OxPol, Política Brexitânia: política da pós-verdade, efeito colateral e o caminho a seguir 
O primeiro-ministro britânico, David Cameron, anuncia a saída da UE. Foto: Tom Evans/ Crown Copyright

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Brexitânia: política da pós-verdade, efeito colateral e o caminho a seguir 

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Nos próximos anos, a incompetência da campanha pró-saída da UE será exposta

Por Niels Goet *

Tradução: Thiago Nascimento**

O resultado do referendo que validou a escolha do Reino Unido em sair da União Europeia (UE) deixou a Europa e o mundo atônitos. Depois de 40 anos, a decisão histórica da Grã-Bretanha de dar as costas à UE dividiu a nação – não só famílias e amigos, mas o establishment e os eleitores. A divisão desse segundo grupo é, talvez, a mais perceptível. Mas essa segmentação irá perdurar? O Brexit apresenta uma oportunidade única de expor e debater alguns dos nossos problemas mais urgentes e de restaurar os laços de confiança entre os eleitores e a elite política.

Grã-Bretanha dividida por manobras da elite

Deixar a UE apresenta alguns desafios importantes – tanto no âmbito econômico quando social – que cindiram o ambiente ideológico, cultural, econômico e político da Grã-Bretanha. A decisão colocou a Inglaterra e o País de Gales numa situação complicada com a Irlanda do Norte e a Escócia. Causou conflitos entre os defensores e detratores da saída. Mas no rescaldo do Brexit, essa vozes concorrentes terão de negociar a realidade e não a retórica, sarar feridas em vez de abri-las.

O referendo ilustrou o esfacelamento da confiança do eleitorado, conforme as elites políticas se mostravam incapazes de representar os interesses da sua base eleitoral. Nesse contexto, o Brexit é o resultado da ingerência da elite: de qual outra forma o cidadão desencantado pode expressas seu descontentamento? O Brexit foi um voto contra a austeridade, contra a insegurança gerada pela globalização, e contra uma elite que se refestela nos benefícios do livre movimento em toda a UE.

A campanha favorável à saída do bloco aproveitou esse descontentamento adotando, de forma bastante irresponsável, um discurso antielitista e anti-intelectual. As mensagens da campanha tocavam no medo e apontavam que os defensores da permanência no bloco – tão cheios de certezas dos impactos econômicos negativos com a saída do Reino Unido – eram os mesmos “experts” que foram pegos de surpresa na crise econômica de 2008/2009. A franca observação feita por Michael Gove de que “as pessoas neste país já estão cansadas de experts” é um bom exemplo disso.

Alguns elementos da elite política (que inclui Nigel Farage, Gove e Boris Johnson, claro) exploraram essa situação fazendo avançar suas agendas próprias. Políticos estão entre as profissões menos confiáveis (mesmo banqueiros são mais bem vistos), o que permitiu algumas pessoas desse círculo explorar este sentimento para obter ganhos políticos significativos em cima de grande setores do eleitorado. Essa manobra transformou discussões políticas em debates sobre confiança e escolheu a dedo um cardápio para os partidários do Brexit: fatos, essas realidades políticas incômodas, tornaram-se questão de credo e abertos a interpretação; a opinião dos experts, já tão desacreditadas, foram facilmente descartadas.

É mais provável que o Brexit não seja tão ruim quanto seus detratores (e alguns experts) diziam; nem aquela imagem agradável retratada pela campanha favorável à saída. Mas devemos dar algum crédito aos experts agora: a libra esterlina perdeu valor de fato; empresas estão falando em realocar; o Brexit se tornou um pesadelo jurídico; e os parceiros europeus garantiram à Grã-Bretanha que ela terá acesso limitado ao mercado único sem o livre movimento.

