Direitos Humanos Como os mortos em Paris ofuscaram as vítimas do Boko Haram
A painting symbolising Boko Haram’s destruction of Nigeria. Photo: Debora Bogaerts / Creative Commons / Flickr

Como os mortos em Paris ofuscaram as vítimas do Boko Haram

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on TumblrShare on Google+Share on LinkedInEmail this to someonePrint this page

Ataque ao Charlie Hedbo gerou mais comoção do que duas mil execuções na Nigéria. Quanto vale a vida de um ser humano?

As primeiras semanas de 2015 testemunharam dois trágicos eventos: o ataque à revista francesa Charlie Hebdo e a série de atentados terroristas promovidos pelo grupo Boko Haram, na Nigéria. Em Paris 17 pessoas morreram, causando grande comoção pelo mundo. Na Nigéria, mais de 2 mil indivíduos perderam suas vidas, mas ao contrário do que houve na França, a mobilização internacional foi consideravelmente tímida. A cobertura e a reação das pessoas ao redor do mundo aos dois atentados, demonstra como a vida de um ser humano tem valor diferente de acordo com sua nacionalidade.

Como analisado por Caio Quero na segunda-feira, os irmãos Kouachi , responsáveis pelo ataque a Charlie Hebdo, compreenderam como funciona a mídia ocidental. Cherif e Said Kouachi sabiam que não era necessário um ataque de grandes proporções para chamar atenção da mídia, bastando atingir uma renomada revista no coração de uma das maiores cidades da Europa. O Boko Haram também compreendeu bem seu público: o grupo sabia que seria necessário grande número de vítimas para que as notícias do ataque chegassem às manchetes internacionais. Apesar do assustador número de mortos na Nigéria, em meio ao caos na Europa causado pelo ocorrido na redação do Charlie Hebdo, poucos focaram no que se passava no país africano.

Alguns sugeriram que os atentados em Paris foram mais comoventes, pois era mais fácil colocar-se no lugar das vítimas e, com isso, se sensibilizar mais. Apesar da maior identificação com as vítimas francesas ter valor significativo ao analisar reações sobre os dois atentados, a questão vai muito além deste argumento. Não houve grande comoção com o ocorrido na Nigéria devido ao pensamento de que guerras e violência são comuns, ou até mesmo naturais, em países do Oriente Médio, África, Ásia e América do Sul.

A mídia não deve ser culpada por tudo, uma vez que é apenas reflexo do modo de pensar das pessoas. Tal forma de pensar se assemelha a algo como: “as mortes na Nigéria não são tão trágicas quanto as na França, pois lá essas coisas acontecem o tempo todo. Portanto, é de se imaginar que os nigerianos estejam acostumados com isso”. Contudo, por mais recorrente que seja a violência, os nigerianos jamais se acostumarão em perder amigos e familiares em atentados do Boko Haram; da mesma forma que os franceses jamais se conformarão com ataques terroristas como o de Charlie Hebdo.

Boko Haram attack in Jos. Photo: Carmen McCain / Creative Commons / Flickr

Boko Haram attack in Jos. Photo: Carmen McCain / Creative Commons / Flickr

Há muitas semelhanças entre os atentados de França e Nigéria. No entanto, enquanto o futuro do país europeu é exaustivamente debatido, os problemas na Nigéria continuam às margens da agenda internacional de segurança. Na França, minorias enfrentam preconceitos e são marginalizadas da sociedade, contribuindo para surgimento de grupos extremistas e violentos. Na Nigéria, o Boko Haram surgiu com muçulmanos do Norte do país que viviam na pobreza e eram excluídos social e politicamente. Ademais, assim como na França, a maioria dos muçulmanos não apoia o grupo terrorista nem suas ideias de instaurar a Lei Sharia no país.

Deve-se destacara ainda, que as respostas de ambos os governos para conter atos terroristas não parecem estar funcionando.

