Multimídia, Política “Queremos estar presentes em todos os pontos do mundo”
Manoel Gomes Pereira, embaixador do Brasil na Bósnia-Herzegovina

“Queremos estar presentes em todos os pontos do mundo”

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Manoel Gomes Pereira, embaixador do Brasil na Bósnia-Herzegovina, discute os interesses de Brasília no país que completa 20 anos do fim da guerra civil 

De Sarajevo, Bósnia-Herzegovina 

Em 2015, a Bósnia-Herzegovina enfrenta duas datas marcantes. Em dezembro completam-se 20 anos do fim da guerra civil que atingiu o país entre 1992 e 1995. Em 11 de julho, uma cerimônia com diversos líderes mundiais lembrou o aniversário de duas décadas do genocídio de 8 mil homens muçulmanos em Srebrenica por tropas bósnio-sérvias. O massacre provocou uma intervenção da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) no país, levando ao fim a guerra pouco depois.

Durante o conflito, o Brasil enviou 35 observadores militares e 10 monitores policiais para a missão das forças de proteção da ONU na Bósnia. Em 2011, o Brasil abriu sua embaixada em Sarajevo, capital bósnia, para fortalecer os laços com o país. “Temos trabalhado a imagem do Brasil muito na área cultural. O Festival de Cinema de Sarajevo abriu com o ‘Que Horas Ela Volta?’, por exemplo. Isso é algo que vai pouco a pouco mudando a mentalidade. Mas é difícil porque o Brasil segue sendo o País do suor e do carnaval, como dizia Jorge Amado”, afirma o embaixador Manoel Gomes Pereira.

Nesta entrevista, Pereira discute os interesses brasileiros em um país com menos US$ 7 milhões de comércio com o Brasil e onde o desemprego atinge mais de 40% da população. Em Sarajevo desde julho deste ano, Pereira chefiou diferentes divisões do Itamaraty e foi embaixador em Wellington, capital da Nova Zelândia. “Somos o que se chama ‘global player’. Nossa ideia de política externa, ainda que haja dificuldades, é estar presentes em todos os pontos do globo. Temos interesses globais. Um deles é a busca por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.”

Confira a íntegra da entrevista:

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A percepção do Brasil entre a população da Bósnia tende a ser vaga e presa a clichês, com o Brasil sendo relacionado mais com esporte, em especial o futebol, Copa do Mundo e as Olimpíadas. Como a embaixada brasileira tem trabalhado a imagem do Brasil na Bósnia? 

O que temos feito aqui desde que chegamos em 2011 é dar muita ênfase na área cultural. O Festival de Cinema de Sarajevo abriu com o “Que Horas Ela Volta?”, filme de Anna Muylaert. Isso é algo que vai pouco a pouco mudando a mentalidade. Mas é muito difícil porque mesmo em países que têm um contato com o Brasil, segue sendo o Brasil o País do suor e do carnaval, como dizia o Jorge Amado.

A presença econômica da Rússia, China e da Turquia é bem representativa na Bósnia. Por outro lado, os dados mais recentes do Itamaraty mostram que o comércio entre Brasil e Bósnia atingiu apenas US$ 6,7 milhões de dólares entre 2009 e 2012. O que o Brasil está fazendo para fortalecer a relação comercial com a Bósnia? E como o Brasil está fazendo isso? 

O comércio do Brasil com a Bósnia é traço. Não chega a US$ 7 milhões dos dois lados. Depois de quatro anos de embaixada aqui, temos que promover alguns acordos de cooperação começando pelos mais factíveis, como na área de esportes e cultura. E, com isso, ir elevando cada vez mais o nível. Somente depois de muito tempo e trabalho é que vamos conseguir fazer algum tipo de investimento. Por hora, acredito muito mais em comércio, em criar laços comerciais. O nosso comércio com a Bósnia é muitas vezes feito entre duas filiais da mesma multinacional. A Fiat Bósnia exportando para a brasileira, e assim por diante. É um comércio muito ainda entre firmas.

Qual a importância estratégica e comercial que o Brasil dá para Bósnia hoje? O que o país visa conseguir aqui? 

Somos o que se chama “global player”. Nossa ideia de política externa, ainda que haja dificuldades, é estar presente em todos os pontos do globo. A Bósnia foi uma coincidência porque o antigo ministro do Exterior da Bósnio foi ao Brasil em 2010 para a Reunião da Aliança das Civilizações. Ele ficou amigo do ex-ministro Celso Amorim [à época ministro das Relações Exteriores] e pediu a ele que o Brasil abrisse uma embaixada no país. Abrimos no ano seguinte, mas não apenas por isso. Temos interesses globais. Um deles é a busca por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Nos Balcãs estamos representados em quase todos os países, com exceção de Montenegro, Macedônia e Moldova. Nos demais países temos embaixadas que foram abertas desde os anos 1990.

