Política Brexit começa com tensão sobre Gibraltar
Crédito: Tony Evans / Creative Commons / Flickr

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Brexit começa com tensão sobre Gibraltar

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Primeiro conflito sobre a saída do Reino Unido da União Europeia envolve pequeno enclave britânico cercado pela Espanha 

Na imagem, o aeroporto de Gibraltar. Crédito: Tony Evans / Creative Commons / Flickr

 

Por Gabriel Bonis

Quem esperava repercussões burocráticas sobre a comunicação oficial do Reino Unido ao Conselho Europeu para o início do processo de divórcio entre Westminster e a União Europeia pode ter se surpreendido. A separação começou em 29 de março com ânimos elevados em relação a um tema pouco debatido após o referendo que resultou no Brexit: a soberania de Gibraltar, um minúsculo território britânico de 32 mil habitantes.

Gibraltar é uma península de apenas 6,5 quilômetros quadrados localizada em uma ponta da costa sul da Espanha. Autogovernado em todas as áreas, exceto defesa e política internacional, o território é parte do Reino Unido há mais de 300 anos (a população inclusive tem cidadania britânica), quando a Espanha o cedeu perpetuamente no Tratado de Utrecht em 1713. Desde então, sucessivos governos espanhóis tentam reaver o controle sobre a região.

Sem espaço para agricultura e indústrias de larga escala, a economia do território é alimentada por tarifas alfandegárias, empresas financeiras offshore atraídas por baixos impostos, empresas de apostas online, turismo e o porto mais importante para reabastecimento de navios na Europa.

Após o começo do processo de rompimento com Westminster, a UE parece ter tomado o lado espanhol em relação ao assunto – uma posição oficialmente comemorada por Madri. Em um rascunho das diretrizes para as negociações do Brexit enviado aos demais 27 países membros, o bloco deixa claro que a Espanha terá o poder de vetar qualquer acordo entre Bruxelas e o Reino Unido sobre o território, também chamado de “rocha”, em referência ao seu principal ponto turístico.

O documento atiçou os ânimos de alguns políticos e comentaristas britânicos em relação à soberania do território, além de causar certo embaraço a Theresa May. Na carta em que solicita à UE a saída do bloco, a premier do Reino Unido sequer mencionou Gibraltar, um equivoco que Bruxelas não cometeu.

Após o vazamento das diretrizes, houve até sugestão do Lorde Michael Howard, ex-líder do Partido Conservador, de que o Reino Unido entraria em guerra com a Espanha para defender a soberania da “rocha”, assim como Margaret Thatcher fez ao expulsar tropas argentinas das Ilhas Malvinas nos anos 1980. O governo espanhol reagiu com ironia dizendo-se surpreso com o tom utilizado por um país “conhecido por sua compostura” e pediu calma.

O comentário de Howard foi recebido por May com risos. A premier garantiu que sua abordagem será negociando com a UE e que não haverá discussões sobre a soberania de Gibraltar sem a autorização da população local. Um porta-voz do governo britânico optou por um tom ainda mais ameno, afirmando que vai esperar até o fim do mês para ver quais diretrizes oficiais serão acordadas pelos países membros.

O Brexit coloca Gibraltar em uma posição desconfortável, uma vez que quase 96% de seus eleitores votaram pela permanência do Reino Unido no bloco. Por outro lado, a vasta maioria da população também quer manter-se sob controle britânico. Em 2002, 99% dos eleitores rejeitaram uma soberania conjunta entre Reino Unido e Espanha.

Por que Gibraltar é importante? 

Crédito: Google Mapas

Crédito: Google Mapas

Eventuais conflitos entre Madrid e Londres sobre Gibraltar são relativamente comuns. Durante a ditadura do general Francisco Franco, o país fechou a fronteira espanhola com o território durante anos, por exemplo. Mais recentemente, em 2012, houve disputas sobre direitos de pesca em torno das águas do território com as autoridades marítimas gibraltarianas e a Marinha Real Britânica tendo que expulsar barcos espanhóis que atentavam pescar próximo ao porto de Gibraltar. Após o início do Brexit, a Marinha Real Britânica também precisou ordenar a saída de um navio de guerra espanhol que havia entrado em águas de Gibraltar sem autorização. Essas incursões são frequentes, mas quase sempre passam sem alarde.

Gibraltar é estrategicamente importante para o Reino Unido. O território conecta o Mar Mediterrâneo ao Oceano Atlântico, além de separar a Europa do norte da Africa por uma faixa de apenas 14 quilômetros de largura. O próprio exército britânico, que mantém uma base no local, reconhece o território como relevante para a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), sendo “bem situado para observar os canais de transporte marítimo” e “dominar a entrada Ocidental ao Mediterrâneo em períodos de guerra”.

O estreito de Gibraltar é uma das rotas de transporte marítimo mais movimentadas do mundo, atrás apenas do Canal da Mancha. Passam por ali todos os anos cerca de 110 mil navios de diversas partes do mundo, alem de metade do comércio global e 80% dos bens e do gás consumidos pela UE. O estreito também representa uma preocupação de segurança para a Espanha, que o considera uma área propícia para atividades ilegais, como o tráfico de drogas, armas e pessoas, em especial por meio do Marrocos.

Qualquer debate sobre Gibraltar será contencioso, como demostrou o parlamento europeu ao aprovar majoritariamente uma resolução para que o bloco adote uma postura mais forte nas negociações do Brexit com o governo britânico.

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