Na França, os primeiros dias após o atentado presenciaram onda sem precedentes de agressões a muçulmanos e judeus. Há grande probabilidade de que nos próximos meses sejam impostas ainda mais restrições em leis migratórias e que haja aumento na popularidade de partidos conservadores de direita, como a Frente Nacional de Marine Le Pen. Na França e em outros países europeus, segregação é a palavra chave para explicar extremismo. Ao invés de tornar a sociedade mais harmoniosa e pacífica, políticas restritivas possivelmente aumentarão exclusão social e intolerância às minorias, em especial aos muçulmanos. Por outro lado, políticas inclusivas podem levar a um ambiente menos hostil e e mais pacífico.

Na Nigéria, nos dias que seguiram o massacre na cidade de Baga, o Boko Haram intensificou seus ataques, tendo inclusive utilizado crianças amarradas em bombas para explodir um mercado. Preocupados com influxo de refugiados, países vizinhos como Chade, Camarões e Níger exigiram medidas severas do governo nigeriano no combate ao grupo terrorista e mobilizaram-se para proteger suas cidades fronteiriças. O governo enfrenta sérios problemas financeiros que o impossibilitam de treinar policiais, comprar armamentos e desenvolver um plano de ação efetivo, de fato necessitando de ajuda externa. As tentativas fracassadas do governo em acabar com o Boko Haram estão apenas criando mais oportunidades para que o grupo realize novos atentados.

Boko Haram’s attack in Nigeria. Photo: Diario Critico de Venezuela

Boko Haram’s attack in Nigeria. Photo: Diario Critico de Venezuela

Apesar das semelhanças entre os atentados nos dois países, a França continua recebendo muito mais atenção, tanto da mídia quanto do grande público. Assim como em outros países do continente, o terrorismo na Nigéria é visto apenas como “mais um conflito africano” e as vidas de milhares inocentes não recebem o valor que deveriam.

Alguns argumentam ser importante ajudar o governo nigeriano dado que a explosão de um conflito de maiores proporções poderia levar ao aumento do número de refugiados em direção à Europa e outros países desenvolvidos. Tal argumento, bastante utilizado, perpetua a lógica de que as vidas nigerianas possuem menos importância do que as francesas. É necessário fornecer ajuda à Nigéria, não pelo possível aumento do número de refugiados, mas porque milhares de inocentes, em sua maioria mulheres e crianças, estão sendo brutalmente assassinados. Pessoas não apenas estão morrendo, como mulheres estão sendo violentadas, crianças estão sendo sequestradas e usadas como explosivos humanos, além de outras atrocidades que violam os direitos humanos.

 

Com intuito de desenvolver análise mais profunda e crítica sobre o tema, o Politike publicará série de três artigos sobre o Boko Haram. Examinaremos o assunto, discutindo a história da Nigéria, seu contexto político e social, e possíveis cenários futuros para a crise. Fiquem ligados em nossos próximos textos!

12 Responses to Como os mortos em Paris ofuscaram as vítimas do Boko Haram

  1. […] Como os mortos em Paris ofuscaram as vítimas do Boko Haram […]

  2. VALDIR NEVES disse:

    O texto coloca um inicio de discussão de uma questão complexa. Não se trata de estabelecer uma escala de valor para a vida humana. É preciso entender que no caso Charlie Hebdo, assim como na Nigéria, as vidas acabaram sendo ceifadas por atitudes de fundo político e de demonstração de poder. Não podemos ignorar que embora os cartunistas franceses são figuras conhecidas no universo da mídia, toda a movimentação foi feita com respeito ao esmagamento do direito de se expressar, um valor importante para a civilização moderna, o que não foi o caso da Nigéria, uma luta fratricida pelo poder regional, onde os atores são outros, assim como o envolvimento e omissão de governos locais há muito atolados em corrupção e lutas bárbaras.

