Direitos Humanos Boko Haram: terror e manipulação do Islã
Atentado do Boko Haram. Foto: Diariocritico de Venezuela / Creative Commons / Flickr

Boko Haram: terror e manipulação do Islã

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Extremismo e violência como consequências de exclusão social

O Boko Haram apareceu oficialmente em julho de 2009, em onda de ataques que começou em uma estação de polícia em Bauchi, chegando até Maiduguri, maior cidade do estado de Borno . Este foi apenas o primeiro de muitos atentados promovidos pelo Boko Haram, nome que se tornou sinônimo de terror entre nigerianos. Neste terceiro e último artigo da série, veremos seus primeiros anos, quem financia o grupo e quais as opções do governo nigeriano para conter sua expansão.

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No idioma Hausa, Boko Haram possui alguns significados, todos relacionados à rejeição de tradições ocidentais, em especial educação. Boko pode significar livro, ocidental ou estrangeiro e Haram pode ser traduzido como pecado, proibido ou contrário a Deus. Dessa forma, Boko Haram refere-se a um repúdio ao pensamento ocidental e a tudo que não envolve aplicação rígida do Islã. Faz-se crucial ressaltar, contudo, que tal rigidez não está prescrita pela religião muçulmana e o grupo – assim como Estado Islâmico, Al-Qaeda e outros – faz parte de corrente radical que propaga valores pouco relacionados aos ensinamentos do Corão.

O intuito do Boko Haram é, assim, “substituir o Estado moderno nigeriano, por um Estado “tradicional islâmico”. O grupo acredita que a forma como o governo nigeriano conduz o país vai de encontro aos princípios do Islã, sendo necessário remover este modelo, implementando outro mais rígido.

A data exata do surgimento do Boko Haram ainda é debatida, porém sabe-se que movimentos similares existiam no estado de Borno desde 1995. Um destes grupos, então denominado Shabaab (relacionado à palavra juventude), foi liderado pelo Mallam Lawal[1] até 1999. Aproximadamente em 2001, o Mallam Mohammed Yusuf tornou-se líder do movimento, que passou a se chamar Boko Haram. Entre os anos de 1999 e 2001, doze estados nigerianos adotaram a Lei Sharia, contudo, sua adoção não foi tão rígida quanto desejara Yusuf, que iniciou radicalização do grupo e aproximação a movimentos estrangeiros como a Al-Qaeda.

Boko Haram attack in Jos. Photo: Carmen McCain / Creative Commons / Flickr

Boko Haram attack in Jos. Photo: Carmen McCain / Creative Commons / Flickr

É importante explicar o papel de Yusuf no processo de expansão do grupo, relacionando-o com o que vimos no segundo artigo desta série. Yusuf era mestre e muito popular na Mesquita Indimi, em Maidiguri, capital do estado de Borno. De acordo com investigação feita pelo governo nigeriano, a maior parte dos seguidores de Yusuf eram jovens analfabetos e de baixa renda, desacreditados do governo e na capacidade do sistema educacional gerar benefício financeiro no futuro.

O artigo anterior falou sobre manipulação de identidades étnicas ou religiosas no pós independência – de como a luta por recursos financeiros e poder político manipulou sentimentos identitários, jogando etnias e religiões umas contras as outras. O discurso de Yusuf, de que o Estado moderno era subversivo à religião muçulmana, foi exatamente mais bem aceito por aqueles que o sistema marginalizou. Entre os que mais acreditaram que o Estado Moderno e secular violava o Islã, estavam, não coincidentemente, os mais excluídos econômica, social e politicamente na Nigéria.

Foi nesse contexto que Yusuf expandiu a influência do Boko Haram para outros estados do norte da Nigéria, como Yobe e Bauchi. Acredita-se que em 2004, os líderes do grupo aproximaram-se do grupo na Argélia atualmente conhecido como Al-Qaeda no Magreb Islâmico (do inglês Al-Qaeda in Islamic Magreb). O AQIM treinou membros do Boko Haram em técnicas de combate utilizadas pela Al-Qaeda e em construção e manuseamento de Equipamentos Explosivos Improvisados (do inglês Improvised Explosive Devices). IEDs são bombas ou outros equipamentos de destruição caseiros de baixo custo de confecção e com alta capacidade destrutiva.

Em 2005, o governo nigeriano realizou a Operação Serragem (Operation Sawdust), que prendeu diversos acusados de fundamentalismo no norte da Nigéria, incluindo Yusuf. Apesar de ter tido seu principal líder preso, o grupo não encerrou suas atividades (até então pequenos conflitos com policiais locais) e Yusuf foi solto em 2007 após troca na presidência do país.

Em 2009, o Boko Haram realizou seus primeiros grandes ataques, que começaram em Bauchi e chegaram até Maiduguri. Tais ataques desencadearam forte repressão das autoridades nigerianas, que prenderam centenas de pessoas, incluindo Yusuf. O ex-líder foi morto apenas horas depois da captura. Apesar desta forte repressão aos ataques de 2009, o Boko Haram parece ter apenas se fortalecido. A cada ano o grupo comete ataques cada vez mais violentos e repulsivos.

