Política É hora de o Brasil endurecer com Nicolás Maduro
Brasil precisa mostra à Venezuela que não aceitará retrocessos na promessa do país em aceitar observadores internacionais nas eleições de dezembro. Foto: Roberto Stuckert/ PR

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É hora de o Brasil endurecer com Nicolás Maduro

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Brasil precisa mostrar à Venezuela que não aceitará retrocessos na promessa do país em aceitar observadores internacionais nas eleições de dezembro

Enfrentando a pior crise econômica e política em mais de duas décadas (uma situação definida como uma “tempestade-mais-que-perfeita” pelo jornal Valor Econômico), a presidenta Dilma Rousseff deve se preparar para um dos desafios mais complexos de sua política externa desde que chegou ao poder. Assegurar eleições livres e justas na Venezuela no início de dezembro tornou-se o teste decisivo da capacidade do Brasil em defender a democracia e a estabilidade política em sua vizinhança. A posição do Brasil, tanto regional quanto globalmente, será em grande parte afetada por eleições bem sucedidas em quatro meses.

Após intensas negociações nos bastidores e a crescente pressão da UNASUL, bloco liderado pelo Brasil, o governo venezuelano concordou, no mês passado, em realizar eleições parlamentares em 6 de dezembro, como é exigido pela Constituição. Na época, o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, também aceitou que representantes da UNASUL fossem autorizados a observar as eleições. Isso foi visto, em geral, como uma vitória para o Brasil que, desde a última crise política que abalou Venezuela em 2002, institucionalizou suas ambições de liderança regional por meio da criação da UNASUL. O novo bloco tem substituído efetivamente a Organização dos Estados Americanos (OEA) como observador eleitoral e plataforma de mediação em momentos de crises constitucionais na América do Sul.

Abertamente contradizendo o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, Maduro anunciou na terça-feira 28 que a “Venezuela não é monitorada e não será monitorada por ninguém”. Questionado por jornalistas se a Venezuela aceitaria observadores internacionais, Maduro reiterou que “nunca aceitará ninguém”. Alguns podem argumentar que Maduro se referia a Luis Almagro, novo Secretário-Geral da OEA, que havia solicitado enviar observadores, mas o anúncio foi muito extenso para não afetar o Brasil. Mesmo que seja uma mera retórica (Maduro descreve rotineiramente até mesmo a oposição moderada como “fascistas“, chamou o primeiro-ministro da Espanha de “assassino do povo espanhol” e recentemente prometeu uma revolução caso a oposição vença em dezembro), estas alegações prejudicam diretamente o esforço do Brasil para convencer observadores internacionais e a oposição da Venezuela de que é capaz de assegurar eleições justas.

Os comentários de Maduro, portanto, demandam uma resposta pública e direta da presidenta Dilma Rousseff, pressionando Maduro a aceitar a presença de observadores independentes, escolhidos pela UNASUL sem a interferência da Venezuela. Estes observadores devem possuir perfis ideológicos diversos e serem autorizados a circular de forma independente pelo país, sem a companhia de oficiais venezuelanos, a qualquer momento entre agora e as eleições. Eles também devem ser autorizados a trazer suas próprias equipes, de preferência com experiência em monitoria de eleições. O governo brasileiro deveria deixar claro que a evidência de interferência do governo venezuelano no processo eleitoral levaria a uma resposta unificada da UNASUL e do Mercosul, possivelmente resultando na suspensão do país em ambas as organizações – como ocorreu com o Paraguai em 2012.

Alguns observadores brasileiros irão interpretar essa recomendação como apoio à oposição da Venezuela. Longe disso: a menos que o Brasil se posicione como um mediador crível e legítimo tanto para Maduro quanto para a oposição, o seu papel como defensor da estabilidade política na Venezuela será reduzido. Assim como o comentário de Maduro merece uma resposta de Dilma, o governo brasileiro deve condenar quaisquer apelos da oposição venezuelana para remover Maduro por meios que violem a Constituição.

A oposição brasileira deve, portanto, tomar cuidado para apenas se envolver com líderes políticos da oposição venezuelana que prometam terminar o governo chavista apenas por meio de eleições regulares. Nem sempre o governo venezuelano ou os diversos líderes oposicionistas jogaram de acordo com as regras, e, neste contexto, a decisão do opositor Henrique Capriles de comparar Maduro a Hitler é tão equivocada quanto a retórica exagerada do presidente.

