Carrossel, Política Parte I: Os dez principais desafios da política externa brasileira em 2016
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Foto:  Antonio Cruz/ Agência Brasil

Carrossel, Política

Parte I: Os dez principais desafios da política externa brasileira em 2016

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Ajudar a consertar a economia, recuperar a liderança regional e buscar mais acordos de livre comércio estão na primeira parte da lista 

Simplesmente selecionar dez pontos entre uma imensidão de desafios que o Brasil enfrenta é, claro, uma tarefa praticamente impossível e fadada a omitir tópicos cruciais. Esta lista, portanto, não pretende ser exaustiva (não contempla temas chave como meio ambiente, ajuda ao desenvolvimento e não proliferação), mas busca estimular o debate sobre um ano desafiador que temos pela frente.

Leia abaixo a primeira parte da lista, com cinco temas. A segunda parte será publicada na próxima semana.


1. Ajudar a consertar a economia 

A economia do Brasil está em frangalhos e nenhuma política internacional no mundo poderia consertá-la antes de reformas domésticas profundas – ainda assim, uma política externa sabiamente formulada pode contribuir de modo importante. Isso implica dar nova vida ao Mercosul e buscar ativamente acordos de livre comércio (confira o item 5), tornar mais transparentes e eficazes os empréstimos do BNDES a estrangeiros e mostrar com clareza aos investidores internacionais como o Brasil pretende sair da desordem econômica em que se encontra (um plano para subir 30 posições no ranking Doing Business, do Banco Mundial, seria um bom começo).

Inclui, também, lutar por financiamentos do Novo Banco de Desenvolvimento, liderado pelos BRICS, retomar o programa de bolsas para estudantes brasileiros no exterior (mas limitando-o a engenheiros), facilitar as regras de imigração, ativamente atraindo imigrantes qualificados (de lugares como a Síria), e eliminar trâmites burocráticos complicados para a obtenção de vistos, de modo a aumentar o número de turistas estrangeiros.

2. Recuperar a liderança regional

Nada simboliza a perda de dinamismo da política externa brasileira melhor do que sua política regional passiva e indiferente. Onde a presidente vê a região em cinco, dez ou 20 anos? Qual é o projeto regional do Brasil e como deve ser implementado? O País tenta ter alguma relevância na definição da agenda regional?

Embora o Brasil tenha perseguido uma política regional proativa durante os mandatos de Fernando Henrique Cardoso e Lula, poucos na região entendem hoje o que o Brasil quer. Isso não significa que o Brasil tem que impor suas visões, longe disso. O Brasil é, no entanto, o único país na região com poder convocatório suficiente para articular uma visão comum e criar o estímulo para que ela seja alcançada.

Nos últimos anos, tem havido algumas razões para otimismo. O Brasil, por exemplo, convidou os líderes regionais para se reunir com Xi Jinping, presidente da China, na ocasião de sua vinda ao País para a 6ª Cúpula dos BRICS.O evento poderia ter sido o início de um diálogo sistemático entre líderes da região sobre como lidar com a ascensão chinesa. Essa iniciativa pode ser tomada com muito mais frequência, como já ocorreu no passado – por exemplona formação  do Conselho de Defesa da Sul-Americano.

3. Colocar os direitos humanos e a democracia de volta na agenda 

Na posição de presidente eleita, em dezembro de 2010, Dilma Rousseff classificou de “medieval” a prática iraniana de apedrejar mulheres condenadas por adultério, criando a esperança de que o Brasil tomaria uma posição mais clara em relação a violações de direitos humanos ao redor do mundo.

Mesmo diplomatas experientes interpretaram o comentário da presidente como um sinal verde para criticarem abusos em outros locais. Contudo, apenas alguns dias depois, o ministro das Relações Exteriores foi duramente advertido pelo assessor especial de Dilma Rousseff, Marco Aurélio Garcia, para que não mencionasse problemas de violações de direitos humanos em Cuba e Venezuela sem a autorização da presidente.