  3. ALESSANDRO JARDIM disse:

    Excelente texto é o que todos temos a dizer… essa é a mais pura verdade.
    Não vi nehuma marcha com lideres mundiais e religiosos contra a violência na Africa, isto por que a politica e o lado financeiro são mais fortes que o sofrimento do próximo.

  4. […] também é difícil encontrar uma solução quando não se sabe o problema. Dando continuidade ao texto que comparou a atenção dada aos atentados em Paris e Baga, voltaremos no tempo, olhando […]

  5. José Alexandre Vieira disse:

    Excelente texto. Bem fundamentado e com profunda e perfeita visão dos envolvimentos geopolíticos e sociais do mundo atual.
    Parabéns!

  6. VALDIR NEVES disse:

    Sem comentário quanto a importancia da vida humana. Agora, Nigéria é pais com muito petróleo e excessiva corrupção, se o próprio governo Nigeriano não valoriza a vida, como podemos ajudá-los ?
    Fundamentalismo religioso e práticas de poder associados (principalmente com um establishment do século X) nada tem a ver com segregação das pessoas. Brasil é campeão na matéria: vide negros, nordestinos no sul/sudeste e pobres em geral (rolezinhos) e nem por isso aqui saem os revoltosos metralhando à revelia.

  7. FELLIPE KNOPP disse:

    Efetivamente parte significativa da importância deferida pelos outros procede da forma como os indicadores da nossa percepção sobre nós mesmos implicam-se em nossas condutas como em nossa organização social a que se presume testemunhar sobre o valor que reconhecemos à existência. Mas a discriminação tem sutilezas sub-reptícias muito mais engabeladoras e complexas, por vezes narcisicamente absurdas, do que pode entender nossa esforçada filosofia. Não apenas o valor existencial da vida humana está representado em sua desproporção exorbitante como também o significado de um modo de vida distintamente celebrado como um modelo imponente, de que redunda na superioridade de seus professores, ofendido pelo atentado contra um símbolo institucional que representa a materialização da liberdade de expressão não apenas da França como um fundamento ético da própria democracia republicana ocidental cuja hegemonia ideológica inspira o assentimento hegemônico à identificação disparatada a aspiração de pertencimento dos sujeitados à margem de seu beneplácito ratificando o status quo da linha evolutiva do desenvolvimento histórica: não sendo como os milhares de macacos que em seu habita selvagem são exterminados todos os dias por predadores seguindo o ciclo natural da vida.

  8. Douglas Rocha disse:

    Sem falar no atentado ocorrido pouco antes do ataque ao Charlei Hebdo em que 111 crinças paquistanesas foram vítimas de um grande atentado promovido pelo Taleban e que pouca repercussão teve na imprensa ocidental. Dois pesos, duas medidas.

  9. Carlos disse:

    Sensacional! Análise clara, direta e didática. Sem aquelas “idas e vindas” que lemos, quase que cotidianamente, nos textos menos “direitistas” ou “esquerdistas”. Sim, um texto mais Humanista!

  10. José Oliveira disse:

    Texto incrível! De uma forma serena e realista você conseguiu deixar a sua mensagem para todos. A vida é algo tão preciosa pra precisar ser comparada, é preciso uma atenção mundial para essas situações e assim resolve-la. Está longe? Está. Mas é preciso a militância de jornalistas como você para isso.

  11. Giacco disse:

    Gostaria de dizer que fiquei muito contente em ler esse texto e aguardarei os artigos futuros, a visibilidade é realmente mínima. Acompanho a situação da Nigéria pelos Médecins sans Frontières, é muito bom perceber que há grupos dentro da mídia que, de fato, tenham interesse em dar voz aos quem não têm.

  12. Marcelo Ferreira disse:

    Excelentes artigos Vivian… Parabéns! O humanidade precisa de você, continue fazendo a diferença!! Deus te abençoe e te guarde!!!

Deixe um comentário