Política, Política Externa Como as crises da água e da Petrobras afetam a inserção internacional do Brasil?
Represa do Jaguari, na cidade de Vargem, que abastece o sistema Cantareira (Fernanda Carvalho/ Fotos Públicas -09/07/2014)

Como as crises da água e da Petrobras afetam a inserção internacional do Brasil?

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Problemas atingem fatores cruciais na construção do perfil do país no cenário global

O ano de 2015 começa um tanto complicado para o Brasil. Por um lado, a economia patina, com crescimento baixíssimo e inflação perigosamente alta. Por outro lado, duas grandes crises tornam o cenário ainda mais preocupante: um escândalo de corrupção bilionário no coração da maior empresa brasileira vem à tona em um momento em que a maior região metropolitana do país sofre com a perspectiva de um racionamento de água que pode ter consequências inéditas.

Boa parte dos brasileiros – sejam eles acionistas da Petrobras ou moradores que encontram torneiras secas em São Paulo – já está sofrendo diretamente as consequências dessas crises. Mas já que este é um blog sobre política internacional, vale a pena nos perguntarmos: como este momento pode afetar o papel do Brasil no cenário global?

Podemos adiantar que as consequências podem ser graves. Mas para compreender o porquê, primeiro é necessário entender como se constroem as relações entre os diversos países no sistema internacional, para depois analisarmos o caso específico do Brasil.

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Interesse nacional

Embora os Estados sejam construções multifacetadas, com inúmeras disputas internas, por uma série de motivos – que vão dos mais ideológicos aos mais práticos – eles costumam ser analisados por acadêmicos e políticos como entes unitários.

Assim, embora sejam uma coleção de pessoas diferentes e disputas políticas, entidades como o Brasil, os Estados Unidos, a China, Uganda, etc, se apresentam como ‘personalidades’ únicas no cenário externo.

Neste sentido, as elites que dominam cada um desses Estados constroem o que alguns gostam de chamar de “interesse nacional”, ou as suas prioridades enquanto país, que podem ser, por exemplo, a defesa ou o desenvolvimento econômico.

E é tentando defender cada um desses “interesses” – muitas vezes antagônicos – que os Estados se relacionam.

Disputa de poder

Com interesses distintos, é natural que pensemos a relação entre os Estados como essencialmente política. Isso fica mais claro se entendermos política no sentido da bela e clássica interpretação de Lasswell, que definia o conceito como a disputa sobre “Quem Ganha O Quê, Quando e Como”.

Ora, para vencer esta disputa sobre “Quem ganha o quê…” e ver seus interesses contemplados, um Estado precisa fazer com que os outros Estados “colaborem” (voluntariamente ou não) com seus objetivos.

Em poucas palavras, um Estado precisa de PODER, ou a capacidade de produzir os efeitos que deseja sobre outras pessoas e entidades – mais uma vez usando a definição de Lasswell.

Com isso em mente, por muito tempo tentou-se medir o poder dos Estados, como uma forma de elaborar estratégias de defesa e ataque.

Enquanto o poderio militar poderia ser considerado a forma mais óbvia de se medir a força de um país, a coisa não é assim tão simples, como alerta o teórico germano-americano Hans Morgenthau, um dos pais da disciplina de Relações Internacionais contemporânea.

Trabalhadores fazem protesto em frente à sede da Petrobras no Rio (Tânia Rego/ Agência Brasil)

Trabalhadores fazem protesto em frente à sede da Petrobras no Rio (Tânia Rego/ Agência Brasil)

Para Morgenthau (citado aqui), atribuir o poder de um Estado a um único fator é um enorme erro. O poder de um Estado é algo multifacetado, e inclui o desenvolvimento econômico, acesso a recursos naturais, tamanho da população, poderio bélico, etc., etc., etc.

Todos estes são aspectos que podem determinar a influência de um Estado sobre outros países e sobre todo o sistema.

Crises

E é aí que está o busílis. As crises que se apresentam ao Brasil atualmente atingem diretamente fatores cruciais na construção do perfil do país no cenário internacional.

Vejamos: como explicam Monica Hirst e Maria Regina Soares de Lima, a localização e o entorno relativamente pacífico onde o Brasil está inserido fizeram com que o país tradicionalmente não se preocupasse tanto com o desenvolvimento de seu poderio militar, que os analistas costumam chamar de hard power.

Em vez disso, o Brasil sempre contou com outros atributos para influenciar – e exercer poder – no cenário internacional, como tamanho da população, do território e perfil econômico.

Ora, é justamente nesse último aspecto que as crises atuais se localizam.

