Multimídia Resposta ao Ebola “demorou demais”, diz especialista
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Resposta ao Ebola “demorou demais”, diz especialista

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Em entrevista, microbiologista que “descobriu” o Ebola comenta os desafios para conter a epidemia do vírus

Em Dezembro de 2014, a rede de notícias Al-Jazeera entrevistou Peter Piot, microbiologista que “descobriu” o virus do Ebola em 1976. Piot foi o responsável por identificar um então desconhecido vírus que havia matado centenas de pessoas da República Democrática do Congo (antigo Zaire).

No vídeo acima, dois pontos merecem ser destacados. O primeiro, algo ainda pouco debatido, é a dificuldade em conter a epidemia, não apenas pela escassez de recursos, mas também devido às barreiras culturais. Tais barreiras vão muito além dos rituais funerários, tidos como os grandes vilões na luta contra a epidemia.

Tendo vivido algum tempo na Tanzânia, pude ver de perto o quanto a lógica local em relação ao combate de doenças diferia da de países desenvolvidos. A malária, por exemplo, é encarada como uma doença do dia-a-dia, quase uma gripe, e não como uma doença potencialmente letal. Na Guiné, Serra Leoa e Libéria, poucas pessoas devem ter levado o Ebola à sério no início o que gerou uma rápida expansão do vírus. Ainda, muitos entraram em negação – por não acreditarem estar com Ebola ou porque a realidade de ter que se internar em um hospital e dificilmente vencer a doença era dura demais.

O segundo ponto que merece ser destacado é o comentário de que o vírus precisa ser contido pois vivemos em mundo globalizado e, dessa forma, o Ebola não é um problema exclusivo da África. É importante refletir sobre isso, uma vez que este virou quase um slogan do combate à epidemia. Portanto, caso o Ebola fosse um problema exclusivo da África não haveria necessidade em enviar ajuda? Se não houvesse globalização e imigração não seria necessário mobilizar recursos e planejar uma estratégia séria de contenção da epidemia? A vida de um africano possui menos valor que a de um americano, brasileiro, ou europeu?

É possível que este discurso tenha como intuito o aumento da ajuda financeira de governos, laboratórios e organizações internacionais. Contudo, não são raros os episódios nos quais a vida humana parece ter pesos diferentes de acordo com a nacionalidade dos indivíduos envolvidos. Um claro sinal disso, foi o enorme atraso em decretar estado de emergência nos três países mais afetados, levando à morte milhares de pessoas. Pode-se imaginar quanto tempo demoraria se o Ebola tivesse ressurgido na Europa, no Canadá, nos Estados Unidos.

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