Política Externa Brasil desperdiça oportunidades econômicas com a China

Brasil desperdiça oportunidades econômicas com a China

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Política externa equivocada faz o País perder negócios com Pequim há quase uma década 

Em 2009 a China tornou-se a principal parceira comercial do Brasil, superando os Estados Unidos pela primeira vez desde 1930. Apesar do feito e da enorme importância da China para a economia brasileira, ainda existe muito desconhecimento e preconceito sobre o relacionamento sino-brasileiro, em especial, em relação às trocas comerciais. O governo, a mídia e determinados setores industriais como calçados, têxteis e brinquedos, vendem a imagem de que produtos chineses são prejudiciais à economia brasileira como um todo. Esta ideia, contudo, é um mito. Apesar de ter impactos negativos em determinados setores, as importações brasileiras do país asiático são majoritariamente de insumos à nossa indústria e, consequentemente, benéficas à economia brasileira.

Relacionamento sino-brasileiro nos últimos 10 anos

Repetida erroneamente nos últimos anos, esse equívoco tem como uma das principais origens uma birra diplomática entre Brasília e Pequim. Em 2004, o então presidente Lula e o presidente chinês Hu Jintao se encontraram na China e as relações de amizade entre os países foram fortalecidas sob algumas promessas. As principais foram que o Brasil reconheceria a China como economia de mercado e que a China apoiaria a candidatura brasileira a membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

A promessa chinesa falhou logo no primeiro teste, quando o país se recusou a apoiar o projeto brasileiro. Isto ocorreu porque a proposta incluiu também um assento permanente no CS para o Japão, histórico “rival” chinês. É necessário questionar se houve falha dos assessores da Presidência ou se o “detalhe” foi deliberadamente ignorado. Um conhecimento mínimo de história seria o bastante para compreender que a China não apoiaria um projeto de reforma do Conselho de Segurança que concedesse um assento permanente ao Japão.

O Presidente Lula com o Primeiro Ministro chinês Hu Jintao. Foto:Roosewelt Pinheiro / Agência Brasil

O ex-presidente Lula com o primeiro-ministro chinês Hu Jintao. Foto:Roosewelt Pinheiro / Agência Brasil

Devido à resistência chinesa em apoiar o projeto, o governo brasileiro se recusou a declarar a China economia de mercado e começou a incentivar o discurso de que produtos chineses estavam invadindo o mercado nacional e prejudicando a economia nacional como um todo. O discurso do governo aliou-se perfeitamente ao de setores da indústria prejudicados pelas importações chinesas, como têxteis, calçados e brinquedos.

Estes possuem forte influência em federações industriais como a FIESP, cuja proximidade com o então presidente Lula era notável (em especial por meio da amizade do petista com o presidente da Federação Paulo Skaf). Estava então montado o cenário perfeito para que a China virasse o novo vilão da indústria brasileira. Vale ressaltar que estes setores são de fato consideravelmente prejudicados pelas importações chinesas. Contudo, o ônus do problema é dos próprios industriais que não se aproveitaram das dédadas de subsídios estatais para modernizar suas linhas de produção e competir com os produtos chineses.

Política equivocada prejudica o Brasil

Enquanto diversos países, incluindo os Estados Unidos e membros da União Europeia, buscavam estreitar laços e fortalecer o relacionamento bilateral com a China, o Brasil parecia remar contra a maré. A potência asiática chegou a incluir o Brasil no mecanismo denominado Diálogo Estratégico, espaço no qual a China tratava sobre assuntos diversos com parceiros considerados importantes. Brasília, no entanto, pouco acionou o canal.

Países como México, Estados Unidos, Japão, África do Sul, Índia, Austrália e Alemanha utilizaram o mecanismo para negociar questões comerciais, investimentos externos e temas de ordem política. Os Estados Unidos são um dos países que mais usam e se beneficiam deste espaço de negociações, cujas reuniões são frequentes e muitas vezes lideradas pelos chefes de Estado de ambos os países. O Brasil também desperdiçou outros canais, como a pouco utilizada Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (COSBAN), formada em 2004.