Se algum país na região poderia ter sido mais efetivo ao lidar com a crise democrática na Venezuela, esse país seria o Brasil. Brasília, entretanto, deu ao presidente Nicolás Maduro um cheque em branco para perseguir seus opositores políticos e controlar a mídia e o Judiciário, sem temer a censura internacional.

Dilma Rousseff após a 21º Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP21), em Paris. Foto: Rafael Carlota/PR

Dilma Rousseff após a 21º Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP21), em Paris. Foto: Rafael Carlota/PR

4. Recuperar a voz perdida do Brasil em frente a desafios globais

Quando se trata de temas dominantes das relações internacionais nos últimos doze meses, como a ascensão do Estado Islâmico, a crise mundial de refugiados ou a guerra civil na Ucrânia, o Brasil raramente ultrapassou o papel de espectador, cedendo espaço para potências tradicionais.

Brasília poderia, no entanto, ser muito mais proativa na discussão global sobre como enfrentar de modo eficaz os desafios listados acima e influenciar positivamente dinâmicas – como fez, no nos últimos anos, em relação a intervenções humanitárias, governança na internetmissões de pazresolução de conflitos e defesa da democracia.

Isso requer, primeiramente, estar presente quando esses temas são discutidos – como na anual Conferência de Segurança de Munique, da qual o Brasil tem notadamente se ausentado nos últimos anos. Nosso debate internacional está desequilibrado, e não podemos mais resolver desafios globais simplesmente confiando no bom senso de alguns países.

O dramático fracasso ao enfrentar assuntos chave durante as últimas décadas é um sinal claro de que novos atores devem contribuir para que soluções relevantes sejam encontradas.

5. Buscar mais acordos de livre comércio

Na última década e meia, centenas de acordos comerciais foram registrados na Organização Mundial do Comércio (OMC). O Mercosul, por sua vez, assinou apenas alguns, com mercados de importância limitada.

As negociações comerciais entre o Mercosul e a União Europeia (UE) são extremamente difíceis e já começaram há 15 anos. Elas estagnaram devido a problemas similares aos que tornaram as negociações da OMC tão complexas: a falta de disposição, por parte da Europa, para expor seus fazendeiros protegidos à competição e o desejo sul-americano de  proteger suas indústrias em relação a importações de alta qualidade.

No Brasil, apesar disso, um número crescente de empresários apoia acordos de livre comércio não apenas com a UE, mas também com os EUA. Eles argumentam que a indústria brasileira poderia competir em igualdade de condições se o governo reduzisse o persistente “custo Brasil”, ao facilitar a cobrança de impostos e melhorar a infraestrutura.

Texto originalmente publicado no blog Post-Western World. Leia aqui.

8 Responses to Parte I: Os dez principais desafios da política externa brasileira em 2016

  1. zesergio disse:

    Talvez a maior derrapada do governo Dilma foi jogar no ostracismo, os anos gloriosos da diplomacia do governo Lula. Estávamos consolidando nossa posição na América Latina. e África. Tornando-nos parceiros de potências mundiais com Índia. Russia e China. Deixamos tudo isto de lado. Desperdiçamos a possibilidade da transformação social e econômica através da diplomacia por uma política principiante de assistencialismo, sem nenhuma outra opção. E nossas opções futuras também não representam mais que uma visão de política periférica e subserviente, que já tivemos em governos anteriores a estre período. O Brasil continua muito primário. Infelizmente.

  2. Que naba, ta parecendo cartilha fascista isso. Por que não criticar os EUA por tantas invasões em países que estavam bem, e os negros nos EUA que são massacrados pela polícia. E o financiamento dos EUA ao grupo mais terrorista que se tem notícias hoje, ISIS. Será que para o Brasil assumir a liderança tem que meter o pau só nos pobres, enquanto sabemos que os países desenvolvidos como EUA e Europa criam, financiam e apoiam terroristas por todo o mundo…..Que artigo hipócrita.

  3. Vagner disse:

    Vamos reduzir o “custo Brasil” recriando a CPMF ? Aumentando os gastos do governo com uma arrecadação menor que os custos ? Com CIDE e outros penduricalhos ? Fazer acordos regionais com quem ? Toda a costa do Pacífico está de costas para o Mercosul com acordos muito mais vantajosos com os EUA e Austrália enquanto continuamos apoiar Maduro e Morales.

