Direitos Humanos As origens do Boko Haram: derrubando mitos
T-55A Nigeriano. Foto: K. Aksoy / Creative Commons / Flickr

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As origens do Boko Haram: derrubando mitos

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Porque a crise na Nigéria não é “mais um conflito africano”; entenda o surgimento do grupo extremista.

Além de serem frequentemente banalizados, atos violentos na África são em geral classificados da mesma forma: conflitos étnicos. Poucos preocupam-se em entender as reais origens de cada conflito no continente, perdendo dessa forma, a chance de solucioná-los. Assim como é difícil dar uma resposta quando não se sabe a pergunta, também é difícil encontrar uma solução quando não se sabe o problema. Dando continuidade ao texto que comparou a atenção dada aos atentados em Paris e Baga, voltaremos no tempo, olhando criticamente para a história da Nigéria e identificando nela elementos que contribuíram para o surgimento do Boko Haram.

Tida como exemplo de Estado dividido, a Nigéria possui quadro social complexo no qual diversos grupos lutam por poder político e econômico, muitas vezes de forma violenta. Tais divisões, vale ressaltar, vão muito além de divergências étnicas e religiosas, tendo raízes históricas (de antes e durante a colonização) onde tais grupos se alternavam no poder. A história da Nigéria faz cair mitos sobre o papel da diversidade étnica no processo de descolonização africano, tidos usualmente como responsáveis por guerras no continente.

Conflitos na África são em geral atribuídos às divisões territoriais feitas por países europeus durante a época da colonização. Em muitos Estados de fato tais divisões juntaram então tribos inimigas, levando a tensões e conflitos armados. Oprimidos por décadas pelas elites colonizadoras, grupos excluídos durante a colonização viram na época de independência sua primeira chance de chegar ao poder. Contudo, apesar de em muitos países o processo de independência ter sido catalisador de conflitos internos, atribuir à diversidade étnica de cada Estado as hostilidades que sucederam é generalista.

Na Tanzânia, por exemplo, onde existem mais de 120 tribos diferentes, não houve embates tribais e o país permanece pacífico até hoje. O primeiro presidente, Julius Nyerere, desenvolveu ambicioso projeto de unificação nacional que, apesar de ter acarretado problemas no sistema de saúde e educação do país, foi bem sucedido em desenvolver sentimento de identidade nacional entre a população. Ruanda, ao contrário, com número de etnias consideravelmente inferior, testemunhou um dos maiores genocídios da história da humanidade. Em Ruanda, bem como na Nigéria, o pós-independência ao invés de incentivar união entre diferentes grupos, manipulou identidades étnicas e religiosas de forma a criar animosidades entre elas.

Adoração a Julius Nyerere. Foto: nukta77 / Creative Commons / Flickr

Adoração a Julius Nyerere. Foto: nukta77 / Creative Commons / Flickr

Caem assim os primeiros mitos. O primeiro se refere a relação de causa e efeito entre o alto número de tribos e forte tendência a conflitos internos. O segundo está relacionado à falsa ideia de que hostilidades entre tais grupos são oriundas unicamente de divergências religiosas e étnicas. O tipo de relação com a metrópole, além dos recursos naturais de cada país também contribuíram significativamente para eclosão e proporção dos conflitos no pós-independência. No entanto, nenhum desses elementos sozinhos podem ser tidos como responsávis pelas guerras na África. A mistura de elementos étnicos e religiosos, o quadro político e econômico além de relações com a metrópole foi determinante para um pós-independência conflituoso ou pacífico.

Leia também:
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Após derrubar tais mitos, podemos iniciar análise sobre como a história da Nigéria influenciou o surgimento do Boko Haram. Ex-colônia inglesa, o país alcançou sua independência pacificamente em 1960. Apesar disso, divisões internas (tanto pré-existentes à colonização quanto as exacerbadas neste período) levaram a um golpe de Estado em 1966 e posterior instauração de regime autoritário. Nas décadas subsequentes, o país observou enorme instabilidade política: sucessivos golpes de Estado, movimento separatista que formou Estado independente conhecido como República da Biafra, e ausência de continuidade de governos democraticamente eleitos até 1999.