Em abril 2014, o grupo sequestrou 200 alunas da escola secundária de Chiboko, 130 km a oeste de Maiduguri. Apesar de ter gerado grande comoção, pouco foi feito para trazer de volta as meninas sequestradas. Em novembro, líderes do Boko Haram anunciaram que elas haviam sido convertidas ao Islã e se tornado esposas de militantes jihadistas. Em janeiro de 2015, o Boko Haram atacou a cidade de Baga, matando mais de 2 mil pessoas. Ainda, nos dias que se seguiram, o grupo realizou consecutivos atentados, desafiando o governo nigeriano e causando pânico na população.

O atual líder do grupo, Abubakar Shekau, é tido como o principal responsável pela escalada da brutalidade nos atentados e aumento do fanatismo religioso. Shekau também melhor equipou seus combatentes, que agora dispõem de armas como fuzis AK47, bombas de petróleo e IEDs, além de pickups Toyota Hilux. Tal arsenal levanta questionamentos sobre as origens dos fundos do Boko Haram.

Apesar de não haver provas concretas, o principal suspeito é a rede terrorista Al-Qaeda, além de sequestros e atividades no mercado negro. Contudo, os laços criados na época de Yusuf, as atuais táticas de ataque do Boko Haram e a modernidade de seu arsenal de guerra, levam a crer que maior parte do financiamento venha mesmo da Al-Qaeda.

Após entender a conjuntura que possibilitou surgimento do grupo, bem como condições favoráveis a sua expansão, podemos entender a dificuldade do governo nigeriano em combater o Boko Haram. O grupo dispõe de excelentes equipamentos e utiliza táticas de combate sem qualquer respeito pela vida humana. Ademais, também opera em um contexto que propicia constante recrutamento de novos membros, garantindo a renovação do grupo. Dessa forma, o governo precisa agir em duas frentes distintas.

Medidas de curto prazo para reprimir atos terroristas são cruciais, bem como faz-se necessária ajuda de outros Estados, em especial Chade, Níger e Camarões. O governo nigeriano claramente não encontra-se equipado e treinado para lidar com o Boko Haram, necessitando assim, de suporte financeiro de países desenvolvidos e colaboração militar de seus vizinhos. Além de medidas emergenciais, são necessárias também formas de reduzir e aniquilar o recrutamento de novos membros para o grupo, uma vez que execuções e prisões de membros no passado não levou ao fim do Boko Haram.

Região de baixo desenvolvimento econômico, o norte da Nigéria possui 70% de sua população vivendo com menos de 1 dólar por dia. O último censo no país, em 2010, indica que a região possui também maior índice de analfabestimo, com o estado de Yobe (uma das bases do Boko Haram) tendo apenas 61,9% de sua população alfabetizada. Relacionando estes dados à discussão sobre maior influência do Boko Haram em jovens analfabetos, percebemos como o cenário conspira a favor da perpetuação do grupo terrorista.

Dessa forma, também é crucial garantir, por meio de políticas de inclusão social, que a nova geração não sucumba à propaganda radical do Boko Haram. O grupo foi formado devido a um fanatismo religioso, contudo, este só teve espaço para crescer devido à sistemática marginalização da população de uma região e religião (majoritariamente muçulmana). Em uma Nigéria que crescia rapidamente devido aos lucros do petróleo, desigualdades tornaram-se latentes e tornou-se mais fácil manipular ressentimentos. Eleições presidenciais, marcadas para dia 14 de fevereiro, foram adiadas para o final de março sob ameaças de atentados do Boko Haram. Contudo, o atual presidente Goodluck Jonathan possui total interesse em conseguir mais tempo para “mostrar serviço”, uma vez que busca a reeleição. Nos resta aguardar quais serão as medidas adotadas por Jonathan para conter o grupo.

Goodluck Jonathan, quando era governador de Bayelsa. Foto: International Institute of Agriculture / Creative Commons / Flickr

Goodluck Jonathan, quando era governador de Bayelsa. Foto: International Institute of Agriculture / Creative Commons / Flickr

O caso nigeriano requere esforços que unem políticas de segurança a desenvolvimento social e integração econômica. Em muitos outros lugares do mundo, o mesmo é observado. No Brasil, por exemplo, jovens se juntam ao crime por falta de perspectiva econômica. Políticas sociais (termo quase pejorativo atualmente) não significam proteção a criminosos, mas sim tentativa de garantir a realização de um direito e consequentemente impedir que as novas gerações precisem recorrer ao crime para sobreviver. Tal qual o Brasil, o governo nigeriano precisa compreender que nem todo poderio militar do mundo será capaz de acabar com o Boko Haram, caso não sejam adotadas medidas de desincentivos para adesão de novos membros.

[1] Mallam, http://www.oxforddictionaries.com/us/definition/english/mallam em Hausa, refere-se a um título honorário dado, em geral, a acadêmicos.