A “implicância” com a China não se restringiu apenas aos aspectos comerciais do relacionamento, se estendendo também à esfera política. A embaixada brasileira em Pequim é considerada Posto C. De acordo com a classificação do Itamaraty, Postos C possuem mais riscos e menor qualidade de vida. Pequim, uma cidade extremamente moderna e segura, está no mesmo patamar de capitais de países como Angola, Timor-Leste, Paraguai, Cuba, Indonésia e Congo.

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Desmistificando premissas sobre importações chinesas

Deixemos de lado por um instante acusações de violação de direitos humanos, degradação do meio ambiente e utilização de práticas ilegais de comércio. Estes aspectos são importantes, mas se considerados desproporcionalmente no âmbito do comércio exterior, teríamos acordos com pouquíssimos países no mundo.

Qual é o impacto do comércio com a China na economia brasileira? A seguir, uma tabela com os principais produtos importados da China pelo Brasil em 2014.

Fonte: Ministério da Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior

Fonte: Ministério da Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior

Analisando os dados, vê-se que as principais importações da China são de insumos à indústria e não “quinquilharias”, como afirmado erroneamente por muitos. Ou seja, bens que contribuem para inovação tecnológica e que aumentam a competitividade de nossos produtos no mercado doméstico e exterior. De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), importações brasileiras da China totalizaram mais de US$ 37 bilhões em 2014. Deste valor, itens que beneficiam a indústria nacional corresponderam a aproximadamente 70%[1] das importações totais – com máquinas e outros aparelhos somando sozinhos 48,2% do total. No mesmo período, têxteis, calçados e brinquedos juntos totalizaram apenas cerca de 9%[2] das compras brasileiras.

Importações brasileiras da China por tipo de bens (Janeiro a dezembro de 2014)

Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

O Brasil também desperdiça oportunidades de aumentar suas vendas à China por meio de diversificação da pauta de exportações. Atualmente, as vendas brasileiras à potência asiática concentram-se em commodities como soja, petróleo e minério de ferro. Estes são os três primeiros itens da pauta e representam 81% do total de vendas. A tabela abaixo mostra como estão dividas nossas exportações para o país asiático:

Tabela Exp

Fonte: Ministério da Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior

As oportunidades de mercado na China são, contudo, muito maiores do que os primeiros três itens atualmente vendidos pelo Brasil. Em 2008, o governo brasileiro, em parceria com o Conselho Empresarial Brasil-China, elaborou um estudo denominado Agenda China. Nele, foram identificadas 28 famílias de produtos com potencial de exportação para o país asiático, além de áreas estratégicas para investimento. A diversificação é interessante não somente para cada indústria, como também para a economia como um todo. Maior variedade na pauta reduz dependência do comércio da variação de preços de commodities como petróleo, cujo preço do barril atingiu uma baixa recorde em 2014.

É intrigante como, apesar de tantos fatos e dados confiáveis, ainda haja o discurso de que o comércio com a China é prejudicial ao Brasil. É ainda mais curioso que o governo brasileiro não priorize um excelente relacionamento político com seu principal parceiro comercial, como fazem outros países (inclusive os mais críticos à China). Laços estreitos são altamente valorizados pelos chineses e beneficiam trocas comerciais, investimentos externos e parcerias estratégicas. O Brasil parece ser o único a não ter feito o dever de casa.

O Brasil demonstra relativamente pouco interesse em se aproximar politicamente da China e existem poucas iniciativas para descobrir novas oportunidades para nossos produtos no mercado chinês. O governo ainda insiste em divulgar apenas o lado negativo das importações, incentivando a noção de estas prejudicam a indústria como um todo. Tais atitudes acabam, assim, estremecendo o relacionamento bilateral. Um leigo analisando a política externa brasileira para a China nos últimos anos questionaria se o país asiático é de fato nosso principal parceiro comercial. Quem olha de fora tem a impressão de que é a economia chinesa que precisa do Brasil e não o contrário. O governo brasileiro precisa adotar uma postura política madura e condizente a de um país que se diz potência, para conseguir usufruir de todos os benefícios econômicos de um relacionamento com Pequim.

[1] Foram utilizadas na contagem as seguintes famílias de produtos: SH 85, 84, 29, 72, 39, 87, 73, 90, 28, 83, 76 e 70. Deve-se incluir uma margem de erro de 2% para mais ou menos.