As divisões internas previamente citadas ajudam explicar tantas décadas de conflitos e instabilidades. A Nigéria possui três principais etnias que juntam representam mais 50% da população da Nigéria: Hausa-Fulani no norte, Yoruba no sudoeste e Igbo no sudeste. Tais maiorias étnicas, no entanto, dividem-se em mais de 347 tribos. Em termos de religião, 50% da população é mulçumana, 40% cristã e 10% de outras religiões, em geral de origem tribal.

Festival de Olojo em Lfe. Foto: Juju Films / Creative Commons / Flickr

Festival de Olojo em Lfe. Foto: Juju Films / Creative Commons / Flickr

Considerando identidade como sentimento de pertencimento a um grupo, seja este religioso, étnico, político, econômico, ou cultural, pode-se afirmar que na Nigéria formação da identidade é algo bastante complexo. Um exemplo é o norte do país, onde muitos identificam-se mais como muçulmanos do que com sua etnia tribal de origem.

Essa complexidade de identidades por si só não levou a um Estado Dividido e consequentemente violento. A interconectividade das identidades só explica hostilidades e violência entre diferentes grupos quando combinada a reivindicações territoriais, competição por controle de recursos naturais, participação política, acesso a oportunidades de negócios e desenvolvimento infra estrutural de determinadas regiões por alguns grupos.

Citando novamente o norte do país, percebe-se que a maioria dos habitantes dessa região além de se identificarem mais como muçulmanos foram também negligenciados política e economicamente durante décadas. Outro exemplo histórico foi a guerra civil, conhecida também como Guerra da Biafra, ocorrida entre 1967 e 1970. Grupos majoritariamente da etnia Igbo declararam independência devido a frustrações relacionadas a reduzida inserção econômica da região no país, falta de poder no exército nacional e no governo instaurado após a independência, além divergências de origem religiosa e étnica.

E é assim que chegamos ao Boko Haram. Durante décadas, grupos de diferentes etnias mas de religião muçulmana do norte da Nigéria, foram sistematicamente marginalizados política, social e economicamente. Aproveitando-se do sentimento de abandono do governo central nigeriano para com estes grupos, o Boko Haram surgiu com objetivo de tornar a Nigéria uma república islâmica. Tal islamização, segundo os planos, ocorreria com a instauração da Lei Sharia, sendo forma de compensar muçulmanos pelas décadas de esquecimento e exclusão.

Apesar de tal bandeira de união dos muçulmanos e inclusão dos mesmos na sociedade nigeriana, sabe-se que a intenção de estabelecer a Lei Sharia pouco têm a ver com solidariedade religiosa, mas sim com busca pelo poder dos integrantes do grupo terrorista. Não que se houvesse tal solidariedade haveria justificativa para os atos de terror cometidos. No entanto, é crucial ressaltar que o extremismo usado pelo grupo em nome do Islã não é apoiado pela maioria dos muçulmanos, que também não concordam com as medidas de total des-secularização da Nigéria propostas pelo Boko Haram.

No próximo e último artigo da série sobre o Boko Haram, o Politike analisará os primeiros anos de atividade do grupo terrorista e a luta do governo nigeriano em contê-lo. Veremos em detalhes como as táticas utilizadas o aproximam da rede terrorista Al-Qaeda, de onde vem o financiamento para perpetuação da violência e quais as possíveis soluções a crise.

17 Responses to As origens do Boko Haram: derrubando mitos

  1. Jose disse:

    Bem , entendi os vossos comentarios .mas por k é k o boko haram recore aos massacres para atingir os seus objectivos ?

  2. Daniel disse:

    Estou fazendo um trabalho sobre o Boko Haram e me interessei muito pelo que tu escrevestes, mas não estou encontrando os demais artigos da série. Onde os encontro?