O maior erro do Brasil seria importar a polarização da Venezuela ao discutir o assunto. Infelizmente, isso se tornou a norma e simpatizantes do PT defendem Maduro (às vezes sem saber que uma parcela crescente da esquerda na Venezuela o desaprova), enquanto os apoiadores do PSDB cegamente demonizam o presidente venezuelano. Por exemplo, chamar Maduro de “tirano”, como o senador brasileiro Aloysio Nunes fez recentemente em seu blog, é inútil e irá provocar mais polarização, não menos.

O objetivo do Brasil é proteger a democracia, não a vitória de qualquer facção em particular. Se o partido do governo vencer as eleições em dezembro, isso beneficiará imensamente Maduro, aumentando sua legitimidade.

Maduro parece indisposto a manter promessa de dar acesso a observadores internacionais durante eleição em dezembro. Foto: Marcos Oliveira/ Agência Senado

Maduro parece indisposto a manter sua promessa de dar acesso a observadores internacionais durante eleição em dezembro. Foto: Marcos Oliveira/ Agência Senado

Com índices de aprovação de Dilma historicamente baixos e rumores sobre um iminente impeachment dominando as notícias, a crise na Venezuela não poderia vir em pior momento para um país que, ao longo da última década, desempenhou um papel notável para ajudar a consolidar a democracia na região. A começar pela presidência de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), o Brasil muitas vezes se envolveu de forma assertiva em acontecimentos políticos na região, intervindo diplomaticamente quando crises políticas ameaçaram a democracia, e o ex-presidente Lula abraçou a ideia de liderança do Brasil, introduzindo o conceito de não indiferença.

No entanto, ao contrário de 2002 e 2003, quando FHC e Lula eram capazes de influenciar a dinâmica interna na Venezuela, o Brasil é hoje um mediador bem menos crível do que há uma década. Em 2003, o ex-presidente Lula insistiu em incluir os EUA e a Espanha no grupo “Amigos da Venezuela”, o que ajudou a unir o governo e a oposição. O movimento de Lula provou-se crucial, uma vez que convenceu a oposição a empenhar-se seriamente nos debates. Lula pode ter sido um presidente de esquerda, mas era visto como um mediador legítimo e relativamente imparcial pela oposição de centro-direita na Venezuela. Tanto ele quanto o Brasil perderam esse status. Após a morte de Chávez, o ex-presidente Lula (ainda um dos mais poderosos atores políticos no Brasil e altamente influente na administração atual) apoiou ativamente a campanha de Nicolás Maduro, um movimento que firmemente colocou o Brasil – aos olhos da oposição – no campo chavista.

Tanto a Venezuela quanto o Brasil têm muito a perder. A Venezuela está enfrentando uma crise econômica terrível (a CEPAL espera que a economia venezuelana se contraia 5,5% em 2015), inflação extrema, violência sem precedentes e uma crise de saúde pública de dimensões trágicas. Para o Brasil, tanto interesses econômicos quanto políticos estão em jogo. Segundo o Valor Econômico, empresas venezuelanas do setor público agora devem US$ 2,5 bilhões a empresas brasileiras. Se a tensão política e os conflito aumentarem, os interesses comerciais brasileiros estariam cada vez mais em risco. Por isso, um número crescente de representantes do setor privado tenta pressionar Dilma Rousseff a adotar uma estratégia mais assertiva.

Politicamente, a incapacidade do Brasil em controlar a situação prejudica gravemente suas ambições de liderança. A tentativa da UNASUL em mediar o conflito venezuelano é um compromisso multilateral e um experimento interessante para se observar até que ponto o continente é capaz de resolver seus próprios problemas. No entanto, dado que os EUA estão se mantendo largamente fora da discussão, o Brasil é, de longe, o ator mais importante e em melhor posição na América do Sul para assumir a liderança. Se as coisas derem errado na Venezuela, é o Brasil, não a UNASUL, que – com razão – será responsabilizado por falhar em defender a democracia e a estabilidade na região.

Texto originalmente publicado no blog Post-Western World. Leia aqui.

35 Responses to É hora de o Brasil endurecer com Nicolás Maduro

  1. Carlos Amorim disse:

    Urnas eletrônicas smartic e observadores da UNASUL… só pode ser brincadeira.

  2. flavia disse:

    Se as urnas nao fossem smartic a gente até endossava o artigo. tsc tsc, ingenuidade ou conivência?

