Economia Modi conseguirá alterar a trajetória econômica da Índia?

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Modi conseguirá alterar a trajetória econômica da Índia?

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Com medidas liberais, o primeiro-ministro Narendra Modi pretende transformar a Índia em um país desenvolvido 

De Londres

A política econômica da Índia nas últimas décadas tem sido caracterizada por protecionismo e subsídios, o que determinou o crescimento do país com base no setor de serviços aos invés do manufatureiro. Esse cenário está prestes a mudar com as reformas econômicas pró-mercado do primeiro-ministro Narendra Modi, que visam renovar a confiança do mercado, aumentando o investimento direto estrangeiro no país. De acordo com o relatório World Economic Outlook de 2015, produzido pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), a Índia deve crescer 6,4% – uma melhora encorajadora em relação à alta de 5,6% registrada no ano anterior. Mas a abertura ao mercado vai impulsionar o desenvolvimento econômico da Índia?

Considerando os fatores macroeconômicos envolvidos na economia do país em 2015, a resposta é sim. O momento para a reforma estrutural é ideal: o crescimento do PIB está reduzindo a inflação, que o Reserve Bank of India (RBI, na sigla em inglês) – o banco central do país – estabeleceu em 6% para janeiro de 2016, com planos de manter a redução a longo prazo. Caso a inflação seja reduzida, os preços vão aumentar menos. Isso significa que o governo está “atingindo as metas orçamentárias” de reduzir os custos de vida. Para impulsionar o ritmo de crescimento, o RBI cortou a taxa de juros antes do previsto, abaixando a taxa de juros de 8 para 7,75% pela primeira vez em quase dois anos. Eu deixaria aqui igual ao valor: “taxa de juros”.

Esse movimento pode estimular empresas e empresários a aumentar os investimentos no país uma vez que eles terão caixa “extra” e poderão obter empréstimos mais baratos. No Twitter, Nirmala Sitharaman, ministra de Estado, Comércio e Indústria, defendeu que a decisão adiantada do banco central na política monetária será “altamente encorajadora para a indústria e a economia”.

A Índia também vai se beneficiar da atual queda no preço do petróleo. Analistas de mercado preveem que algumas indústrias, como automobilística, plástica e química, serão as mais beneficiadas a curto prazo. Elas impactarão diretamente as contas do país, reduzindo o débito corrente para 0,5% do PIB e, consequentemente, o déficit fiscal em cerca de 0,1%, devido a despesas menores com a importação de petróleo. Logo, a queda nos preços da commodity ajudará a Índia a aumentar suas reservas de moeda estrangeira.

A longo prazo, entretanto, o país precisa ter muito cuidado com essa tendência uma vez que se os preços continuarem a cair, a economia global provavelmente irá desacelerar e a Índia sentirá o efeito colateral com uma redução na demanda por suas exportações. Por outro lado, é possível também argumentar que o petróleo mais barato pode ter o efeito oposto nas economias altamente industrializadas, levando a menores custos de negócios, crescimento mais forte e mais investimentos nestes países, mesmo que a queda nos preços do petróleo indique uma desaceleração nas economias de China e Japão, por exemplo.

O cenário macroeconômico, de fato, dá confiança para a Índia seguir em frente em suas reformas estruturais. As intenções de Modi são claras: ele acredita ser o momento de tirar centenas de milhares de indianos da pobreza promovendo o setor manufatureiro e atraindo investimento estrangeiro para expandir a infraestrutra do país. Para fornecer um exemplo das mudanças pretendidas, a Índia permite atualmente que companhias de seguro tenham investidores estrangeiros com participação máxima de 26% no capital total. Caso as reformas sejam aprovadas pelo Congresso, a participação estrangeira permitida no setor subirá para 49%. Essa entrada de capital no país vai aumentar a capacidade fiscal do Estado, que será reinvestida na expansão de ferrovias, estradas, sistema de energia e redes digitais.