  3. […] As origens do Boko Haram: derrubando mitos […]

  4. Zé Corvo disse:

    O sr Leonardo colocou pontos Importantes. Creio que muitos dos conflitos na África foram incentivados pelos colonialistas e atualmente por EUA/OTAN e aliados usando a velha tática “divida e conquiste”. O tio Sam, desde o início dos anos 80, usa o chamado extremismo islâmico através de jihadistas que professam o wahhabismo, seita islamo-fascista praticada pela Casa de Saud da Arábia Saudita aliadíssima dos EUA para fazer as suas guerras por procuração- proxy war. A Arábia Saudita financia clérigos e mesquitas wahhabis pelo mundo que são monitoradas por agências de inteligência ocidentais, recrutam jovens que vão ás mesquitas , desempregados,pobres e sem perspectiva e fazem uma “lavagem cerebral” neles. O processo é semelhante e daí surgem os Boko Haram, EI/ ISIS/ DAESH, al-Qaeda, Tudo começou nos anos 80,para expulsar a ex-União Soviética do Afeganistão criou-se o Talibã, financiado, armado e treinado pelo Tio Sam e ideologicamente pela Arábia Saudita, Bin Laden foi agente da CIA, depois estes monstros criados avançam e se voltam contra os seus criadores ( Tio Sam). Os jihadistas acabam sendomos verdadeiros coturnos em solo dos EUA/OTAN. Voltando à Nigéria, cui bono? quem se beneficia com monstros como o Boko Haram ? A Nigéria é rica em petróleo, a sua desestabilização- que interessa a EUA/OTAN- pelo Boko Haram , financiado pelo aliado a tio Sam pelos petrodólares :Arábia Saudita. As monstruosidades provocadas pelos jihadistas fanáticos será uma boa desculpa para uma intevenção ( mais uma!) pelo tio Sam e aliados, haverá mais uma ” guerra ao terror”, coloca-se para governar a Nigéria um fantoche do Tio Sam, mesmo com o país em guerra permanente ao terror os recursos petrolíferos ficam nas mão de tio Sam e seus amigos Foi assim no Kosovo, Iraque, Afeganistão ( tem riqueza mineral, as chamadas “terras raras”), Líbia e agora Síria e Iraque ( ISIS, é criação de tio Sam)

  5. alex cauchi disse:

    interessante agora bom não confundir com aquela foto da missa que não estão adorando a foto não.

  6. Priscila disse:

    Eu acrescentaria algo muito importante; os catolicos nigerianos controlam o #petroleo. Ha familias catolicas riquissimas que mandam filhos estudarem em boarding schools nos EUA e na Inglaterra, em geral fazem faculdade la, moram la, mas alguns vem ser politicos na Nigeria- embora familia toda mora no exterior.

  7. Raiz Africana disse:

    […] Fonte: Carta Capital […]

  8. Luciano de Aguiar disse:

    Ótimo texto. Além de esclarecedor, faz pensar.

    É angustiante ver em tempos pós-modernos o surgimento e progresso de grupos sociais com identidade religiosa fundamentada na exterminação de quem não lhes pertence, utilizando execuções e torturas com requintes de crueldade.

  9. Bárbara disse:

    Artigo esclarecedor. Aguardo o próximo e último. Obrigada!

  10. Débora disse:

    Fantástico e esclarecedor. Obrigada.

  11. Leonardo disse:

    O artigo começou bem ao desfazer a automática atribuição das guerras da África à diversidade étnica. Concordo com a afirmação de que “A interconectividade das identidades só explica hostilidades e violência entre diferentes grupos quando combinada a reivindicações territoriais, competição por controle de recursos naturais, participação política, acesso a oportunidades de negócios e desenvolvimento infra estrutural de determinadas regiões por alguns grupos”. No caso nigeriano, essas reivindicações estiveram por trás da Guerra de Biafra, dos conflitos na região do Delta do Niger (região ainda tensa) e mesmo de disputas entre cristãos e muçulmanos na cidade de Jos (que misturam conflito por terra, com diferenças étnicas e religiosas).

    O Boko Haram, no entanto, vai além de reivindicações por recursos e por participação política. Tampouco se alimenta somente da exclusão social de alguns grupos do Norte da Nigéria. O fundamentalismo religioso é a principal marca do Boko Haram. Mohammed Yusuf, ex-líder da seita, inspirou-se nos ensinamentos de Ibd Taymiyya, teórico do século XIV que buscava a “pureza” do islamismo. A busca pelo poder associa-se à busca pela purificação do islamismo, que, na Nigéria, convive com práticas de religiões africanas, como o jogo de búzios.