Como os Balcãs podem contribuir para o desejo do Brasil de se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da ONU? 

Cada país tem um voto na ONU. Então se ganharmos um país, ganhamos um voto. Nos Balcãs temos cerca de oito países. Se atrairmos metade destes países, temos quatro votos adicionais. É sempre importante cada voto.

O Brasil abriu sua embaixada em Sarajevo apenas em 2011. China e Turquia já estavam no país antes disso, colocando de lado os laços históricos do país com os turcos.  O senhor acredita que houve uma demora na aproximação diplomática com o país? A abertura da embaixada há tão pouco tempo prejudicou a relação comercial com a Bósnia? 

Em matéria de calendário, o Brasil chegou em abril de 1992. Reconhecemos a Bósnia como país independente tão logo entrou para a ONU. Participamos da força de paz para acabar com a guerra civil. Enviamos observadores militares e policiais. A nossa relação de presença na Bósnia tem 20 anos, mas é claro que se tivéssemos aberto a embaixada antes, tudo seria mais fácil. Poderíamos estar partindo hoje de um outro patamar, mas corremos atrás com participações em festivais culturais, por exemplo.

Sarajevo

Este ano marca uma série de data relevantes para a Bósnia. Completam-se 20 anos do genocídio em Srebrenica, do Acordo de Dayton, e do fim da guerra civil. Como o Brasil enxerga a importância desse ano para a Bósnia? O Brasil considera a Bósnia um país estável ou ainda dividido etnicamente? 

A Bósnia é um país ainda em construção, estamos conscientes das dificuldades. Os acordos de Dayton foram assinados dentro do que era possível na época. Suponho que esses acordos iriam se modificados e evoluir com o tempo, mas não evoluíram até hoje. Queremos que o país se desenvolva e entre para a União Europeia, o que será uma grande vitória. Mas há uma série de condicionantes que a Bósnia precisa cumprir antes de ser candidata. Isso tende a demorar. O país também quer entrar para a OTAN porque se sente sujeito a ameaças externas e internas. Como um ataque a um membro da OTAN resulta em uma resposta de todos os demais membros da aliança, a Bósnia se sentiria mais segura.

2015 é um ano importante não apenas pelos 20 anos do fim da guerra civil, mas também porque o país assinou o acordo de estabilização que é um dos marcos para a entrada na EU. Começou também a preparar a agenda de reformas, entre elas a reforma trabalhista. Esse é um dos marcos de modernização do país. A Bosnia é ainda uma economia de transição para o capitalismo e precisa realizar muitas privatizações para tirar o peso do Estado, permitindo que o país se aproxime mais da UE.

Durante a guerra civil, o Brasil enviou observadores militares e monitores policiais para a missão das forças de proteção da ONU. As tropas internacionais não conseguiram evitar o genocídio em Srebrenica. As tropas holandesas tiveram o auxilio aéreo negado enquanto as tropas bósnio-sérvias avançavam sobre a zona de segurança protegida pela ONU. A falha da comunidade internacional neste caso é evidente. A ONU reconheceu suas falhas em 1999. O governo holandês tende a  alegar que as tropas estavam sob comando exclusivo da ONU. Por outro lado, a Suprema Corte holandesa reconheceu que as tropas do país em Srebrenica foram responsáveis pela morte da família de um tradutor da ONU ao obriga-los a deixar a base militar. O senhor acredita que é importante que os países envolvidos na missão reconheçam publicamente suas responsabilidades no genocídio? 

Caberá à Justiça dos países envolvidos examinar estes temas, assim como ocorreu com a decisão da Suprema Corte da Holanda. O mesmo vale para processar os responsáveis. O Brasil foi à Bósnia em 1992, mas a nossa participação modificou-se muito desde então. Quando fui diretor da área consular no Itamaraty, dei passaportes para militares brasileiros irem para o atual Sudão do Sul desativarem minas. A nossa atuação foi sendo ampliada, mas nunca nos colocamos em uma situação de sermos condenados em tribunais internacionais por envolvimento em crimes contra a humanidade.

Assista ao vídeo abaixo:

 

One Response to “Queremos estar presentes em todos os pontos do mundo”

  1. eder disse:

    Vão pagar as contas de luz das embaixadas ou vamos abrir + umas e sermos despejados?,!

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