[2] Foram utilizadas na contagem as seguintes famílias de produtos: SH 62, 54, 61, 95, 60, 42, 55, 63, 58, 59, 64, 65. Deve-se incluir uma margem de erro de 2% para mais ou menos.

20 Responses to Brasil desperdiça oportunidades econômicas com a China

  1. adam land disse:

    Perai, deixa ver se eu entendi esta parte que vc escreveu no texto: “Pequim, uma cidade extremamente moderna e segura, está no mesmo patamar de capitais de países como Angola, Timor-Leste, Paraguai, Cuba, Indonésia e Congo.”

    Angola, Timor-Leste, Paraguai, Cuba, Indonésia e Congo.” extremamente modernas e seguras??? Meo Deos, de onde tirastes estes absurdos filha? Parei de ler seu texto por aí, e devo lembra-la de que sou totalmente setico contra qualquer negocio ou negociata com China, são comunistas, mafiosos, escravajistas, praticam dumping adoidado, não respeitam leis de meio ambiente e nem leis humanistas, não respeitam marcas e patentes, falsificam tudo, enfim, qualquer negocio com chinês deve ser feito com os olhos bem abertos e ter muita referenencia do negociante.

    Nota: trabalho com negocios e comercio exterior.

    • Vivian Alt disse:

      Adam, ve-se bem que nao leu o texto ate o fim. Ou com atenção. Ou talvez vc não entenda sarcasmo/críticas.

      O comentario “Pequim, uma cidade extremamente moderna e segura, está no mesmo patamar de capitais de países como Angola, Timor-Leste, Paraguai, Cuba, Indonésia e Congo.” esta relacionado à classificação do Itamaraty por postos A, B, C e D. Foi uma crítica, justamente porque Pequim não tem absolutamente nada a ver com estas cidades, mas ainda assim de acordo com o MRE todos esses lugares são considerados postos C.

  2. ANTÔNIO ALBERTO disse:

    Vivian, parabéns pelo espaço onde se pode discutir caminhos para o Brasil. Gostei do seu texto de quase todos os comentários que me antecederam. Buscam-se soluções, correções de rumos, etc. Com a experiência que você adquiriu nas conversar com o MDIC e o MRE, durante o seu trabalho no ConselhoEmpresarial Brasil-China, poderia nos dizer sobre que outros produtos o novo Pais poderia vender para a China e o que a China esperaria comprar do Brasil?

  3. Vinicius disse:

    Penso que devemos analisar nossa ainda persistente dependência tecnológica e subdesenvolvimento para entender como vamos trabalhar com a nova potencia. Estamos vendo uma troca de senhor, uma atualização histórica? Na história brasileira sempre que houve isso, ficamos em uma condição periférica, servindo inclusive como fornecedor de produtos com baixo valor agregado. Por mais que se mostre que importamos insumos, ainda há um desequilíbrio marcante no desenvolvimento tecnológico. Vender soja e comprar tecnologia de ponta não muda nossa histórica dependência, aprofunda ainda mais esse ponto. A velha histórica com novos contornos. Há muito alarde positivo sobre esse relacionamento, mas temo um novo posicionamento imperialista e o Brasil parece ainda não saber como vai lidar com isso. Ainda estamos em um processo de repactuação para os novos rumos do desenvolvimento nacional que pode nos colocar em um pé de mais igualdade perante a China. É ir acompanhando…

  4. OIDE CARVALHO DE moura disse:

    Acredito que um dos maiores erros no mundo do comércio internacional é olhar com desdém para a História e aspectos culturais das nações envolvidas. Falta ainda uma filosofia, um sentimento de compartilhamento de informações neste campo tão estratégico na soma de divisas.

  5. ze sergio disse:

    Excelente texto. Ilustra bem a derrapada diplomática brasileira deste período e a completa incapacidade dos agentes públicos de visualizarem os novos mercados mundiais, o novo eixo e a nova base industrial do planeta, mantendo o país atrelado à economias que se tornam obsoletas rapidamente como a Europa e a velhos sistemas de mercado onde continuamos vendendo matérias primas e comprando produtos industrializados.