    Os seguidores do Boko Haram acreditam que o comportamento de grande parte dos muçulmanos nigerianos desvia-se do adequado. Para consertar esse comportamente, estão dispostos a usar a força, em nome de Deus. Não foram poucos os ataques, por exemplo, a estabelecimentos que vendem bebidas alcoólicas. Mesmo a aplicação da sharia (já há algum tempo adotada por muitos estados do Norte) é vista como leve demais. Os fundamentalistas defendem maior rigor na aplicação da sharia e a eliminação de qualquer código legal não-islâmico. A luta do Boko Haram não é somente contra a educação ocidental; é também contra o islamismo atuamente praticado na Nigéria.

    Os contextos social, político e étnico da Nigéria explicam somente parte do problema do crescimento do Boko Haram. Tão ou mais importante é a questão religiosa. É pela interpretação fundamentalista do islamismo que o grupo recruta novos adeptos. O fundamentalismo fornece instrumento de reflexão sobre a vida, além de propor regras de comportamento “puro” e algo próximo a um modelo alternativo de organização social. E, como sempre, quem mais paga pelo fundamentalismo são os muçulmanos moderados.

    *o artigo fala da “permanência de governos democraticamente eleitos até 1999”. A democracia não foi restaurada na Nigéria em 99?

    • Alfredo disse:

      Muito bem observado Leonardo. Contudo, a autora menciona sim o extremismo religioso do Boko Haram, talvez não com a profundidade que você gostaria por faltar espaço ou por ser uma das vertentes já muito exploradas em outros artigos. Ao menos você teve a oportunidade de expor o seu eloquente comentário, que também foi muito informativo. Vamos esperar a finalização no próximo artigo da Vivían.

      • Leonardo disse:

        Obrigado, Alfredo. Quis dizer que o Boko Haram não quer só chegar ao poder para se apoderar de recursos materiais. Entendo que a agenda religiosa seja sua principal motivação. O resto (pobreza, corrupção, fragilidades institucionais nigerianas etc) ajudam a explicar seu crescimento, mas não seus objetivos.
        Desculpe continuar a discussão, mas o tema mexe comigo. Conheço gente que morreu em um de seus ataques. Poderia ter sido eu.

        • Vivian Alt disse:

          Oi Leonardo, obrigada pelos comentários. É sempre bom debater com quem entende bem do assunto. A idéia do blog é justamente promover discussões de qualidade e eu gostei muito das sua observações e críticas.

          Acho que não fui clara na parte em que falei sobre solidariedade religiosa e busca pelo poder. Quando escrevi a palavra poder em nenhum momento estava me referindo unicamente a poder econômico (não que este não seja também um interesse deles, afinal poder econômico leva a maior influência em outras esferas).

          Sobre a parte de solidariedade religiosa me referia justamente ao que você criticou: o grupo não surgiu porque queria uma melhora de vida e maior participação econômica para seus companheiros de religião (desculpe o uso do termo companheiros, foi na ausência de algo mais adequeado). Ao contrário, o que o grupo deseja é total rigidez religiosa no país e essa agenda não condiz com o que a maioria dos muçulmanos desejam.

          Isso não foi desenvolvido porque não tive espaço nesse texto (afinal, trata-se de um Blog e não um texto acadêmico) e deixei essa explicação para o próximo. Pretendo falar exatamente desse momento de insurgência do Boko Haram, inclusive mencionando como o próprio nome do grupo significa uma repulsa aos ensinamentos “estrangeiros” (num sentido bem amplo…tanto de ocidentais, mas também de não muçulmanos).

          Foi bom ver seus comentários porque muitas vezes queremos escrever alguma coisa e não conseguimos expressar exatamente o que pensamos. Achamos que algo está claro, mas na realidade leva a uma interpretação ambígua. Explicarei melhor e com maiores detalhes isso no próximo texto para que não haja possibilidades de duplas interpretações.

          Quanto ao ‘ps’ no final, foi um erro na hora de editar. Comecei escrevendo uma frase, vi que ficou ruim e mudei. No final, acabou ficando a palavra permanência, quando eu queria ter escrito ausência…mas já foi corrigido. Obrigada por ressaltar isso.

          • Leonardo disse:

            Obrigado, Vivian. Pelo visto, pensamos de forma semelhante. Aguardo seu próximo texto.
            Parabéns por se interessar pelo tema e fugir de clichês. Não vi nada na imprensa brasileira do nível de seu texto.

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