Política Mulheres na guerra: ainda reina o estereótipo da vulnerabilidade 

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Mulheres na guerra: ainda reina o estereótipo da vulnerabilidade 

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As mulheres têm sido aceitas nas forças armadas, mas não totalmente encaradas como agentes de violência 

Nas últimas décadas, as mulheres ganharam mais espaço nos exércitos de vários países, atingindo posições que antes lhes eram restritas, assim como têm sido destacadas para zonas de conflito com maior frequência. Nos Estados Unidos, por exemplo, as oficiais do sexo feminino compõem atualmente cerca de 16,3% das tropas ativas do exército, contra 9,8% em 1980. Uma tendência de alta semelhante pode ser identificada no Reino Unido. Em 1980, 4,8% dos oficiais das Forças Regulares eram mulheres, contra 10% em 2014. As mulheres representam um grupo maior que o de oficiais de negros e grupos étnicos minoritários (7,1 %) nas tropas britânicas. Mas como as mulheres tendem a ser percebidas nas forças armadas após os anos 2000?

Desde os anos 1980, as mulheres têm desafiado o estereótipo de vítimas e indivíduos vulneráveis ​​em zonas de guerra, seja como parte de forças armadas ou como ativistas em temas relacionados à segurança. Fora do campo de batalha, organizações como a Liga Feminina Internacional pela Paz e Liberdade (WILPF, da sigla em inglês) advogam com sucesso pelos “direitos da mulher, proteção e participação feminina em situações de paz e conflito”. Nas forças armadas, entretanto, oficiais mulheres são geralmente excluídas de posições relevantes, como postos em unidades de combate.

Mesmo em Israel, onde o serviço militar é obrigatório para homens e mulheres, oficiais do sexo femininas são vetadas em postos na linha de frente de conflitos. Embora as mulheres integrem batalhões de combate no país, elas são dispensadas de todos os serviços após se casarem ou se tornarem mães, conforme destaca Uta Klein, professora de Sociologia, Gênero e Diversidade na Universidade de Kiel (Alemanha). Neste sentido, a exclusão das israelenses das Forças Armadas está diretamente associada a questões de gênero e à imposição oficial do papel social da mulher como figura materna.

O caso israelense indica como as mulheres foram introduzidas no serviço militar, mas não totalmente aceitas como agentes de violência. O veto à participação de oficiais do sexo feminino em posições de combate, como Laura Sjoberg e Caron E. Gentry argumentam, limita a quantidade de violência que as mulheres são permitidas a exercer, em comparação com a que os homens podem aplicar, criando uma dicotomia: oficiais do sexo feminino são treinadas e dominam o uso de armas, mas não se espera que elas as utilizem. As oficiais também são altamente qualificadas, mas retratadas como incapazes de se defender.

Esses estereótipos, entre outros fatores, impedem que as mulheres compitam com homens para posições de combate que poderiam lhe garantir a qualificação necessária para atingir altas posições de comando nas forças armadas, bem como em guerras. Limitar os espaços que as mulheres podem ocupar no serviço militar afeta negativamente suas carreiras, contribuindo para a pequena proporção de mulheres no campo de batalha nas guerras ocorridas após os anos 2000. Tome como exemplo a coalizão da OTAN no Afeganistão: havia apenas cerca de 4 mil mulheres em uma tropa de 52,6 mil indivíduos. Apenas 4,7% delas tinham posições de comando.

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Mesmo nos poucos países onde as mulheres podem integrar posições na linha de frente, o número de soldados do sexo feminino em tais cargos tende a ser pequeno. Isso indica que o levantamento das proibições pode não ser o suficiente para integrar as mulheres nas forças armadas se a cultura da instituição permanecer predominantemente masculina. No Canadá, por exemplo, apenas 310 mulheres foram mobilizados para o Afeganistão em postos de combate entre 2001 e 2011, ou 8,3% dos soldados canadenses.

Apesar de alguns avanços claros na igualdade de gênero, a cultura militar contínua a ser predominantemente masculina – e isso pode ser prejudicial às mulheres. Um estudo com 450 soldados israelenses, homens e mulheres, de um batalhão de combate mostrou que as mulheres no exército experimentam rejeição, discriminação e preconceito, além de possuírem níveis mais elevados de estresse. O relatório também mencionou que na Academia Militar australiana, as mulheres não estavam sendo recebidas pelos colegas do sexo masculino em um ambiente hospitaleiro ou com tratamento igualitário. Os homens estavam, na verdade, irritados e convencidos de que sua profissão havia caído de padrão.

As mulheres são, portanto, vista como outsiders nas forças armadas e na guerra. Outro relatório, com 106 veteranas australianas de missões de paz e operações bélicas – 56 delas participaram de missões pós-Vietnã, incluindo atribuições nos anos 2000 – constatou que as mulheres enfrentaram conflitos devido a uma “carreira não convencional”. Oficiais mulheres com filhos pequenos registram níveis significativos de ansiedade no período que antecede a partida para missões. Um fator associado ao estresse para realizar os arranjos necessários para os seus filhos, parceiros e parentes antes da missão.

Além disso, em situações bélicas, oficiais do sexo feminino relataram ter que adaptar o seu comportamento para executar algumas tarefas. As mudanças incluíram vestir-se de “forma adequada” e trazer um homem para “conduzir a conversa” ao lidar com os empreiteiros fora da base militar. Também houve queixas sobre o sentimento de isolamento, pois as mulheres eram uma minoria nessas operações.

Neste sentido, os avanços conquistados por oficiais do sexo feminino ainda não resultaram em igualdade de oportunidades dentro das forças armadas da América do Norte, países da Europa ou Israel. As mulheres ainda são expostas a ambientes com discriminação de gênero em que, por exemplo, pornografia é exibida antes de missões. A progressão na carreira de muitos oficiais do sexo feminino continua a ser afetada pela proibição de atuar em posições de combate, bem como por estereótipos. Assim, o caminho para a igualdade de gênero nas forças armadas também passa pela construção de uma cultura interna mais respeitosa para as mulheres.

Este artigo é parte de uma série especial sobre gênero na guerra. O próximo artigo irá discutir as mulheres como agentes da violência em zonas de conflito.

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