Theresa May será a primeira ministra do Reino Unido, sucedendo David Cameron, que renunciou após o Brexit. Foto: US Embassy London

Theresa May será a primeira ministra do Reino Unido, sucedendo David Cameron, que renunciou após o Brexit. Foto: US Embassy London

Política da Pós-verdade

A reverência aos experts não é a única casualidade do desastre do Brexit; nosso discurso político também mudou: o Brexit batizou a política da pós-verdade. Neste momento, 161 milhões de libras esterlinas equivalem a 350 milhões; a liberdade de movimento não é mais um pré-requisito para entrar no mercado único; e a instabilidade política não pode causar possivelmente choques macroeconômicos. Na sonhada terra de Brexitânia, tudo pode acontecer.

E desde o referendo estamos acompanhando a queda do palanque dos mais ferrenhos defensores do Brexit. Até mesmo Boris Johnson já percebeu que “os candidatos dos Tories precisam de um plano para o Brexit”, um mea culpa velado haja vista sua própria incapacidade de criar um.

No entanto, Farage e companhia não parecem se importar. Bem o contrário: o líder do UKIP fez um discurso autocomplacente no Parlamento Europeu no qual o colunista do jornal britânico The Guardian, Zoe Williams, comparou Farage ao “homem que incendiou o country club porque nunca lhe deram boas razões por que recusaram sua filiação. Eles vão ver, com suas piadinhas internas e com aquela grama perfeitinha”.

Grã-Bretanha após o Brexit: O caminho a seguir

Entretanto, o Brexit não precisa dividir a Grã-Bretanha: o povo pode até odiar os políticos, mas odeia ainda mais quando eles são incompetentes.

Problemas complexos raramente pedem respostas simples. Nos próximos cinco a dez anos, a incompetência da campanha pró-saída será exposta, conforme o partido de Johnson e outros ficam em evidência. Na tentativa de negociar um acordo sustentável com a UE, alinhado com sua campanha, eles irão inevitavelmente fracassar.

Em meio ao caos, oportunidades aguardam. A complexidade dará aos nossos líderes políticos a chance de se envolver em debates substanciais, de colocar suas mãos extremamente limpas na massa e lidar com essas questões, de entender e descrever as complexidades tanto das relações europeias quanto nacionais, e de construir um sentido renovado de confiança na política. Isso demonstrará que, em alguns casos, experts e políticos competentes são realmente necessários.

Inclusive já podemos estar assistindo isso acontecer agora.

Poucas pessoas já viram David Cameron falar tão abertamente como recentemente, tanto na reunião do Conselho Europeu em Bruxelas, quanto nas sessões de Questões ao Primeiro-Ministro (PMQ). Hilary Benn e Tim Farron, engrenagens políticas em uma máquina com dificuldades, também têm importantes contribuições a fazer, sendo que Farron já prometeu que seu partido irá se empenhar para trazer a Grã-Bretanha à UE na próxima eleição geral.

Na ressaca da crise política, a Grã-Bretanha terá a oportunidade de abordar – cara a cara – algumas de suas principais questões, sendo o país neste momento incapaz de ignorar o descontentamento entre os grupos da nossa sociedade. Mais importante, este período oferecerá à classe política a oportunidade de se reconectar com o público, de motivar e compartilhar suas paixões, de demonstrar o papel que lhe é devido e a necessidade do expert e de liderança responsável, além de restaurar a confiança.

O Brexit pode ter nascido do desespero, no entanto, as suas consequências não precisam ser tão lúgubres. O desafio é reconstruir as bases políticas da Grã-Bretanha e esse debate deve começar agora.

Artigo publicado originalmente em OxPolAcesse o texto original aqui.

Este artigo foi traduzido para o português por Thiago Nascimento sob a orientação do Politike. 

 

*Niels Goet é doutorando em Política no Departamento de Política e Relações Internacionais da Universidade de Oxford. Os interesses de pesquisa de Goet incluem mudança institucional em parlamentos, debates parlamentares e métodos quantitativos. Ele é professor-assistente no Oxford Q-Step Centre.

** Thiago Nascimento é Bacharel em Linguística pela Universidade de São Paulo (USP), tem especialização em Intérprete de Conferência pela PUC-SP, e é tradutor especializado em finanças, marketing e Ciências Humanas desde 2001. Thiago vive e trabalha em Toronto, Canadá.

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