Como maior empresa do Brasil e atuando em outros 24 países, a Petrobras era certamente uma das responsáveis pelo considerável aumento do prestígio internacional do Brasil nos últimos anos.

Com operações nas Américas, Ásia e África, em 2010 a estatal era responsável por gastos e investimentos que representavam cerca de 10% do PIB brasileiro, segundo algumas estimativas. Um peso considerável se lembrarmos que o Brasil é uma das maiores economias do mundo.

O esquema de corrupção descoberto pela operação Lava Jato no ano passado, no entanto, pode ter causado prejuízos da ordem dos bilhões de reais ao cofres da empresa. Junto com a queda vertiginosa nos preços do petróleo, o esquema fez com que a então presidente da Petrobras, Graça Foster – que renunciou ao posto ontem -, anunciasse que os investimentos da estatal em exploração de óleo cairiam ao “mínimo necessário” e que haveria uma “redefinição” do tamanho da Petrobras.

Aí começa o problema. Tal “redefinição” no perfil de uma empresa que talvez fosse uma das maiores representantes da diplomacia econômica do Brasil certamente impactará o perfil do país no cenário internacional, além de causar perdas significativas ao PIB, segundo as análises mais pessimistas.

Mas a coisa é ainda mais grave. A crise na Petrobras acontece junto com outra que pode ter consequências ainda mais importantes: a crise da água.

A grande diminuição no nível dos reservatórios de água no Estado de São Paulo ameaça, além de milhões de habitantes, pelo menos 60 mil estabelecimentos industriais nas regiões metropolitanas de São Paulo e Campinas. Isso sem contar inúmeros estabelecimentos de comércio e serviços que podem ser obrigados a parar.

A coisa fica ainda mais grave quando lembramos que a seca deve ocasionar problemas no fornecimento de energia elétrica.

Ou seja, além de representar sérias ameaças para a saúde e o bem-estar da população, o racionamento pode atingir diretamente o emprego, comprometendo a produção e abrindo espaço para convulsão social.

A combinação dessas crises pode fazer com que o PIB de 2015 tenha uma contração considerável. Segundo algumas estimativas, a queda poderia chegar a 2%.

O problema é agravado porque, com a economia em baixa, o Brasil perde também PODER político no cenário internacional.

A consequente diminuição dos investimentos internacionais do país compromete a capacidade de barganha do Brasil, ou o poder de ”convencer” outros países a apoiarem seus interesses. Como consequência, o Brasil perde preciosos pontos no jogo global.

Soft power

Ademais, a crise traz outras consequências mais difíceis de se medir, mas também consideravelmente graves. Uma delas é um comprometimento de nosso soft power, algo como “poder macio”, em tradução livre.

Nas palavras do criador do conceito, o acadêmico norte-americano Joseph Nye, soft power é “a habilidade de conseguir o que você quer por meio da atração, e não da coerção ou de pagamentos”. (original aqui)

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O professor de Harvard Joseph Nye, criador do conceito de ‘soft power'(Wikimedia Commons/Chatham House)

Segundo Nye, este poder deriva da “atratividade da cultura, ideais políticos e políticas (públicas) de um país”.

Podemos dizer que o soft power brasileiro aumentou de maneira considerável nas últimas décadas, com o crescimento econômico, bem-sucedidas políticas públicas de inclusão social e com o perdão de dívidas, parcerias e doações a outros países, por exemplo.

Como vemos, parte do soft power pode estar relacionada a uma imagem de competência e equilíbrio – além de solidariedade – externada pelos países.

E aí é que está o problema. As crises pelas quais passamos hoje não são resultado de acidentes ou de fatores além de nosso controle, mas consequências diretas de nossas ações, o que pode gerar desconfiança generalizada em relação às capacidades do Brasil.

Se a crise na Petrobras expõe nossa incapacidade de combater a corrupção, a crise hídrica – que já estava anunciada há mais de uma década e foi tratada com pouca transparência pelas autoridades estaduais (especialmente as de São Paulo) –  mostra nossa incapacidade de gerir recursos naturais.

Em tempos em que a imagem é cada vez mais fundamental para o perfil global de um país, essas duas crises fazem com que o Brasil saia mal na foto diante da comunidade internacional. Se não conseguirmos uma solução rápida para esses problemas, caberá a nós apenas contar os prejuízos internos e externos.

