Política O ataque ao Charlie Hebdo: uma guerra de propaganda
Exposição com obras do cartunista Wolinski na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro (Tânia Rêgo/Agência Brasil_

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O ataque ao Charlie Hebdo: uma guerra de propaganda

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Desde a Antiguidade, o terrorismo é usado como arma de comunicação

No último dia 7 de janeiro, o mundo amanheceu consternado quando dois homens armados entraram na redação do jornal satírico francês Charlie Hebdo, em Paris, e mataram doze pessoas, incluindo cartunistas e dois policiais. Outros onze ficaram feridos.

Os dois atiradores – Said Kouachi e Chérif Kouachi – foram posteriormente identificados como muçulmanos radicais de origem franco-argelina e, segundo testemunhas, ao entrarem na redação do jornal, gritaram que estariam vingando o profeta Maomé dos cartuns satíricos que há alguns anos vinham sendo veiculados pelo Charlie Hebdo.

Embora o teor dos cartuns muitas vezes beirasse a ofensa contra as sensibilidades islâmicas e de membros de outras religiões – o que de nenhuma forma pode justificar qualquer tipo de violência -, encarar o ataque como um simples ato de vingança também é um tanto simplista.

Mais do que se vingar das ofensas ao profeta ou atingir supostos valores ocidentais, os terroristas que atacaram o Charlie Hebdo – conscientemente ou não – tentaram utilizar o ataque como arma em uma guerra de propaganda, tentando instilar medo entre aqueles que viam como inimigos e, ao mesmo tempo, buscando energizar outros radicais que partilham ideias semelhantes em outras partes do mundo.

Terrorismo e comunicação

O terrorismo é, antes de mais nada, um ato de comunicação, por mais bárbaro que possa ser. Vejamos: ao atacarem um jornal que deliberadamente vinha publicando charges que atingiam valores de alguns muçulmanos e localizado no centro de Paris, os extremistas podiam vislumbrar com clareza o impacto midiático que seu ato teria.

É como se eles entendessem de modo bastante refinado a lógica da mídia ocidental e tivessem planejado um ataque que, mais que produzir um grande número de vítimas, pudesse reverberar com força não só no mundo muçulmano, mas também nos jornais, TVs e na web de outros países.

Para demonstrar este ponto, basta lembrar as discussões sobre o peso dado à cobertura dos atentados ao Charlie e aquele dado à série de atentados cometidos no mesmo período pelo Boko Haram em Baga, na Nigéria, que deixaram centenas de mortos.

Neste sentido, o ato contra o jornal francês segue a mesma lógica dos ataques contra o World Trade Center em setembro de 2001 e os posteriores ataques contra Madri e Londres, em 2004 e 2005, respectivamente. Embora infelizmente tenham produzido um grande número de vítimas, estes atentados ficaram na história por seu valor simbólico, como golpes no coração de grandes cidades ocidentais. Era justamente este tipo de impacto que buscavam os irmãos Kouachi.

História

Embora o impacto de atos do tipo seja ainda maior em uma época em que celulares, internet e a mídia em geral são onipresentes, o uso do terror como uma arma de propaganda está distante de ser algo novo. O historiador judeu Flavio Josefo, por exemplo, conta como na Terceira Guerra Judaico- Romana, por volta de 132 d.C. , o líder Simão Bar Kockba estimulava o assassinato em público de autoridades e outras pessoas que se submetiam a Roma, criando um clima de terror em toda população.

A estratégia foi utilizada ao longo da História por pessoas dos mais diversos credos, ideologias e origens. Mas foram os anarquistas que levaram o uso da violência como arma de propaganda ao seu ápice. Pouca gente se lembra, mas entre o final do século 19 e o início do século 20, o mundo viveu uma onda de ataques empreendida por anarquistas, que assassinaram um presidente americano (William McKinley, em Setembro de 1901), um czar russo (Alexander II, em 1881), além de terem lançado uma campanha de atentados a bomba em vários países da Europa e nas Américas.

A ideia dos anarquistas ao empreender esses ataques era, nas palavras de um de seus ideólogos, Pyotr Kropotkin (citado neste texto sensacional de Jensen), a de “chamar a atenção…para que a ideia (da revolução) entre nas mentes das pessoas e ganhe novos adeptos.”

O ideólogo anarquista russo Pyotr Alexeyevich Kropotkin (Foto: Wikimedia Commons)

O ideólogo anarquista russo Pyotr Alexeyevich Kropotkin (Foto: Wikimedia Commons)

A técnica de usar a violência como arma de propaganda ficou conhecida como “Propaganda pelo Ato”(ou Propaganda of the Deed, em inglês), conceito que continua sendo usado para analisar o terrorismo contemporâneo, incluindo os atos praticados pela rede Al-Qaeda, cujo braço iemenita assumiu a responsabilidade pelos ataques ao Charlie Hebdo.

Segundo o acadêmico britânico Neville Bolt, em um livro fundamental para entender o assunto e que traz a base de alguns argumentos aqui discutidos, o objetivo daqueles que usam a Propaganda pelo Ato é, além de criar medo e buscar novos adeptos, o de “levar os Estados a reagir de modo desproporcional, com força excessiva”. Incentivando o uso desproporcional da força por parte do Estado, os terroristas, em último caso, buscam fazer com que os governos percam a legitimidade perante a população, para que assim possam atingir seu objetivos políticos.

É aí que podemos voltar ao ataque ao Charlie Hebdo. Eles acontecem em um momento em que há um crescente clima contra muçulmanos na Europa, em um cenário de crescimento de partidos de extrema-direita em vários países, inclusive na França, onde a Frente Nacional de Marie Le Pen chegou a liderar pesquisas no ano passado.

Aí que está o grande desafio a ser enfrentado pelos governos ocidentais nos próximos meses. É preciso sim tomar medidas contra os extremistas. Mas, ao mesmo tempo, é fundamental combater o clima de islamofobia e lançar medidas para integrar as comunidades muçulmanas.

Se, pelo contrário, os ataques levarem a mais preconceito contra muçulmanos e à ascensão de governos de extrema-direita que baseiam boa parte de suas plataformas em argumentos racistas, os terroristas terão vencido.

2 Responses to O ataque ao Charlie Hebdo: uma guerra de propaganda

  1. […] Leia também: O ataque ao Charlie Hebdo: uma guerra de propaganda […]

  2. leo disse:

    Caio Quero, esse discurso é o que realmente chamamos de auto censura da liberdade de expressão; Senso comum; Mídia comprada pela opinião da maioria. Como vc prova que foram Said Kouachi e Chérif Kouachi q fizeram aqueles atentados… Os 2 já viam sendo perseguidos pelo anti-islã francês…

    “TEM MUITO + ÓLEO NESSA FAROFA DO VC IMAGINA…”

    Vc mesmo disse: “Eles acontecem em um momento em que há um crescente clima contra muçulmanos na Europa,…”

    Tem gente 999/1000 da população, q ainda acredita q o ataque ao WTC foi planejado por Bin Laden.
    vide: https://www.youtube.com/watch?v=Za4r70kP1BA

    Vai ficar esperando uns 15 anos pra acordar, ou essa auto censura provém do medo da verdade… Mídia comprada!

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