  3. Filipe disse:

    Dilma realmente transformou o Brasil em anão diplomático. Não consegue, ou não quer, mediar nem uma questão de um vizinho.
    E ainda acreditou quando Obama sarcasticamente disse que o Brasil é considerado uma liderança mundial pelas outras nações desenvolvidas.
    Liderança significa intermediar assuntos polêmicos, espinhosos, como é o caso da “democracia bolivariana” (seja lá o que isso signifique). Não estou falando em quebra de soberania ou intervenção. Mas quando há conflitos internos de grande magnitude, e esse é o caso da Venezuela agora, uma intermediação externa, neutra deveria ser bem vinda.
    Agora, se o Sr. Maduro não quer deixar nem um aliado ideológico como o governo brasileiro, que levou um calote da PDVSA no caso da refinaria de PE, ajudar a conferir um selo de legimitidade às suas eleições, então devemos desconfiar.

  4. Será que o Jobim vai trazer um tênis do Chavez para a Dilma e o Lula?

  5. Vagner Rodrigues disse:

    Por um momento cheguei a imaginar que o título deste artigo refletisse um surto de lucidez de Carta Capital. Percebi que me enganara ao me dar conta que o artigo não é de sua autoria. Não sei se chegará o dia em que CC recrimine os atos dessa linha política populista que defende e é fartamente praticada por Lula, Dilma, Maduro, Chavez, Castro e outros tantos.

  6. Luiz antonio disse:

    O PT, A Dilma e o Lula não farão absolutamente nada, o lado ideológico é muito maior, estes estrumes ficarão caladinhos independentemente do que acontecer lá na Venezuela

  7. Marcos disse:

    Belo post, é de gerar uma boa discussão.

  8. domingos roberto gabrielli gentil disse:

    O Brasil quebrou por culpa da incompetência dos nossos governantes, como vão resolver os problemas da Venezuela. Só rindo.

  9. Edson disse:

    A OEA se manifestou de maneira qdo o Clinton ganhou a eleição ROUBADA? E nos golpes na Venezuela no Paraguai e em Honduras? AH Entendi, a OEA é prima irmã dos “indignados seletivos brasileiros”

    • é mais fácil para a militância, desenterrar mortos do que fazer uma autocrítica honesta…
      ser um “indignado seletivo brasileiro”, é muito mais importante para o Brasil do que um “subserviente seletivo brasileiro”…

  10. Aguinaldo disse:

    O nosso pais esta cheio d poblemas sem rumo devido a incopetencia das esquerdas ainda quererem ser um lider regional? Piada pronta

  11. Joao Aguiar disse:

    A Venezuela tem um histórico de eleições corretas na era Cháves e não é preciso a OEA, o Ministério das Colônias e apoiadora de golpes desde a infância, a atestar isto. Maduro está no seu pleno direito de aceitar ou não observadores internacionais e já declarou que a UNASUL é um interlocutor responsável, além de uma enxurrada de ONG estrangeiras que acompanharam as eleições anteriores e a confirmaram a lisura das eleições.

  12. Aliança Nacional Libertadora disse:

    Artigo MERVALESCO, Sempre foram enviados observadores internacionais em todas as eleições venezuelanas. A oposição já se valeu de observadores influenciando as incitações à violência desencadeadas pelos coxinhas que mataram 8 chavistas um dos motivos da prisão dos colegas do Aécio. Sabemos da sede petrolífera americana e o quanto o país mandava e desmandava na Venezuela e Bolívia das suas “embaixadas” no governos tucanos desses países (cujo os presidentes, assim como FHC, ficaram no ostracismo associado ao entreguismo e corrupção.Único país no mundo em que uma emissora de TV militou abertamente contra a democracia e angariar apoio americano para tirar Chavez num golpe de estado.
    Monstro é quem mata pessoas após perder eleições Capriles o verdadeiro monstro está preso por essas acusações….quase recebeu a visita da sua versão Nacional o traficante conhecido por Aécio.

    Gardenal:
    Compare Maduro com quem se elege democraticamente pelas eleições…tipo Chávez. Sua manifestação é claramente por falta de conhecimento tanto da Venezuela quanto de Cuba.

    • Rodrigo disse:

      Duvido que você tenha ido a Venezuela para saber como o povo está. Não vem com esse papinho de pseudo intelectual falar de falta de conhecimento. sou cidadão venezuelano e senti na pele o que esses monstros estão fazendo ao meu país e meu povo.

