Carrossel, Política Parte II: Os dez principais desafios da política externa brasileira em 2016
Presidenta Dilma Rousseff e o Presidente da China, Xi Jinping. Foto: Roberto Stuckert Filho/ PR

Carrossel, Política

Parte II: Os dez principais desafios da política externa brasileira em 2016

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Preparar-se para um mundo mais centrado na Ásia e usar as Olimpíadas para revitalizar a imagem desgastada do Brasil no mundo estão na segunda parte da lista

Selecionar apenas dez pontos entre uma imensidão de desafios que o Brasil enfrenta é, claro, uma tarefa praticamente impossível e fadada a omitir tópicos cruciais. Esta lista, portanto, não pretende ser exaustiva (não contempla temas chave como meio ambiente, ajuda ao desenvolvimento e não proliferação nuclear), mas busca estimular o debate sobre um ano desafiador que temos pela frente.

Leia abaixo a segunda parte da lista, com mais cinco temas. A primeira parte pode ser acessada aqui.

6. Convencer a presidente, o Congresso e a população de que política externa importa

O ministro Mauro Vieira (Relações Exteriores) foi bem sucedido ao lidar com os desafios mais emergenciais internos ao Itamaraty (como impulsionar o moral da tropa) desde que assumiu há um ano. Ele deve agora continuar, mesmo em tempos de extrema austeridade, a convencer a presidente e o Congresso de que o Itamaraty requer mais, e não menos, recursos.

Conforme o Brasil almeja defender seus interesses no exterior, o número pequeno de diplomatas impõe limitações em sua capacidade de operacionalizar novas políticas. Estratégias inteligentes desenvolvidas domesticamente podem não obter o impacto desejado devido à falta de oficiais do Ministério das Relações Exteriores para implementá-las.

Negociações bilaterais complexas podem ser prejudicadas se os negociadores de um lado não tiverem acesso adequado a informações em razão da falta de equipe diplomática e conhecimento em solo sobre restrições domésticas que o outro lado está enfrentando.

Finalmente, manter uma embaixada sobrecarregada com poucos funcionários pode enviar um sinal negativo ao país que recebe. Em alguns casos, isso pode gerar mais danos do que não abrir uma embaixada. No entanto, a presidente dá pouca importância para a diplomacia, e algumas das principais iniciativas internacionais do Brasil não foram iniciadas pelo Itamaraty, mas por outras instâncias do governo.

Formuladores de política externa enfrentam, então, um desafio duplo: convencer o Congresso e a presidente de que a política externa importa, e que o Itamaraty é o melhor lugar para projetá-la e implementá-la. Enquanto poucos recursos estiverem disponíveis e a presidente lutando por sua sobrevivência, o Itamaraty deve praticar o que Matias Spektor chamou, em uma frase feliz, de “ginástica em uma cela de prisão” e aprender a operar abaixo do radar.

7. Desenvolver expertise de ponta em segurança cibernética

Foto: Rachel Johnson / Creative Commons / Flickr

Foto: Rachel Johnson / Creative Commons / Flickr

Novas tecnologias de comunicação corroem hierarquias, desmoronam tempo e distância, e empoderam redes. Isso terá um impacto maciço nas relações internacionais, e a segurança cibernética será um elemento chave na elaboração da política externa nas próximas décadas.

Questões que definem a segurança cibernética atualmente – como responder a incidentes, o problema de atribuição de ataques, autoridades investigativas e legais que se sobrepõem, parcerias público-privadas, e a necessidade de cooperação internacional – são muito discutidas em Washington e Pequim, mas o Brasil ainda não possui conhecimento para desempenhar um papel chave no debate global sobre as regras e normas da segurança cibernética.

O mesmo vale para acadêmicos de relações internacionais em universidades brasileiras e think tanks, que continuam largamente despreparados para ponderar sobre o assunto.

8. Preparar-se para um mundo mais centrado na Ásia

A China pode crescer um pouco mais devagar do que antes, mas poucos contestariam seriamente que estamos testemunhando um momento de transição. A economia mundial não irá retornar à distribuição de poderes do final do século XX, e o peso da Ásia se fará sentir em todos os aspectos dos assuntos globais.

A embaixada do Brasil em Pequim cresceu nos últimos anos, mas o número de diplomatas em outros locais chave como Tóquio, Deli, Manila e Hanói é muito pequeno. Afinal, é nestes países que a dinâmica mais importante do século XXI (um choque de interesses crescente entre Washington e Pequim) acontecerá.

O Ministério das Relações Exteriores não pode sozinho abraçar um mundo mais centrado na Ásia – universidades brasileiras, jornais e empresas são elementos fundamentais nessa reorientação.

Ser um membro-fundador do Banco Asiático para Investimento em Infraestrutura (Asian Infrastructure Investiment Bank, em inglês), liderado pela China, e estar ativamente envolvido no agrupamento do BRICS são passos importantes na direção correta.

9. Continuar a trabalhar para reformar instituições internacionais

Por que o Brasil deveria se importar em reformar o Conselho de Segurança da ONU em tempos de crise como estes? A resposta é simples: porque responsabilidades globais não são decorrentes de taxas flutuantes de crescimento doméstico. Há pouca utilidade para uma potência emergente que se engaja construtivamente em problemas globais em momentos bons, apenas para desaparecer quando a economia não vai tão bem.

É por esta razão que a retração diplomática do Brasil no governo Dilma Rousseff tem sido tão prejudicial: o momento no qual um futuro presidente irá adotar um papel internacional mais visível fará observadores internacionais questionarem se esse é apenas mais um golpe de sorte.

A lógica por meio da qual instituições internacionais como o Banco Mundial, o FMI e o Conselho de Segurança precisam de reformas continua mais válida do que nunca, e a crise do Brasil não altera a tendência geral de que estamos rumo à multipolaridade.

10. Usar as Olimpíadas promover a imagem desgastada do Brasil no mundo 

Os Jogos Olímpicos oferecem uma oportunidade única para fortalecer a imagem do Brasil ao redor do mundo. Essas atividades são, geralmente, coordenadas pelos ministérios do Turismo ou dos Esportes. Entretanto, sem uma estratégia clara desenvolvida pelo Ministério das Relações Exteriores, elas devem falhar.

As Olimpíadas de 2012 em Londres deveriam servir de exemplo. Personalidades esportivas britânicas relevantes e outras celebridades viajaram pelo mundo para promover o evento, e embaixadas ao redor do mundo adotaram uma estratégia de comunicação midiática coerente e sofisticada.

Organizado em uma época de pessimismo no Reino Unido (reconhecidamente, não comparável ao atual mal estar do Brasil), o evento revigorou a imagem do país no mundo, algo que o Brasil precisa desesperadamente para atrair turistas e investidores.

Texto originalmente publicado no blog Post-Western World. Leia aqui.

One Response to Parte II: Os dez principais desafios da política externa brasileira em 2016

  1. Daniela disse:

    Concordo totalmente com você Oliver. A presidenta e o Congresso deveriam entender q o Itamaraty e a politica externa são muito importantes. As grandes potências, como os EUA e a Europa priorizaram o aumento das exportações de produtos industrializados para poderem sair da crise. Falta o Brasil fazer o mesmo.

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