Carrossel, Política Como o “negacionismo” da Aids se espalha online na Rússia
Imagem: NIAID / Creative Commons / Flickr

Como o “negacionismo” da Aids se espalha online na Rússia

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The ConversationEm fórum na maior rede social do país, milhares de pessoas duvidam da existência do HIV e espalham mentiras com impactos sérios para a saúde pública 

Por Peter Meylakhs, Yadviga Sinyavskaya e Yuri Rykov*

A nomeação do ex-presidente Thabo Mbeki como chanceler de uma das mais elevadas instituições da África do Sul em 1 de março atraiu vasta atenção internacional. Mbeki é duramente criticado por ser um defensor do “negacionismo” da Aids, além de ser considerado responsável por inúmeras mortes por meio de suas políticas sobre medicamentos anti-retrovirais.

Os negacionistas da Aids acreditam que o vírus HIV não existe e que a Aids é causada por vários fatores, como drogas, desnutrição, estresse ou mesmo sexo anal por si só.

Embora seus argumentos tenham sido há muito tempo rejeitados pela comunidade científica internacional, os negacionistas da Aids recusam fatos científicos e alegam que todas as provas da existência do HIV foram inventadas por cientistas corruptos, que estão na folha de pagamento da indústria farmacêutica, o “governo mundial invisível” e assim por diante.

O fenômeno não se limita à África do Sul. Na Rússia, os meios de comunicação frequentemente trazem casos de pais que rejeitam a existência da Aids e se recusam a oferecer tratamento anti-retroviral a suas crianças infectadas pelo HIV, causando-lhes danos significativos de saúde ou mesmo a morte.

O “negacionismo” não se limita a pessoas não portadoras do HIV. Na verdade, a afirmação de que a Aids é uma fraude pode ser irresistível para indivíduos HIV positivos, especialmente aqueles que estão tentando aceitar um diagnóstico recente da doença.

Negacionistas da Aids na internet russa

A ascensão da internet e das mídias sociais deram nova vida ao negacionismo da Aids: indivíduos procurando informações sobre o vírus descobrem que sites ou fóruns de negação estão a apenas um clique de distância. Muitas vezes, esses sites afirmam que o HIV é um mito e que tudo o que você precisa fazer sobre a doença é esquecê-la.

Para entender como alguns soropositivos tornam-se negacionistas da Aids e o que pode ser feito sobre isso, realizamos um estudo de método misto da maior comunidade de negacionistas de Aids presente na maior rede social da Rússia, VKontakte. Durante a execução do projeto em 2016, o grupo contava com cerca de 15 mil integrantes e já existia há quase oito anos.

Conduzimos uma observação etnográfica do grupo ao longo de nove meses e coletamos 25 entrevistas semi-estruturadas com integrantes soropositivos do grupo. Alguns negavam a Aids, enquanto outros o fizeram na passado mas afastaram-se da retórica e alegações do grupo.

Analisamos a estrutura da rede do grupo de negacionistas da Aids e determinamos seu “núcleo”, “periferia” e “suscetíveis” (aqueles que correm maior risco de se tornarem negacionistas).

O “núcleo” consiste em participantes com muitos laços de amizade e comunicações (posts e comentários) dentro do grupo. A “periferia” é composta por aqueles com poucos laços de amizade e que não estavam particularmente envolvidos na atividade de comunicação dentro do grupo.

Para nossa surpresa, descobrimos que as duas mais conhecidas e intensamente debatidas estratégias de rejeição da Aids (que a ciência do HIV é falsa e produto de uma conspiração global) não tiveram quase nenhum papel na conversão de indivíduos ao negacionismo. Estes argumentos foram utilizados para racionalizar a posição, adotada por outras razões.

Por que negar?

Três fatores importantes foram determinados: aconselhamento inadequado, negação do diagnóstico porque os informantes “sentiam-se bem” e a relutância em seguir o tratamento anti-retroviral.

Em contraste à representação como indivíduos completamente irracionais, algumas pessoas que se tornaram negacionistas da Aids fizeram perguntas perfeitamente racionais. Por exemplo, uma mulher soropositiva, que manteve relações sexuais sem preservativos com seu marido durante oito anos, perguntou como seu parceiro permanecia soronegativo. Outros se perguntavam como o sistema imunológico de uma pessoa soropositiva melhorou sem tratamento.

Infelizmente, tais perguntas não recebem respostas informadas. A maioria dos russos tem uma imagem estereotipada do HIV e da Aids criadas a partir de folhetos e cartazes em clínicas de saúde. Muitos ainda acreditam na desinformação do início da era da Aids, quando se pensava que as pessoas soropositivas eram altamente infecciosas sem proteção sexual e que seus sistemas imunológicos se deterioravam linearmente.

Esta pode ser uma mensagem de saúde pública útil, mas a imagem real é muito mais complexa. A ciência do HIV tem o quadro geral correto – o HIV causa Aids e a infecção não tratada do HIV leva à Aids – mas, como em qualquer ciência, há muitas nuances e incógnitas.

Por exemplo, descobrimos que quando as pessoas fazem essas perguntas a seus médicos, muitas vezes elas enfrentam uma atitude arrogante e paternalista. Ao invés de explicarem a seus pacientes a complexidade da progressão da doença e admitirem que nem todas as perguntas podem ser respondidas pela ciência atual, os médicos russos costumam dizer algo como: “Eu sou seu médico e você é meu paciente. Seu papel é fazer o que eu digo, não fazer perguntas.“

Insatisfeitos, os pacientes com HIV procuram então informações na internet, onde podem ser vítimas de negacionistas da Aids que lhes dão respostas claras às suas perguntas, embora falsas: “Claro que você não infectou seu marido, porque toda essa história do HIV é falsa.”

O que pode ser feito?
Infelizmente, nossa pesquisa indica que pouco pode ser feito para ajudar negacionistas hardcore da Aids; tentativas de melhor informá-los apenas fortaleceram suas crenças errôneas.

Todos os participantes do estudo que eram negacionistas afirmaram terem mudado de opinião apenas quando suas condições físicas se deterioraram dramaticamente – alguns ficaram entre a vida e a morte. Só então ele perceberam que a Aids era real e buscaram tratamento. Às vezes a mudança de opinião era tardia; diversos membros do grupo morreram de Aids apesar de eventualmente terem buscado tratamento.

A melhor forma de evitar que indivíduos sejam tentados pelo negacionismo da Aids é fornecer aconselhamento de boa qualidade, centrado no paciente e gerenciar adequadamente os efeitos colaterais do tratamento.

Para aqueles que ainda estão no processo de negacionismo, o nosso estudo chegou à seguinte recomendação: “Acredite no que quiser, mas cheque o seu estado imunológico. Apenas por precaução.” Isto pode ajudar alguém a ficar mais próximo de buscar o tratamento, com sorte antes que esteja tarde demais.

*Peter Meylakhs é professor associado e pesquisador sênior no Centro Internacional para Economia da Saúde, Gestão e Política da Escola Superior de Economia de São Petersburgo (Rússia). 

Yadviga Sinyavskaya e Yuri Rykov são pesquisadores na mesma instituição. 

Este artigo foi originalmente publicado em The Conversation. Leia o original aqui.

Imagem: NIAID / Creative Commons / Flickr

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