12 Responses to Como as crises da água e da Petrobras afetam a inserção internacional do Brasil?

  1. João Lima disse:

    Realmente, o nosso “soft power” foi ferido pela crise na Petrobras e pela crise hídrica nos estados do Sudeste, atingindo a economia interna, os investimentos externos, a credibilidade externa do país, etc. O governo federal petista mostrou efetiva incapacidade de gestão com probidade da Petrobras, e os governos não apenas de SP, mas também de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espirito Santo (todos estados golpeados na crise da água) deixaram clara a sua incapacidade de gerir adequadamente os recursos hídricos da região. E isto é apartidário, pois SP e Minas são do PSDB, Rio do PMDB, não me recordando qual partido governa o ES. Todos incapazes! Explicável, politicamente, pois barragens, dutos, canos, motores não são vitrines eleitorais, ficando esquecidos. A população deve agora critica-los e cobra-los, para depois os julgar nas próximas eleições. Tudo democrática e pacificamente, mas incisivamente.

  2. Fernando disse:

    Sinceramente, não vejo como essas crises podem piorar um cenário de absoluta negligência à política internacional e comércio exterior dos últimos 4 anos. O Brasil se fez um anão diplomático no primeiro governo Dilma – não serão essas crises que potencializarão isso, pois o fato já foi consumado. Concordo, sim, que ele não tende a ser revertido por conta desses problemas.

  3. INTERNAUTAITINERANTE disse:

    Quem vai pagar mesmo o pato por essa crise de água e energia vai ser o povo brasileiro. Os exploradores desses dois importantes setores de atividade econômicas já começam a levar vantagem. Não tenham dúvida, a partir dessa crise o povo passará a pagar o preço da água, como se estivesse morando em um país com escassez de água, embora o Brasil seja o maior detentor de água doce do mundo. A mesma coisa já está ocorrendo com a energia elétrica. Somos detentores de um sistema de geração de energia mais barata do mundo, a energia hidro elétrica, no entanto, os atravessadores do mercado de energia no Brasil já estão conseguindo impor um preço por kw/h muito superior a qualquer país civilizado do mundo, inclusive onde são utilizados sistemas geradores de energia de custo muito mais caro.

  4. Diogo disse:

    Excelente!!!! Esse texto demostra um ponto de vista muito mais abrangente sobre a crise da água e o escândalo da Petrobrás, não se limita apenas as questões internas. Parabéns.

  5. Romualdo disse:

    Então vejamos como ficou:

    01) FALTA DE ÁGUA – O governo do PSDB que está há 20 anos no poder e não conseguem resolver o problema da falta de água, não combate a corrupção do ” Trensalão ” e outros tantos.

    02) CORRUPÇÃO NA PETROBRAS – Governo do PT que está há 12 anos no poder, não combateu a corrupção, sendo que nas portas de fabrica nos anos 80, dizia que com eles no poder, tudo seria diferente.

    03) FALTA DE ENERGIA ELÉTRICA – Tudo porque há anos, o País só investe em hidrelétricas e optou por algumas termelétricas, não fez a eficiência energética, não diminuiu as perdas nas transmissões, não optou pela biomassa, solar, eólica (mudando a matriz energética, conforme especialistas), não fizeram campanhas e descontos para as famílias economizarem energia, o parque fabril brasileiro com maquinários velhos não foram trocados por maquinas que gastam menos energia e produzem mais e vai por aí.
    De fato, a imagem do País não poderia ser pior.

    • Jairo Cabral disse:

      FALTA DE ÁGUA – Se a crise hídrica de São Paulo estava anunciada a mais de 10 anos, porque os 12 anos de governo do PT não contribuíram com os governos de São Paulo para tomas as medidas cabíveis, por se tratar do mais importante estado brasileiro, que põe em risco toda a Federação.

      PETROBRAS – O PT privatizou a PETROBRAS conscientemente, estrategicamente, para fazer o mesmo que CHAVES fez: financiar o comunismo no Brasil com os bilhões da empresa. Minha culpa, minha máxima culpa.

      ENERGIA ELÉTRICA – A Dilma foi Secretária de energia no RG, foi Ministra da energia na União, foi Ministra da Casa Civil e Presidente do Brasil. É totalmente culpada pela soma dos erros estratégicos que nos levaram a esse caos.