  6. Ricardo C. disse:

    Engraçado, mas esse texto tem uma cara tão grande de matéria encomendada! Parece até que estou vendo as mesmas estratégias argumentativas dos “analistas” que publicavam textos “técnicos” à época da licitação dos caças.
    Minha pergunta é bem simples: por que os próprios representantes chineses não tratam de debater o que eles desejam com os formadores de opinião brasileiros?
    A resposta é bastante simples: a China não é confiável e não faz nenhum esforço para sê-lo. Mais cautela e menos passionalidade deve ser sempre a regra no trato com esse país.
    Exatamente por isso eu fico me perguntando: qual a verdadeira intenção de um artigo que pretende atribuir a TODOS os setores técnicos e administrativos do governo a imagem de idiotas? Que história é essa de subsumir que são os outros os que não fazem o “dever de casa” (típico linguajar neoliberal)? Quanta arrogância! Será esse apenas um recurso à bílis antes que a uma (não mais que aparente) racionalidade?

    • Vivian Alt disse:

      Prezado Ricardo,

      responderei às críticas feitas ao texto no mesmo formato que o Politike segue para escrever artigos: de forma sensata, educada e sempre baseada em evidências.

      Em primeiro lugar, este não foi um texto encomendado como sugerido pelo senhor. O Politike é um blog independente e não aceita qualquer remuneração financeira com objetivo de colocar um determinado assunto em pauta; nem mesmo do nosso parceiro, a CartaCapital.

      Em segundo lugar, a pauta foi escolhida porque eu, autora do texto, trabalhei por dois anos e meio no Conselho Empresarial Brasil-China. Durante este tempo tive a oportunidade de estudar o tema do artigo exaustivamente, tendo inclusive passado dois meses na China. Também tive a chance de participar ativamente de reuniões sobre o tema dentro do Ministério das Relações Exteriores e do Ministério da Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior. Portanto, é com bastante conhecimento de causa e vivência dos bastidores do governo que escrevi esse artigo. E reafirmo mais uma vez o enorme preconceito de membros do governo brasileiro, oriundo de uma profunda e lamentável falta de conhecimento sobre China.

      Em terceiro lugar, o senhor sugere que a China não é “confiável”. Gostaria de questioná-lo sobre as bases utilizadas para tal afirmação. O Politike preza pelo debate de argumentos diferentes, mas sempre usando como base evidências, fatos e dados confiáveis. Portanto, eu não posso debater sua crítica. Como o senhor deve ter lido no texto, todos os meus argumentos são comprovados com dados (do próprio governo brasileiro) . Quando o senhor dispuser de tais evidências para declarar todos os chineses “não confiáveis” podemos ter uma discussão construtiva.

      Em quarto lugar, eu não atribuí a todos os setores do governo a imagem de “idiotas”, como o senhor afirmou, principalmente porque eu não uso esse linguajar ofensivo nos meus artigos. Contudo, afirmei, e continuo afirmando, que o governo brasileiro peca muito em não aproveitar as oportunidades de um bom relacionamento com a China. O resultado dessa e de outras medidas igualmente equivocadas é bem visível no caos em que se encontra nossa economia atualmente. Se o senhor considera correta a postura do governo brasileiro em se afastar do nosso principal parceiro comercial, questiono a seriedade, idoneidade e o propósito do seu comentário.

      Por último, em geral, não aceitamos comentários ofensivos e com uso de palavras agressivas, como o seu. De acordo com nossa política de comentários disponível no site, aceitamos todo e qualquer comentário crítico, dado que não haja um conteúdo ofensivo. Contudo, seu comentário foi aceito, para que houvesse um resposta às acusações infundadas.

      Atenciosamente,

      Vivian Alt

      • Ricardo C. disse:

