Política Porque Washington tem dificuldades em compreender o BRICS

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Porque Washington tem dificuldades em compreender o BRICS

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Os EUA não compreendem a estratégia das potências emergentes em, simultaneamente, afirmar instituições existentes e criar estruturas alternativas

“A China tentará se opor e derrubar a ordem existente ou irá se integrar a ela?”, gosta de perguntar G. John Ikenberry, professor da Universidade de Princeton (EUA). Centenas de estudiosos de política seguem o exemplo de Ikenberry e procuram avaliar em qual direção a China seguirá conforme se transforma na maior economia global, colocando um fim a três séculos de dominação global do Ocidente. Ikenberry, um proeminente liberal internacionalista, argumenta que a China pode ser integrada na ordem atual, que ele define como “fácil de aderir e difícil de derrubar.” John Mearsheimer, um acadêmico realista de destaque da Universidade de Chicago (EUA), prevê, por outro lado, que a ascensão da China não será pacífica e mostrará pouca inclinação para a manutenção das estruturas criadas pelos EUA. Potências emergentes podem criar um sistema paralelo, conforme Barma, Ratner e Weber definem, com “seu próprio conjunto distinto de regras, instituições e moedas de poder, rejeitando princípios-chave do internacionalismo liberal e particularmente qualquer noção de sociedade civil global que justifique intervenção política ou militar”.

A esperança de que a China (e, em diferentes níveis, os outros BRICS) integraria a ordem ocidental liderada pelo Ocidente há tempos instrui a política dos EUA. As tentativas de engajar países como a China ou a Rússia astutamente procuraram aumentar a interdependência, gerar riqueza mútua, e transformar outros países em partes interessadas em manter a ordem liderada pelos EUA.

Contudo, a China e os outros países do BRICS perseguem uma estratégia que desafia tal escolha de tudo-ou-nada, entre rejeitar a ordem internacional liberal e mantê-la. Uma breve análise da recente Declaração de Ufa, assinada em 7 de julho na VII Cúpula do BRICS, mostra o quão comprometidos os Estados membros estão em manter e fortalecer a estrutura das Nações Unidas e diversas outras instituições multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC). Mas, ao mesmo tempo, as potências emergentes têm se engajado em uma onda sem precedentes de empreendedorismo institucional, como a criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o Arranjo Contingente de Reservas (ACR) do BRICS, e o Banco de Investimento em Infraestutura da China (AIIB, na sigla em inglês) atestam.

Formuladores de política dos EUA têm enfrentado dificuldades para compreender e responder a esta dupla estratégia de afirmar instituições existentes e criar estruturas alternativas ao mesmo tempo. A China não se envolve em nenhum comportamento de confronto sério – como abandonar o Banco Mundial e pressionar outros países a fazerem o mesmo – que justifique uma resposta rápida dos EUA. No entanto, como Cynthia Roberts argumenta, o BRICS “contesta as pretensões do Ocidente de permanente gestão do sistema existente”, um movimento que gerou confusão e reações mal concebidas de Washington, simbolizado pelo desastre diplomático de se opor ao AIIB. A tentativa de Washington em evitar que outros países se juntem ao novo banco expôs que, embora os EUA tenham, efetivamente, feito muito para construir uma ordem liberal baseada em regras e normas, o país está profundamente desconfortável com a ideia de não estar no comando.

O problema é que apenas esta angústia não será suficiente para animar aliados tradicionais dos EUA a agirem para conter a China e outras potências emergentes. A Europa, em particular, não está interessada em ajudar a perpetuar a liderança global dos EUA a qualquer custo se isso afetar sua relação econômica com a China e outros países. Isto é particularmente assim porque as estruturas criadas recentemente não minam, de forma alguma, as regras e normas que sustentam a ordem atual. Muito pelo contrário, a decisão da China em criar o AIIB a protege de futuras acusações de ser uma “parte interessada irresponsável” que não fornece nenhum bem público global. Afirmações de que a China pretende “demolir a ordem global por dentro” representam, para muitos observadores, pouco mais do que as tentativas dos EUA em prolongar a hegemonia pelo bem da hegemonia.

Desde que a China consiga manter a sua atual trajetória de crescimento, veremos o surgimento de diversas novas estruturas nos próximos anos. O BRICS está preparado para criar sua própria agência de avaliação de crédito, aumentar trocas bilaterais de câmbio (swaps), e mecanismos para permitir e estabelecer o comércio transfronteiriço do BRICS em moedas locais. O Sistema Internacional de Pagamentos da China (CIPS, na sigla em inglês) será o equivalente chinês à Sociedade de Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais (SWIFT, na sigla em inglês) reduzindo drasticamente a capacidade do Ocidente em isolar transgressores financeiramente. Analistas ocidentais rotineiramente alertam seus colegas indianos ou brasileiros que eles estão prestes a serem “presos em uma ordem dominada pela China”. Esse argumento falha ao não levar em consideração que países como o Brasil e a Índia continuam firmemente integrados em instituições existentes, como o Banco Mundial, o FMI, a SWIFT, e todas as demais estruturas lideradas ou controladas por potências ocidentais. Integrar instituições lideradas por EUA e China deve proporcionar ao Brasil, Índia, e outros países flexibilidade e espaço de manobra, além de poder ajudá-los a aumentar seu poder de barganha nas estruturas existentes.

Leia o texto original aqui.

7 Responses to Porque Washington tem dificuldades em compreender o BRICS

  1. Marquinhos disse:

    Devemos lembrar que toda estrategica americana e tomada por programas de computadores. Seria como um ser humano verncer um jogo de xadrez contra um computador. O segredo e nao sentar na mesa para jogar, desta forma nao ha como ser derrotado.

  2. […] também É hora de o Brasil endurecer com Nicolás Maduro        Porque Washington tem dificuldades em compreender o BRICS         O papel do BRICS na cooperação internacional         Brasil é o último em […]

  3. Gilson Raslan disse:

    Não, Washington não tem dificuldade de compreender o BRICS. Washington simplesmente não aceita o BRICS, porque países importantes como Brasil e Índia, vão sair de sua influência nefasta com a criação de organismos de fomento.

  4. Parabéns pelo reportagem muito boa! Acho que o Brasil está no caminho certo em sua geopolítica, mas é preciso arrumar a casa e acalmar os ânimos por aqui e prender aqueles que conspiram contra a soberania do país.

    • Eder disse:

      Kkkkkk prender quem não aceita os desmandos do atual pseudo governo?! Baseado em que?! Ngm pegou em armas amigo. Isso aqui é democracia onde cada um tem o direito de pensar diferente ou Cuba onde quem fala o que pensa vai em cana? Houve golpe em 92? Ou tirar Collor por muito menos, foi legítimo?! E quando Lula, o cabeça do esquema, pedia o impedimento de FHC? Aquilo era democracia? Hoje é golpe? Me explica….

  5. Visk disse:

    Excelente texto, parabéns. É especialmente útil no sentido de nos demonstrar como arcabouços teórico-conceituais do Ocidente falham em compreender o gigante asiático. O Idealismo/Liberalismo não o faz, e tampouco o Realismo Político. Resta a nós esperarmos o que a estratégia chinesa de ‘atravessar o rio pulando nas pedras’ reserva ao futuro.

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