  4. FERNANDO disse:

    De acordo com o que o Ciro diz, na minha concepção, se dimuir a taxa de juros aumenta o crédito para o mercado interno e por conseguinte o fortalecimento da economia interna (indústria). Então a saída é um juros quase zero. Haverá assim aumento dos pedidos de empréstimo para a economia interna e o fomento da industria interna e a consequente diminuição do dólar e aumento do real. Ou seja, se o país é voltado somente para exportação de commodities é aconselhável juros altos para que o dólar seja alto e o real baixo; pois assim aumenta-se a exportação das commodities privilegiando meia dúzia de empresários e sucateando a indústria. E se o país é voltado para o mercado interno, ou seja, para a população inteira; diminui-se o juros para que se aumente os pedidos de empréstimo interno e consequente aumente a industria. Como o país quem manda são os meios de comunicação e os exportadores de commodities; fazem de tudo para manter o dólar alto afim de que consigam ganhar dinheiro com as exportações com o real baixo, sacrficando todo o país e sua industria. Ouseja, o país está refém de uns gatos pingados que vendem milho, ferro, alumínio e café para outros países. Então, a única saída para o desenvolvimento do país é a diminuição da taxa de juros e o consequente aumento das industrias e o mercado interno mesmo que isso tenha por consequência a diminuição do valor do dólar frente ao real e prejudique a exportação de commodities de meia dúzia; pois não podemos depender de commodities o resto da vida e vivermos todos reféns de fazendeiros donos de televisão com uma indústria sucateada e um mercado interno quase nulo para agradá-los e destruirmo-nos. Facilitando a entrada das multinacionais no país e a total destruição da indústria interna por já nascer comprometida por uma concorrência desleal.

    • zesergio disse:

      Perfeito o seu comentário. Precisamos é mudar esta realidade e começarmos, como país, a transformar esta estrutura que mantem este atraso em praticamente toda história do país.

      • FERNANDO disse:

        Olha que interessante; o BC aumenta a taxa de juros para empréstimos, o país não pega empréstimos e quando pega, paga uma taxa altíssima para os bancos estrangeiros e nacionais. Nos EUA a taxa é quase zero, por isso tem-se muito crédito na praça e o dinheiro flui para todo mercado interno; alimentando o país como um rio que corre pelas matas. A solução que encontraram no BRasil é aumentar a taxa de juros no alto, para que nimguém pegue empréstimos e o dinheiro não flua pela economia como um rio flui pela natureza. O dinheiro fica estagnado com os bancos que lucram exorbitadamente. Qual o benefício de tudo isso? Ter a maior taxa de juros do mundo? Ter os bancos mais ricos do mundo e o mercado interno mais seco do mundo como o rio mais seco que estivermos a ter na natureza? Quem ganha com tudo isso? Os economistas pagos pelos bancos para que aumentemos a taxa de juros e beneficiá-los loucamente estagnando o país? Ou o país que está cada vez mais seco e morto como o Rio Doce que a samarco matou? Manter a taxa de juros alta, diminui o fluxo de dinheiro no mercado interno, aumenta o valor do dólar pois o real não flui e portanto perde valor; destroi a industria interna, aumenta-se a inflação ou o preço do pão, pois com a alta do dólar o preço do trigo fica maior entre outros produtos. Ou seja, destroi a economia brasileira, destroi o real e aumenta-se o lucro de bancos e das multinacionais estrangeiras que entram no brasil sem concorrência e tomam conta de tudo. Vejo no futuro um país desértico sem rio na natureza ou rios de dinheiro, aumentando o valor do dólar, o lucro dos bancos estrangeiros e a dominância das multinancionais nos escravizando salariamente. Porque sera que os bancos nacionais está na mira dos bancos estrangeiros? Um país ignorante quanto ao seu Banco Central corrupto que está destruindo sua economia interna para pagar juros exobirtantes para bancos nacionais e estrangeiros é um grande lucro para qualquer capitalista ganancioso.

    • Daniela disse:

      Ótimo texto Fernando. Muito esclarecedor.

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