Política Como a violência feminina é encarada na guerra?
Lynndie England foi condenada à prisão pelos crimes praticados em Abu Ghraib. Foto: Domínio Público

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Como a violência feminina é encarada na guerra?

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Oficiais mulheres que cometem violações graves tendem a ser vistas como “biologicamente danificadas”

Em diversas sociedades, construções sociais moldaram a imagem das mulheres como indivíduos pacíficos. Nesse sentido, quando as palavras violência e mulheres são mencionadas na mesma frase, a última geralmente aparece como vítima da primeira, conforme explica Herjeet Marway, professora do Departamento de Filosofia da Universidade de Birmingham. As mulheres, no entanto, também agem de forma violenta intencionalmente. Ainda assim, quando oficiais americanas do sexo feminino apareceram em imagens violentando prisioneiros iraquianos no centro de detenção de Abu Ghraib (Iraque) em 2004, o caso ganhou as manchetes dos jornais por semanas, em parte, devido ao “ineditismo” da situação. O fato de mulheres sorridentes terem molestado prisioneiros em uma guerra nos anos 2000, violando a imagem pacífica feminina, se tornou tão importante quanto os abusos em si. Como, então, a mídia e a opinião pública reagiram ao ocorrido?

As principais narrativas usadas para explicar o episódio trataram as oficiais envolvidas como pessoas incapazes de tomar decisões, trazendo para o centro das discussões suas vidas sexuais supostamente disfuncionais como justificativa para suas ações. Logo, parte da opinião pública atribuiu a um suposto “depravamento” sexual a conduta imprópria das oficiais, e não a falhas de caráter, por exemplo. Mulheres violentas foram descritas como produto de uma biologia danificada ou da influência negativa de homens ou até mesmo de uma ideologia. Linhas de pensamento semelhante também têm sido usadas para explicar as mulheres-bomba da Chechênia, uma república russa que luta pela independência há décadas.

As imagens de Abu Ghraib retratavam diversos detentos nus em posições degradantes, com sinais evidentes de tortura e abuso sexual. Casos de tortura em guerras não são incomuns, no entanto, a execução de tais crimes por mulheres foi entendida como inédita. Lynndie England, Sabrina Harman e Megan Ambuhl foram acusadas de sodomizar prisioneiros, força-los a se masturbarem em público e a realizarem atos homossexuais entre si.

Parte da opinião pública buscou uma explicação para a conduta ilegal de England em seu relacionamento com Charles Graner, um ex-especialista da reserva do exército dos EUA, também envolvido no caso. Surpreendentemente, a mídia entendeu como relevante listar até mesmo as posições sexuais favoritas do casal, além de retratar England como uma pessoa “sob o controle de Graner”. Suas ações, segundo essa visão, não foram motivadas por uma escolha pessoal. Neste sentido, a oficial é removida de sua capacidade de raciocínio, sendo apresentada como uma mulher manipulada intelectualmente por um homem dominante e mais inteligente.

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No caso de Harman, sua homosexualidade foi apresentada como uma disfunção erótica. Até mesmo a vida sexual de Megan Ambuhl, que sequer foi condenada por participar diretamente dos abusos em Abu Ghraib, foi exposta. A oficial estava envolvida com Graner enquanto ele ainda mantinha um relacionamento com England, com quem teve um filho.

Nas violações de direitos humanos de Abu Ghraib, a mídia e setores da opinião pública criaram uma relação direta entre o suposto comportamento sexual “anormal” das mulheres envolvidas no caso com os crimes cometidos por elas no centro de detenção. Ou seja, o seu suposto “depravamento” sexual teria sido um fator mais relevante para os crimes do que uma falha de carater ou a escolha própria. Além disso, as três mulheres tiveram seus nomes inseridos em sites pornográficos, alguns deles recriando os abusos de Abu Ghraib em um contexto sexual. Por outro lado, os homens envolvidos no episódio não atraíram a mesma atenção, suas vidas sexuais não foram expostas e as suas capacidades mentais não foram desafiadas na mesma medida em que as mulheres envolvidas.

Desta forma, parte da opinião pública se eximiu do debate sobre como a estrutura violenta das forças armadas dos EUA, na qual crimes como a tortura e abusos de prisioneiros eram naturalizados, contribuiu nas ações das oficiais mulheres e dos homens envolvidos no episódio.

Esse cenário não difere muito quando o tema abordado são as mulheres-bomba da Chechênia. Usadas como uma ferramenta de pressão sobre Moscou, as “viúvas negras” foram responsáveis por 42% dos 110 ataques suicídas ocorridos na região da chechena em 2008. Normalmente, as viúvas negras são consideradas vítimas de transtornos mentais ou traumas pessoais, tais como relações problemáticas com homens ou dificuldades impostas pela vida, incluindo a perda de filhos e maridos. Logo, essa suposta vulnerabilidade as transforma em perfeitas vítimas de organizações terroristas.

Uma vez recrutadas, seu suicídio seria uma forma de se reunir com os maridos mortos ​​(alguns deles considerados mártires), uma vez que elas não podem se casar novamente. Essas mulheres também são descritas como estupradas, drogadas ou chantageadas para aceitarem as missões, embora muitas vezes elas as liderem. Em sociedades mais receptivos à violência feminina, elas são comemoradas apenas como “boas mães” que ofereceram seus filhos, maridos e a si mesmas como combatentes de uma ideologia.

Neste sentido, essas explicações para a violência feminina em situações de guerra são profundamente problemáticas. Elas buscam, entre outras coisas, reforçar o monopólio masculino do uso da força. As guerras e conflitos ocorridos após os anos 2000 tem sido restritivos às mulheres não apenas nos campos de batalha, mas também intelectualmente. A retórica de mulheres alienadas nega-lhes o controle sob sua própria capacidade de raciocinar, restringindo aos homens a habilidade da razão. Logo, mesmo que as mulheres possam usar a violência por escolha própria, elas tendem a ser privadas de alguma responsabilidade por essas ações. E, se elas não podem controlar suas decisões, não estariam aptos a conduzir homens em guerras.

4 Responses to Como a violência feminina é encarada na guerra?

  1. Daniel disse:

    Ótimo texto.

  2. anacampanelli disse:

    Ridículo isso. Elas escolheram fazer aquilo. É incrível como os homens que fizeram as mesmas coisas que elas não tiveram atenção nenhuma da mídia. Interessante o texto.

    off-topic: espero que esses comentários acima sejam sarcásticos.

  3. pedro luiz disse:

    elas não podem controlar suas decisões, não estariam aptos a conduzir homens em guerras.Quem já teve contato com uma crise de TPM sabe quanto isso pode ser perigoso.

  4. Diogo disse:

    Pacíficos ? só quem não conhece as mulheres pode achar isso.

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