a elevação do valor do petróleo produzido na Ucrânia para exportação. Empresas foram, então, acusadas de manipulação de preços e, posteriormente, formação de cartel, levando o governo a fixar o teto abaixo do valor de mercado e proibir exportação do petróleo ucraniano (medidas apoiadas pela primeira-ministra Tymoshenko). Essas ações geraram escassez da commodity no país e retaliação de empresas russas, que recusavam-se a fornecer petróleo à Ucrânia. Após meses, o presidente Yushchenko foi a público desculpar-se e prometer a volta de preços condizentes aos valores do mercado.

Tais problemas (entre outros) levaram especialistas como Anders Aslund, Senior Fellow do Peterson Institute for International Peace, a afirmar que a expectativa de revolução liberal, se tornou um socialismo populista. Havia grandes esperanças quanto ao governo de Yushchenko pela população das regiões Oeste e Central, não somente pela figura do presidente, mas principalmente pela grande popularidade de Yulia Yushenko nas regiões supracitadas. Países ocidentais também apoiavam o regime, já que viam nele uma possibilidade de mais acordos comerciais com a Ucrânia. Entretanto, os sucessivos problemas na administração e as constantes divergências entre Yushchenko e Tymoshenko aumentaram a popularidade do Partido das Regiões, cujo líder era justamente o candidato derrotado em 2004, Viktor Yuanukovych.

Yushchenko e Tymoshenko no European People’s Party Summit 2007. Imagem: EPP / Creative Commons / Flickr

Yushchenko (esquerda) e Tymoshenko (centr0) no European People’s Party Summit 2007. Imagem: EPP / Creative Commons / Flickr

Os frequentes desentendimentos entre Yushchenko e a primeira-ministra levaram o presidente a demiti-la do cargo e, posteriormente, acusá-la de corrupção no caso das reprivatizações. Apesar da demissão, Tymoshenko, que ainda possuía enorme influência política e econômica nas regiões Oeste e Central, desmanchou alianças partidárias e tornou-se forte opositora do governo central. Essa oposição, aliada à crescente popularidade do Partido das Regiões, levou à inusitada nomeação de Viktor Yanukovych como primeiro-ministro pelo presidente.

O que se seguiu, contudo, foi uma administração conturbada dado que a aliança entre Yushchenko e Yanukovych foi uma forma de controlar as tentativas de Tymoshenko de reassumir o cargo de primeira-ministra, e não uma harmonização real de interesses entre o presidente e o primeiro-ministro. O restante do mandato de Yushchenko foi ainda marcado por duas tentativas de dissolver o parlamento, além de mais conflitos com Tymoshenko e seus apoiadores.

Eleições de 2010 e Yanukovych no poder

As eleições presidenciais de 2010 tiveram como principais concorrentes o presidente Viktor Yushchenko, sua rival Yulia Tymoshenko (candidatos apoiados pelo Oeste e Centro do país) e o então primeiro-ministro Viktor Yanukovych (apoiado majoritariamente pelas regiões Sul e Leste). Tymoshenko e Yanukovych foram para o segundo turno e o país novamente se dividiu. Em uma eleição disputada, Tymoshenko teve 45% dos votos (ganhando em 16 estados incluindo a capital Kiev), enquanto Yanukovych teve 49% dos votos (vencendo em 9 estados).

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A campanha de Yanukovych, cujas propostas mais marcantes foram a não adesão ao Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), promessas de tornar o russo o segundo idioma oficial do país e o reconhecimento da Ossétia do Sul e Abecásia (promessas do interesse russo). Os primeiros anos de Yanukovych no poder mostraram um governo mais pragmático que, apesar de priorizar boas relações com a Rússia, não tinha intenções de ser controlado por Moscou.

Yanukovych sinalizou uma possível aproximação com a União Europeia em março de 2010, em um encontro com o então presidente da Comissão Europeia, o português José Manuel Barroso. Desde então, planos para a integração do país no bloco – que compreendia acordos comerciais, políticos e sociais – começaram a ser elaborados. É possível creditar a “mudança” de direção de um presidente apoiado pelo Sul e Leste (regiões pró-Rússia) a diversos fatores, incluindo o forte impacto negativo da crise econômica internacional iniciada em 2008.

Entre 2008 e 2009, o PIB do país desacelerou 15,1% e a inflação atingiu mais de 8% em 2011. A aproximação com a União Europeia, neste sentido, partiu de interesses mais econômicos do que políticos, o que originou posteriormente entraves nas negociações para entrada da Ucrânia no bloco. Os anos que seguiram aos primeiros encontros entre Yanukovych e Barroso evidenciaram que apesar da necessidade econômica em se aproximar da UE, Kiev ainda estava reticente em aceitar as demandas, em sua maioria políticas, feitas pelo bloco europeu.

O período pós-Revolução Laranja desconstrói, assim, alguns mitos sobre a Ucrânia. Os primeiros meses do governo de Viktor Yushchenko mostram que a política interna do país sofre influência externa, não é ditada pela “guerra ideológica” entre Rússia e Ocidente. Apesar da clara influência também na construção de identidades da população de cada região, afirmar que outros países manipulam a política na Ucrânia é simplista. Analisando a história do país, percebe-se que os líderes ucranianos seguem suas ideologias (pró-ocidente ou pró-Rússia) caso estas estejam alinhadas aos seus interesses políticos e econômicos.

No próximo texto da série sobre a Ucrânia, veremos os últimos meses do governo de Yanukovych, como se deu o início dos protestos na Praça Maidan e o desenrolar de um dos mais graves conflitos da atualidade.

One Response to Ucrânia: da Revolução Laranja à crise de 2014

  1. Alacir disse:

    Pergunta: entre 2008 e 2009 o PIB da Ucrânia desacelerou ou caiu 15% (seria uma recessão brutal).
    Bastante interessante o blog, e em especial a série sobre a Ucrânia.

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