Direitos Humanos O que acontece na Coreia do Norte?

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O que acontece na Coreia do Norte?

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Livro conta a história do país mais fechado do mundo pela óptica dos próprios norte-coreanos

A Coreia do Norte é um dos países mais fechados do mundo. Ao final da Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos (EUA) e União Soviética (URSS) alimentaram tensões internas entre o Norte e o Sul da então unificada Coreia, levando à eclosão da Guerra da Coreia em 1950. Após três anos de conflito – no qual estiveram envolvidos EUA, pelo lado sul-coreano, e URSS e China, pela Coreia do Norte -, foi acordado um armistício que resultou na divisão do país em duas partes. Mais de um milhão de mortos foram registrados em ambos os países, bem como a enorme destruição da infraestrutura da Coreia do Norte.

Apesar das perdas durante a Guerra, com a ajuda da URSS e da China, a Coreia do Norte se reergueu e durante alguns anos chegou a registrar crescimento econômico superior à de sua vizinha ao sul. Na década de 1970, em especial após a morte de Mao Tse Tung e a reaproximação da China com os EUA, a economia norte coreana começou a sofrer forte estagnação, afetando setores como produção industrial e de alimentos. Na década de 1990, após o colapso da URSS, a morte do ditador Kim Il-Sun (avô do atual líder supremo do país, Kim Jong-un) e a imposição de sanções norte-americanas, o país se fechou completamente para o mundo.

O completo isolamento da Coreia do Norte gera uma ausência de dados confiáveis sobre a história recente do país. Esse “mistério” levou a jornalista Barbara Demick a escrever o livro “Nada a Invejar – Vidas Comuns na Coreia do Norte”, no qual pela primeira vez em décadas, a história da Coreia do Norte é contada sem censura pelos próprios norte-coreanos. A obra, traduzida recentemente para o português, foi eleita pela rede de televisão britânica BBC como o melhor livro de 2010. O livro foi escrito com base em relatos de norte-coreanos exilados na Coréia do Sul.

Em meados da década de 1990, já sob o comando de Kim Jong-Il, a Coreia do Norte sofreu uma das maiores crises alimentares da história. A produção de alimentos do país, que já vinha sofrendo desde o colapso da URSS, foi agravada após sérias enchentes em 1994.  O resultado foram mais de um milhão mortes entre 1994 e 1998. Muitos questionam como o regime ditatorial norte-coreano resistiu a décadas de crises.

Em 2001, Demick foi a Seul como correspondente do jornal Los Angeles Times e iniciou uma série de entrevistas com dezenas de exilados para entender como o regime funcionava e qual era a realidade do país. Das entrevistas, surgiu a ideia de escrever um livro que pudesse contar em detalhes a história norte-coreana.

O livro relata em ordem cronológica o que se passou antes e após Kim Jong-Il assumir o poder, como foi a crise alimentar da década de 1990 e como, de fato, vive a população no país. A autora focou em exilados vindos majoritariamente da cidade de Chongjin (no norte), com objetivo de entender uma das regiões mais isoladas do país – visitas à capital Pyongyang ainda são permitidas, ainda que apenas na presença de oficiais do governo. Ademais, a decisão de focar em uma cidade se deu para facilitar a checagem da autencidade dos fatos relatados, uma vez que Demick nunca visitou Chongjin.

O livro busca relatar como era a vida antes da morte de Kim Il-Sun, sendo o luto da população pela morte do ditador um dos momentos mais marcantes do texto. Por meio do relato de Mi-ran (nome fictício de uma das entrevistadas), o leitor consegue entender um pouco da mistura entre medo e fascinação da população pelo ex-líder.

Parte dessa fascinação é relacionada à propaganda comunista iniciada pelo ex-ditador. Segundo Mi-ran, o slogan da proganda era “Vida Longa à Kim Il-Sun, o sol do Século XXI, vamos viver à nossa maneira, faremos apenas o que o Partido mandar, não temos nada a invejar do mundo”. O slogan, que virou inspiração para o título do livro de Demick, possuía forte influência na população. Segundo Mi-ran, como o governo baniu filmes ou programas produzidos no exterior, não havia razões para acreditar que existiam lugares no mundo melhores que a Coreia do Norte. Ainda que sua família vivesse na pobreza, a situação era igual para quase todos os outros.

A época da crise alimentar é retratada em depoimentos marcantes. Professores contam como viam seus alunos dormirem nas salas de aula por falta de comida e como a frequência diminuía a cada dia porque as crianças simplesmente não tinham forças para caminhar até a escola. Uma médica que lidou com os resultados da crise oferece um relato emocionante. Segundo a Dr. Kim, os pacientes não morriam propriamente de fome, mas a falta de comida e a subnutrição afetavam seus sistemas imunológicos levando-os à morte por doenças facilmente curáveis. Epidemias também se espalhavam mais rápido, como a de febre tifóide que arrasou Chongjin entre 1993 e 1994.

Os capítulos finais do livro abordam a trajetória dos exilados entrevistados até Seul. Além das dificuldades estruturais sofrida por cada um (alguns tiveram que atravessar a fronteira mais de uma vez até sairem em definitivo da Coreia do Norte), Demick foca no debate interno dos personagens entre deixar o país ou permanecer. Para muitos, a decisão de desertar foi tomada apenas como último recurso. É nítido o quanto cada um dos exilados amava o país e o quão difícil foi tomar a decisão de ir partir, o que muitas vezes implicava em abandar parentes próximos para sempre.

“Nada a Invejar” é um trabalho historicamente bem apurado e humano. Por meio dos relatos de norte-coreanos, a obra consegue capturar o estilo de vida de um cidadão no país, ajudando o leitor a entender as razões pelas quais a ditadura se mantém no poder apesar dos sentimentos (muitas vezes confusos) dos cidadãos em relação ao regime.

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