        Prezada Vivian

        Muito engraçados os seus melindres! Você não precisa usar a palavra “idiotas” para se referir a todos os setores administrativos e diplomáticos do governo brasileiro. Basta escrever um texto como esse, porque é isso o que ele faz, sem precisar usar essa palavra, a não ser para reivindicar, depois, melindres vitimizatórios. Quem sabe, na sua formação, não tenha lhe faltado uma passagem pelo Instituto Rio Branco…
        Se você está deslumbrada com a China por alguma razão pessoal, isso é problema seu. Eu não tenho por hábito me deslumbrar com sujeitos políticos que promovem ações econômicas predatórias em larga escala, ladeadas por uma duvidosa capacidade para honrar compromissos que não lhes pareçam oportunos (e não estou falando apenas da “banca na sombra” chinesa).
        Sim, está muito longe da China gozar da confiabilidade dos japoneses (por exemplo). Esses sim, foram vítimas da irresponsabilidade negocial brasileira na década de 80, e isso nos custou muito caro, muito mais que negócios. Afinal, nossos laços culturais são muito maiores com o Japão que com a China.
        Se os chineses são, na conjuntura atual, os maiores parceiros comerciais do Brasil, tudo bem. Negócios, negócios; amizades a parte. Exatamente por isso que eu considero corretíssima a postura do governo brasileiro de ser extremamente cauteloso com o Império do Centro. Por uma razão muito simples: impérios são impérios.
        Se você vivesse na década de 50, creio que estaria desfiando o mesmo discurso com relação aos Estados Unidos. Soberania é outra coisa, e felizmente a diplomacia brasileira hoje sabe disso. Não temos razão alguma para nos deslumbrarmos com a China, a não ser por conta de mais algum complexo de vira-latas.

  7. Gihad disse:

    Entendo seu argumento e concordo com ele. O Brasil tem suas dificuldades em lidar com lugares “distantes” mesmo em face de sua importância inegável para a vida política e econômica dos brasileiros, suas empresas e suas instituições.

    Mas discordo que a importação de “insumos para a indústria brasileira” seja exatamente benéfica para nós. O Brasil não possui apenas segmentos industriais de produtos finais: há uma vasta gama de produtores de componentes, ferramentas e produtos químicos, por exemplo, que são aplicados em diferentes áreas da nossa indústria. São, em outras palavras, o “miolo” entre os recursos naturais e os bens finais. Acontece que esses setores, sim, estão perdendo oportunidades de negócios frente à competição chinesa, seja aqui ou até em mercados para os quais exportamos essas mercadorias (sobretudo América do Sul).

    Outro aspecto não necessariamente negativo, mas preocupante, dessas importações está na tecnologia agregada importada da China pelo Brasil. Tomando uma categoria aleatória com tecnologia elevada – Aparato óptico, médico e técnico (SH 90) -, dá para perceber a mudança: entre 2003 e 2014, as importações oriundas da China cresceram 211% acima do crescimento da categoria (ou 583% no total). Nesse sentido, a China está se tornando mais um país industrial que, de certa forma, impede que desenvolvamos indústrias de alta tecnologia no Brasil.

    É claro que nada disso é absoluto, a realidade é complexa. Mesmo assim, é bom entender que além do preconceito das “quinquilharias”, muitos setores sérios estão sofrendo com a concorrência chinesa.

    • Vivian Alt disse:

      Ola Gihad, obrigada pelo comentário. É sempre muito bom ter debates inteligentes e bem embasados..

      Eu entendo o seu ponto e concordo que também tenhamos na indústria nacional produção de peças e maquinário. Minha única discordância é que, assim como nas indústrias têxteis, de calçados e brinquedos, deveria haver um maior investimento em modernização para aumentar a competitividade desses produtos. A indústria de calçados na Itália, por exemplo, resolveu mudar o foco e se especializar no mercado de luxo. Dessa forma, não perdeu mercado para os concorrentes chineses.

      Pode ser uma opinião liberal (não que seja minha ideologia, mas é como a banda toca atualmente), mas eu acredito que ao invés de criar uma situação que prejudique a economia como um todo, estes setores prejudicados deveriam encontrar uma forma de se modernizar e competir com os produtos chineses -não só no mercado interno, como tamém em outros países.

      Claro, que como você bem disse, a realidade é bem mais complexa, mas no geral é essa minha opinião. Mais uma vez obrigada pelo ótimo comentário.

