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“É a economia estúpido”

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O declínio da mobilidade da mão-de-obra explica a vitória de Donald Trump nos EUA

Por Saliha Metinsoy*

O sucesso de Donald Trump nas eleições norte-americanas foi uma surpresa para pesquisadores e analistas políticos. E desde novembro, ambos têm vendido inúmeras teorias para explicar seus erros. No entanto, um aspecto da vitória do republicano permanece subvalorizado: a mobilidade da mão-de-obra.

A mobilidade da mão-de-obra entre regiões é muito mais elevada nos Estados Unidos do que em muitos outros países do mundo, incluindo os membros da União Europeia, alocando os indivíduos em postos de trabalho onde são mais produtivos. Desta forma, a mobilidade é um fator importante para escalada social para os americanos de classe média, onde eles podem aumentar seus ganhos e padrões de vida ao mudar-se para empregos com salários mais elevados em regiões dinâmicas [1].

Mas a mobilidade econômica tem diminuído ao longo das últimas duas décadas [2]. E, à medida em que trabalhadores imóveis ficam presos em seus postos de trabalho e regiões, eles se opõem crescentemente às forças atribuídas por eles (com ou sem razão) como responsáveis por sua estagnação. Apoio ao livre comércio e à imigração cai entre os grupos de eleitores “imóveis”. E, a retórica protecionista torna-se cada vez mais atraente. Donald Trump capitalizou nesta dinâmica. Uma de suas principais promessas eleitorais foi impedir que empregos fossem para o exterior. Nos EUA de Trump, acordos de livre comércio como o TTIP estavam condenados logo de cara.

Para os eleitores, a política de mobilidade é peculiar para indústrias e regiões. Um estudo de Michael Hiscox sugere que interesses localizados em indústrias específicas moldam as preferências comerciais [3]. Hiscox mostra que as indústrias menos móveis formam coalizões anti-comércio devido ao aumento do risco de deslocamento em face à concorrência do exterior [4]. Inversamente, sua pesquisa mostra que os grupos móveis são mais dispostos a apoiar o livre comércio.

Essa “tese do deslocamento” pode ser estendida a uma compreensão mais geral do seguro de risco no mercado de trabalho. A mobilidade cumpre duas funções contra riscos crescentes. Em primeiro lugar, previne a diminuição dramática dos níveis de emprego em momentos de crise econômica. Quando certos setores encolhem em uma crise, a mobilidade permite a realocação de trabalhadores para setores em crescimento. Por exemplo, quando há um choque assimétrico em um setor em particular, é mais fácil para trabalhadores mudarem para um emprego diferente com renda similar em condições de alta mobilidade da mão-de-obra. O período de desemprego, portanto, é mais curto em comparação com as circunstâncias de um mercado imóvel. Em outras palavras, a mobilidade funciona como uma ferramenta de quase-desemprego e de proteção salarial.

Em segundo lugar, ela assegura que exista uma estreita relação entre aptidões e postos de trabalho, além de proporcionar oportunidades de emprego mais variadas.

Mas desde a crise financeira de 2008, esta é uma possibilidade em declínio para muitos indivíduos. Embora a recuperação pareça estar em curso, a mobilidade da mão-de-obra não obteve o mesmo sucesso nos EUA. Mike Konczal e Marshall Steinbaum argumentam que a lenta recuperação econômica e a baixa procura de trabalhadores provocaram o declínio da mobilidade laboral [5]. Contudo, muito deste cenário deve-se também a tendências de longo prazo. David Schleicher culpa o aumento dos preços de habitação em regiões dinâmicas (custos de entrada) e as diferenças de benefícios públicos entre regiões (custos de saída) [6]. Isto tem sérias consequências para a mobilidade da mão-de-obra.

De qualquer forma, como argumentam Konczal e Steinbaum, “quando é difícil encontrar outro emprego, os trabalhadores que os têm permanecem em seus postos, prejudicando sua ascensão na escada de trabalho e o acompanhamento do crescimento salarial em carreiras que historicamente levaram à classe média [7]. É este grupo de pessoas que, confrontado com a diminuição das perspectivas de emprego, adotou cada vez mais uma posição anti-comércio e ficou desconfiado de que aumentar o comércio arriscaria reduzir ainda mais os empregos disponíveis, e levaria à perda de trabalhos e à diminuição de renda.

Donald Trump foi capaz de explorar isso. Ele ofereceu uma redução no comércio e ‘trazer os trabalhos de volta para casa’. Sua mensagem ressoou com um grande número de eleitores, especialmente em regiões que enfrentam desindustrialização nos EUA. A diminuição da mobilidade aliada a empregos migrando para o exterior transformaram em sombrias as perspectivas de futuro para esses trabalhadores.

Isto não é o mesmo que argumentar que o aumento dos sentimentos anti-imigrantes e xenófobos não desempenhou um papel. [8] Da mesma forma, muito tem sido escrito sobre desinformação e política de pós-verdade, disseminados por meio de fontes de mídia social. No entanto, isso não deve nos impedir de considerar a realidade econômica e o papel crucial que ela desempenhou nesta eleição.

A diminuição da mobilidade da mão-de-obra é um forte indicador de apoio ao livre comércio. Isso fez com que níveis crescentes de comércio internacional tornassem-se indesejáveis para grandes grupos de trabalhadores norte-americanos, o que os levou a votar em Donald Trump. Em outras palavras, “é a economia, estúpido.”

 

Este artigo foi traduzido para o português por Gabriel Bonis sob a orientação do Politike. 

*Saliha Metinsoy é doutoranda em Política na Universidade de Oxford. Ela pesquisa a interseção da política internacional e doméstica e da economia política com um foco particular nos programas do Fundo Monetário Internacional (FMI), nos mercados de trabalho, na reforma macroeconômica e nas preferências ideológicas e eleitorais.

Artigo publicado originalmente em OxPol. Acesse o texto original aqui.

Referências

[1] Michael J. Hiscox. 2002. International Trade and Political Conflict: Commerce, Coalitions, and Mobility. Princeton: Princeton University Press.

[2] Veja por exemplo as recente análises da revista The Economist e do Fórum Econômico Mundial ‘Why declining US labour mobility is about more than geography’.

[3] Michael J. Hiscox. 2002. International Trade and Political Conflict: Commerce, Coalitions, and Mobility. Princeton: Princeton University Press.

[4] Ibid.

[5] Mike Konczal and Marshall Steinbaum. (2016). Declining Entrepreneurship, Labor Mobility, and

Business Dynamism: A Demand-Side Approach.

[6] David Schleicher. (2016). ‘Getting people where the jobs are’, Democracy.

[7] Ibid.

[8] Veja Michael Tessler (2016) ‘The education gap among whites this year wasn’t about education: it was about race’.

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