      • Ricardo Alexandre disse:

        Quando será, que teremos a maturidade suficiente para entender que essas opiniões anti-PT, essa visão “alienada” não ajuda em nada a restabelecer a imagem do nosso Brasil. que essa “briga” contra o PT, querendo impor argumentos falhos para nossos problemas, contribuir fortemente para aumentar as crises que estamos passando. Por favor sr. Jairo Cabral, nos ajude, se ajude…

        • Armando Ricardo A Costa disse:

          Eu concordo com você Ricardo. Contudo, o tempo que nosso pais gastou (12 anos), custou e vai custar muito caro para nossas gerações futuras, que era para pegar um pais mais desenvolvido tanto na economia como principalmente em conceitos culturais e ideológicos.
          O PT não é o único culpado disso tudo, o nosso sistema, nossa constituição permite que isso aconteça, mas quem poderia definir para melhor a nossa história e tinha tudo para fazê-lo com a máxima tranquilidade, com apoio da população, com maioria na câmara e senado, com cenário econômico interno e internacional favorável, não o fez e tinha em mente apenas poder pelo poder.
          Resumindo o PT fudeu o Brasil.

          • Severino de Oliveira, Bonobo disse:

            O Governo FEZ o que tinha que fazer. Arrancou a Petrobras do caminho do sucateamento em que seguia nos anos 90 (para ser privatizada). Tanto que o upgrade realizado na empresa possibilitou a descoberta da maior jazida de Petróleo descoberta no mundo no século XXI. A Petrobras saiu de uma situação em que plataformas eram afundadas, como a P-36 (onde nenhum órgão de imprensa considerou que houve perda de dinheiro público, por motivos bem conhecidos) para a condição atual em que apresenta níveis de excelência em TODOS os seus indicadores.

            De quebra, o atual sistema de Governo retirou o Brasil do Mapa da Fome da ONU e constrói 10 das maiores obras públicas de infraestrutura entre as cinquenta maiores do MUNDO, com o mesmo orçamento que antes esvaia-se pelos descaminhos das chamadas “administrações anteriores”.

            O fato que até o “reino mineral” consegue enxergar é que há uma crise de escassez de água REAL que no estado de São Paulo é um DESASTRE anunciado há décadas e uma crise FABRICADA na Petrobras com objetivos políticos partidários muito claros e evidentes que só não enxerga os olhos cegos que acreditam na realidade fantástica irradiada nas telinhas controladas pelos DONOS dos meios de comunicação CONCEDIDOS.

            Essa crise FABRICADA foi construída pelo CONSÓRCIO Midia/Judiciário que já atuou nos famigerados processos dos dois chamados “mensalões”. Um que foi tratado de forma fraudulenta para produzir resultados políticos para o beneficio do grupo politico alinhado com os interesses internacionais e o outro para livrar das acusações, essas sim, AMPLAMENTE COMPROVADAS, esse mesmo grupo político representante das grandes petroleiras internacionais. Se vc quiser discutir provas, apresente as suas que eu tenho as minhas.

      • Romualdo disse:

        A Ana(Agência Nacional de água), informou que teria problemas no sistema Cantareira há 10 anos atrás, todo mundo sabe que água é um recurso finito e pode ter futuros problemas em abastecimento no mundo inteiro, se o governo do PSDB não solicitou ajuda e não tomou medidas, isto é um fato que o tucanato tem que vir a público e explicar o motivo desta posição.
        A Petrobras há anos vem sendo roubada, inclusive no governo FHC e com relação a não mudança da matriz energética, são posição de vários governos atrelados a empreiteiras financiadoras de campanhas eleitorais.
        Tomar atitudes como: produzir energia sustentável, recuperar nascentes, reflorestar áreas degradadas, proteger biomas, economizar energia, economizar água, só para citar alguns casos, deveriam ser políticas de estado e não de governos, dentro das 3 esferas.
        Por isso senhor Jairo, menos partidarismo e mais ideias técnicas, é o que País precisa neste momento difícil.

        Passar bem !

  6. Diego disse:

    Ótimo texto…. era o que eu imaginava… Brasil passa uma imagem muito ruim para investimentos externos, não sabendo gerir problemas básicos como água e luz. Corrupção na Petrobras passa uma imagem negativa também para investimentos exteriores, uma vez que ela é de capital mista( tem investidores estrangeiros) muita gente estrangeira vai ficar desconfiada em colocar seu dinheiro nas mãos de brasileiros, freando investimentos no país. Uma pena se for comprovado que teve participação politica na corrupção da petrobras, seria muito mais fácil se fosse só por ex: uns gatos pingados de corruptos que meteram a mão no dinheiro, e não um esquema que envolviam uma cadeia de políticos, empresas e funcionários da estatal.. O caso da petrobras é complicado, temos que punir os corruptores exemplarmente e duramente, mas não deixar que isso afete a imagem da empresa e do Brasil como um todo, pro estrago não ser maior ainda.

  7. Débora disse:

    Parabéns pelo texto, muito bem explicado, obrigada!

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