8 Responses to Boko Haram: terror e manipulação do Islã

  1. Fernando Henrique Araujo de Campos disse:

    Excelente seu texto( vou ler as duas primeiras partes da sequencia agora). Nao sou especialista em nada, vim apenas palpitar porque me interesso sobre o assunto. Então, só uma pergunta: vc disse que a miséria influencia, e concordo com isso, mas as pessoas que eles matam não são tão ou mais miseráveis que os terroristas tambem?

  2. Gilcimar de Macêdo Negreiros disse:

    Análise interessante, embora sob ótica distorcida!

    Pergunta: Quando e onde ações de cunho social suplantaram os dogmas religiosos (não falo em imposição)? Em qual “planeta” um radical islâmico deixará suas convicções por uma “bolsa-qualquer-coisa”?

    A autora, no final, sugere que a inclusão social e grana (“políticas de segurança a desenvolvimento social e integração econômica”) irão fazer um grupo radical islâmico recuar. Quer dizer que o universo dos problemas daquelas pessoas se restringe à falta de dinheiro? Bem, então explica os loucos endinheirados (Arábia Saudita e seus pares) que financiam esses loucos?

    O problema está, desculpe a franqueza, na prática islâmica que não permite a coexistência de grupos divergentes quando estão sob a SHARIA! Pode até ser que o ISLAMISMO não seja o PROBLEMA, mas ISLAMIZAÇÃO de uma sociedade certamente o é.

    • Vivian Alt disse:

      Gilcimar, em nenhum momento no texto eu disse que inclusão era a única solução para conter o grupo. O texto afirma que políticas de inclusão são necessárias para reduzir recrutamento de novos membros e no parágrafo anterior a esse eu falo sobre a importância de políticas de segurança para impedir novos ataques do grupo.

      Arábia Saudita é um caso diferente. Analisar o caso do Boko Haram comparando Nigéria com Arábia Saudita é a mesma coisa que analisar falhas em políticas de segurança pública comparando o Brasil com a Dinamarca…dois países de cultura diferente e em estágios distintos de desenvolvimento econômico e social. Logo, as origens do problema são completamente diferentes.

      A ideia de analisar a fundo a Nigéria é justamente mostrar que por mais clichê e dispendioso que seja, cada caso é um caso e, portanto, exige políticas específicas. Políticas generalistas (oriundas de comparações como essa com a Arábia Saudita) são tentativas de apresentar uma solução sem se dar trabalho de entender o problema.

    • Leonardo disse:

      Pelo que entendi, o texto não explica o crescimento do Boko Haram somente pela exclusão social, mas mostra que há correlação entre as duas coisas. Jovens sem perspectiva são sempre presas fáceis para ideologias redentoras. O Boko Haram deu novo sentido à vida de seus adeptos, não por acaso, majoritariamente pobres. Via de regra, quem não é tratado como cidadão é mais propenso a aceitar críticas a “tudo que está aí”, sobretudo se for convencido de que Deus está a seu lado.

      Não quero dizer que pessoas bem educadas e ricas não possam se tornar fundamentalistas. Há fundamentalistas em todas as religiões e classes sociais. O uso da violência como tentativa de imposição de um modo de vida (e de uma proposta para organização da sociedade) é, para mim, o maior problema. Em uma democracia sólida, esse tipo de excesso é normalmente freado por embates na arena política. Não é o caso da Nigéria.

      Afirmar que a “prática islâmica não permite a coexistência de grupos divergentes” é esquecer a história. Basta lembrar que cristãos e judeus conviveram com muçulmanos por séculos no Norte da África e na Península Ibérica. Não que tivessem sempre vida fácil, mas não são poucos os casos de importantes figuras não-muçulmanas nessas sociedades. Se não me engano, foi o Ocidente que sistematizou a perseguição aos judeus. A Santa Inquisição serve de lembrança.

      O texto foi o melhor apanhado do histórico da atuação do Boko Haram que já li em português. Concordo com a conclusão. Há lições para o Brasil. A exclusão (social, política, cultural etc) explica parte do alto nível de violência no nosso país. E, assim como o fundamentalismo religioso na Nigéria, a violência no Brasil não pode ser combatida somente com repressão.

  3. Mauricio Rezende disse:

    Não diria que o fator é a exclusão e sim não conseguir suprir todos os anseios da sociedade, isso gera ódio e cria psicopatas, mas não se justifica se combate.

  4. Roland Scialom disse:

    Bom artigo que vem lembrar o que vem se passando. Eu defino a atividade de Boko Haram como um banditismo dos mais violentos e crueis travestido de cruzada religiosa. É o cenário de Heart Of Darkness de Conrad que se instala. Não são mais colonialistas que impõem sua vontade de forma violenta e cruel sobre os nativos, mas bandidos originários dos mesmos nativos.
    Poucos, no mundo, estão ligados nas condições de vida e situação social das populações onde este cenário se desenvolve. Enquanto o mundo civilizado não se sentir muito incomodado com as atividades desse banditismo, as vitimas infelizes deste ultimo sofrerão o martírio. Aparentemente, pouca gente no mundo civilizado se sente incomodado.

  5. Ricardo Pereira disse:

    Otimo texto. Somente uma correçao obvia: AK47 sao metralhadores ou fusis, nao pistolas.

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