      • Narciso disse:

        A competição do Brasil em têxteis, brinquedos e calçados é desleal com mercado Chinês , vide o preço da mão de obra na china e sua falta de respeito aos direitos trabalhistas que influenciam muito mais no preço que a tecnologia como é o caso das commodities

        • Roberto disse:

          O atual nível de salários na China em algumas regiões (Shenzen) já é igual ou superior ao Brasil. Esse discurso de mão de obra barata (na média ainda inferior ao Brasil) está cada vez mais fraco. Direitos trabalhistas? O pacote trabalhista que temos aqui (FGTS, multas, 13o, sindicatos, taxas, férias com adicional, etc…) só existe no Brasil. Aliada a baixa eficiência, será que não é o caso de fazer um mea culpa por nosso alto custo? É interessante a pergunta: pagamos mal aos trabalhadores, mas temos um alto custo. Por que? A China tem culpa nisso?

  8. João Paulo disse:

    Muito bom o texto, um ponto que gostaria de chamar a atenção é quanto ao contrabando. Sei que os números utilizados são os oficiais, mas acho que a quantidade de produtos chineses que entram em circulação no país de forma não oficial, os que são verdadeiramente prejudiciais a economia brasileira, superam em muito os números mostrados.

  9. Alex disse:

    Eu acho sua análise boa, parabéns! mas tomar os EUA como exemplo e referêncial é desleal (igual comparar Brasil e EUA em termos de histórica do futebol), o acordo foi bastante desigual lá. O nível de desempregou subiu a níveis alarmantes, muitas fábricas foram transferidas para China, muitas cidades perderam suas vocações comerceiais e se tornam abandonas. Considerando que o Brasil não tem a mesma estabilidade ecônomica americana, acredito que análise proposta merece ressalvas. Por fim, não podemos comparar o efeito da produção industrial chinesa no meio ambiente, com outros países, mais de um bilhão de pesssoas, quem já foi na China e teve oportunidade de conhecer algumas fábricas e observar as reais condições de trabalho das pessoas lá, vai resistir bravamente e esse “parceria”.

    • Vivian Alt disse:

      Oi Alex, obrigada.

      Na realidade a comparação com os Estados Unidos é simplesmente na atenção e cuidado que eles possuem ao lidar com a China. Por exemplo, os Estados Unidos sempre foram grandes críticos da China, sempre apoiaram a questão do Tibet, etc. Na primeira visita do Presidente Obama, este foi autorizado a falar ao vivo para uma platéia de estudantes em Pequim (algo que nunca tinha ocorrido antes) e não houve nenhuma menção ao Tibet. Claro, que isso foi no auge da crise econômica e a China era dona de muitos bonds do tesouro americano, mas a idéia é justamente dos Estados Unidos terem tido a noção da importância da China praquele momento delicado e investido no relacionamento.

      Outros países também fazem o mesmo, como é o caso do México (eu só não tive espaço para citar). No México, por exemplo, quem liderava as discussões do Diálogo Estratégico era o próprio ex-presidente Felipe Calderón. Existem vários outros exemplos como a Argentina, Equador, Chile (a Bachelet era muito presente) e até mesmo países africanos (embora esses sim, eu acho que não muito base para exemplos porque não possuem tanto poder de barganha como nós).

      Quanto ao meio ambiente, eu concordo plenamente com você. Por isso coloquei ess ressalva no texto. Passei dois meses lá e vi muita coisa ruim. Mas também vi muita coisa boa. Tudo é um processo. Eles conseguiram tirar mais de 200 milhões de pessoas da pobreza desde o fim da época de Mao. Isso é um Brasil. Mas essas coisas que você citou não são, nem nunca foram o motivo pelo nosso desinteresse (até porque quem é o Brasil pra falar de condições de trabalho e degradação do meio ambiente, né?). O real motivo desse desinteresse é o que está explicado ai no texto.

      Obrigada pelo comentário. Sempre bom o debate inteligente!

  10. Marcelo disse:

    Parabéns. Excelente texto, com um enfoque não tão explorado na imprensa de maior circulação. Só um adendo, puro preciosismo de minha parte, mas Hu Jintao não era primeiro-ministro, e sim, Presidente. O primeiro ministro, se não me engano, era Wen Jiabao. estou certo?

  11. roberto disse:

    Parabéns pelo lúcido texto!

  12. Humano Apenas disse:

    A sacada mesmo é negociar com a Venezuela, com a Colômbia, Cuba, submeter-se aos caprichos portenhos nos golpes da Cristina no Mercosul…
    Essa é a política externa brasileira em termos de negócios com o exterior…
    Nada a se estranhar.

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