Além do aumento do investimento direto estrangeiro, os planos de Modi também incluem mais independência às instituições financeiras indianas, que, de acordo com o jornal inglês Financial Times, têm uma “herança de preguiça bancária”, agindo como financiadores adversos a riscos. Isso significa que Nova Deli está melhorando seus padrões de governança ao não ter mais uma política intervencionista, estimulando uma maior competição no sistema financeiro sem corrupção e favoritismo político.

Apesar das mudanças estruturais propostas para liberalizar a economia e colocar a Índia no caminho para se tornar uma nação desenvolvida, o crescimento do PIB indiano ainda é muito dependente do setor de serviços, que representou 57% da economia do país em 2013, de acordo com o Banco Mundial. O setor de manufaturas responde por apenas 15% da economia e, segundo Jayant Sinha, ministro das Finanças, para uma economia balanceada, o setor precisa representar até 30% do PIB. Para atingir crescimento industrial, ele acrescenta que a Índia deve aumentar a demanda doméstica se especializando em segmentos nos quais possui vantagem competitiva, como painéis solares, sistemas domésticos e produção de pequenos carros. A Índia deve, portanto, garantir uma transição setorial de serviços para manufaturados a fim de manter integralmente as mudanças estruturais propostas por Modi e se tornar uma nação desenvolvida.

O crescimento da manufatura também aumenta a competitividade, gerando mais empregos e oportunidades para a crescente população do país. Esses lucros precisam ser reinvestidos na economia e a tecnologia deve ser constantemente renovada para que a Índia possa ser competitiva em relação às nações desenvolvidas e, logo, aumentar não apenas o seu PIB, mas melhorar a qualidade de vida da população assim como Modi pretende. As reformas do premier vão, de fato, gerar crescimento econômico. Mas este é apenas o primeiro passo do caminho para transformar a Índia em um país desenvolvido. As medidas anunciadas vão aumentar a capacidade do Estado, mas o investimento público deve diminuir e governo precisa manter uma política monetária concisa e previsível que trará segurança e confiança para os investidores estrangeiros a longo prazo.

5 Responses to Modi conseguirá alterar a trajetória econômica da Índia?

  1. Andre Costa disse:

    Bom, corrigiria “centenas de milhares” para ‘centenas de milhões”. A Índia tem feito dever de casa até aqui. Se China se tornou o chão de fábrica do mundo, priorizando o setor de manufatura, Índia dominou o setor de serviços, especialmente nas áreas de tecnologia e call centers. A grande força da Índia talvez seja o seu calcanhar de aquiles, a sua diversidade étnico-linguística e a democracia.
    P.S. Bangaluru é a quarta maior cidade do país e capital do setor de T.I. Muito mais rica, limpa e organizada que a média. E oaeroporto de Delhi inaugurou em 2009 e nada tem a ver com Modi.

  2. Alexsandro Vieira disse:

    Estive lá no ano passado, e já há sensiveis melhoras, e acho que este ano ultrapassa o Brasil e entra para a sétima economia. Há muito espaço para crescer e melhorar o país.
    lembrando que, com mais de 1 bilhão de habitantes, tem 1 Brasil (200 milhões de habitantes abaixo da linha da pobreza) .Principalmente nas cidades menores, de Agra, Jaipur, Udaipur, bangalore, etc. você ve o tempo todo.
    Porem ja percebe-se grandes obras de infra estrutura, como novas estradas, e o novo aeroporto de Delhi, que é muito bom.
    Vamos ver, vamos ver.

  3. Rafael UFRGS disse:

    Muito bom, Priscila! Parabéns à você e aos demais colunistas do blog! Aproveito para sugerir uma pauta: assim como essa análise foi feita da Índia, fazê-la dos outros BRICS e das relações entre eles.

  4. Tamosai disse:

    Tuodo vai depender da definição que se dê ao termo país desenvolvido. O PIB e os indices de crescimento econômico estão longe de indicar o desenvolvimento de um país. Especialmente com a injustiça social que existe na Índia. 5

  5. Tamosai disse:

    Tuodo vai depender da definição que se dê ao termo país desenvolvido. O PIB e os indices de crescimento econômico estão longe de indicar o desenvolvimento de um país. Especialmente com a injustiça social que existe na Índia.

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