  13. Marco Sousa disse:

    ERRADO!. O Brasil não é XERIFE da América Latina e a Venezuela é um país soberano não uma extensão do Brasil1. O Governo brasileiro deve se preocupar com os nossos assuntos interno (uma direita reacionária e golpista) ameaçando a já (frágil democracia brasileira), além de um Congresso Espúrio contrário à governabilidade do país, isso sim, são motivos de preocupações e de ações imediatas.

  14. o brasil tem é que fortalecer ainda mais a esquerda aqui no sul da América, e dar total apoio a democracia Venezuelana. democracia é o caminho, e qualquer resultado que vir por ela é o que deve prevalecer.

  15. MARCELO disse:

    Enviar para a Venezuela fiscais brasileiros membros do foro de São Paulo (aliados de Maduro) ? Prá que ?

  16. mileumlivros disse:

    Mas ele não é o revolucionário do socialismo bolivariano que resgataria a dignidade da América Latina?

  17. FLÁVIO disse:

    Está aí uma coisa que me surpreenderia: o Brasil do PT levantar uma palha para garantir eleições democráticas na Venezuela. Um palha, uma palhinha sequer… Duvido! Eles apoiam essa ditadura e são contra eleições livres. Concedem em fazer a pantomima democrática apenas “para inglês ver”, mas desprezam a democracia representativa. Estão aí o mensalão e o petrolão para provar. Vão fazer vista grossa. O Maduro pode matar, prender, torturar, fraudar, que o Brasil do PT ainda vai defendê-lo. É triste mas é como é.

  18. Lucio Montes disse:

    Democracia na Venezuela??? quem conhece bem este país sabe que não existe. Venezuela é uma democracia desfarçada, onde o governo sua “turma” possuem bilhões de dólares roubados da população. Eu tenho várias amigos na Venezuela, e ontem mesmo um deles me contou que como ele assinou um baixa-assinado contra “Maduro”, ele não pode trabalhar na PDVSA – Petróleos de Venezuela S.A. Foi excluído do processo seletivo, quando o RH descobriu sobre o caso. Além do mais, a rede de comunicação na Venezuela é 100% controlada pelo governo, e o único a acesso a informação fiel que a população possui são as redes sociais como o Facebook e Twiter. Ultimamente, o governo está utilizando táticas antidemocráticas para que a oposição não disputa as eleições, como mudar o estado que o candidato possa disputar suas eleições, para que tenham menos votos. Para se comprar produtos essencias, a população tem que ficar até 11 horas na fila do supermecado e o governo ainda culpa o governo passado (15 anos atrás), pela grave crise econômica. Realmente, Venezuela é o “paraíso democrático”, exemplo para a América Latina …

  19. Augusto Ribeiro disse:

    Como assim? Cara de um focinho da outra…

  20. Alberto disse:

    Texto com alguma desonestidade factual. A UNASUL existe essencialmente devido a ação de Hugo Chavez e Nestor Kirchner, e também Lula. Não pela liderança do Brasil como se pretende. As eleições na Venezuela não precisam de pressão da UNASUL para se realizarem. A Venezuela é simplesmente a campeã de eleições em todo o continente.

  21. BOCA disse:

    E que diferença isso vai fazer? Se fosse a OEA, tudo bem, mas a UNASUL e o bolivarianismo são a mesma coisa.

  22. A tal estratégia de política externa mais assertiva é que está difícil atualmente. Temo mesmo que viremos o tal anão diplomático tão falado.
    Dicotomias e polarização. Ta aí o que agora estamos até exportando…

  23. Antonio Jose Camolese disse:

    Em termos de política externa brasileira, ela é toda pautada pelo bolivarianismo, se a situação política da Venezuela está dramática, e agora não dá mais pra esconder pois não dá pra negar uma ditadura de esquerda, muito se deve ao apoio dos esquerdistas brasileiros.
    Agora esta revista vem com este papo de “endurecer” pra posar de democrática. A esquerda tem que resolver seus dilemas e crises de identidade.

  24. Diogo disse:

    ô, criaram o monstro agora tão com medo dele ?

  25. Acho tarde para isso. Com o poder que já tem maduro é o novo Fidel da Venezuela.

  26. José Humberto Ramos disse:

    Excelente artigo!!!!! Quem dera todos os artigos da CC fossem nesse tom imparcial e legítimo,analisando o cenário sem atitude ideológica.

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