Carrossel, Política A Rússia onde tudo é possível e nada é o que parece
Vladimir Putin, presidente da Rússia. Foto: Kremlin / Creative Commons / Flickr

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A Rússia onde tudo é possível e nada é o que parece

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Livro de Peter Pomerantsev ajuda a compreender as transformações e a distribuição de poder no país após os anos 1990

Por Gabriel Bonis

Na imagem, Vladimir Putin, presidente da Rússia. Foto: Kremlin / Creative Commons / Flickr

No início dos anos 1990, Moscou era uma “triste” cidade “satélite” nas bordas da Europa. A cidade consumia as últimas brasas do Império Soviético. Então, no século XXI algo aconteceu: dinheiro. Muito dinheiro. A metrópole mudou, arranha-céus multiplicaram-se rapidamente e os russos tornaram-se os novos ricos (e esbanjadores) do continente. Na capital, bilionários nasciam em um piscar de olhos. Em pouco tempo, os sistema transmutou-se do comunismo para um Estado mafioso. Essas rápidas transformações deixaram muitos russos com a impressão de que “a vida é só um disfarce” em que “cada papel e posição ou convicção é mutável”.

É mais ou menos assim que o jornalista Peter Pomerantsev, nascido na Kiev soviética dos anos 1970 e criado no Reino Unido, resume a Rússia moderna no início de Nothing Is True and Everything Is Possible: The Surreal Heart of the New Russia (Nada é verdade e tudo é possível: O coração surreal da Nova Rússia, em tradução literal). Publicado no fim de 2014 (ainda sem tradução para o português), o livro ajuda a entender a ascensão do país sob Vladimir Putin, os privilégios econômicos concedidos a oligarcas aliados do governo, a relação dos russos com o capitalismo e as dinâmicas internas de poder.

Pomerantsev mudou-se para a Rússia no inicio dos anos 2000 para trabalhar como produtor de programas de televisão, realizando diversos documentários e reality shows. No livro, indicado ao Guardian First Book Award de 2015, ele narra os bastidores do poder no país em quase uma década vivendo em Moscou. Aparecem desde cursos que ensinam jovens russas (muitas delas de origem humilde) a fisgarem um “Forbes”, maneira como se referem aos milionários que tentam conquistar para obter uma vida de luxos, a como gangsters tornaram-se estrelas de cinema e literatura sob a imagem do homem russo destemido, até estratégias utilizadas pelo Kremlin – o centro do poder e do governo da Rússia – para controlar o país e forjar a ilusão de uma democracia plena.

O autor conta como, após o colapso da União Soviética, um sistema político foi criado para parecer regular, com eleições, diversos partidos e impressa livre, ao mesmo tempo em que servia apenas como fachada: as eleições, diz ele, são fraudadas, os partidos (mesmo os oposicionistas) surgem com o consentimento e sob o controle do presidente para gerar uma suposta pluralidade, e a mídia faz exatamente o que os seus donos são instruídos pelo Kremlin – onde muitos deles têm conexões diretas.

Como exemplo dessa realidade construída, o livro cita o grupo de mídia SNOB, que engloba canais de televisão, revistas e forte presença online. Seria uma iniciativa para divulgar uma sociedade russa mais voltada a valores ocidentais e liberais, financiada por um dos homens mais ricos do país, o bilionário Mikhail Prokhorov. Os editores falavam um inglês perfeito e vocalizavam suas críticas ao regime, alguns deles até publicaram artigos atacando o presidente. Mas, conforme Pomerantsev nota, uma inciativa com tamanha exposição nunca seria possível sem a benção do Kremlin.

É um projeto que representa uma oposição administrada pela estrutura política, uma ferramenta para permitir aos liberais exporem suas opiniões, defende o autor. A existência de mídias como o SNOB permite ao Kremlin sustentar o argumento de diversidade na imprensa. Simultaneamente, o governo pode desqualificar o grupo como “hipsters moscovitas sem nenhuma conexão com a realidade dos russos comuns”. Pomerantsev, que prestou consultorias para o SNOB, destaca nunca ter visto a empresa realizar um jornalismo investigativo que de fato comprometesse o Kremlin. O mesmo acontecia em outros grupos de mídia. Em certo momento, um dos canais para os quais Pomerantsev produzia documentários e reality shows limitava as histórias apenas a narrativas positivas.

Segundo Pomerantsev, outro exemplo de construção no sistema são os partidos de oposição. Eles geralmente possuem líderes “cômicos” financiados e criados de maneira a fortalecerem o Kremlin. Quando integrantes de partidos comunistas e nacionalistas trocam socos em programas de televisão, Putin e seus aliados sãos os únicos políticos que parecem razoáveis.

O livro ainda narra esquemas de pressão contra empresários, com o governo criando regulações e manobras para prendê-los sob acusações simplórias ou por impostos que eles não devem. Em muitos casos, companhias foram transferidas para outros indivíduos após documentos de propriedade serem roubados em buscas de apreensão comandadas pelas autoridades. Um dos casos de maior destaque foi o de Yana Yakovleva, abruptamente detida por comercializar substâncias químicas vendidas legalmente por sua empresa há anos, mas que foram proibidas da noite para o dia. Yakovleva foi acusada de tráfico de drogas retroativamente por uma lei que sequer existia meses antes de sua prisão.

Yakovleva, Pomerantsev descreve, foi uma das vítimas de uma briga de poder entre dois homens fortes do Kremlin que, ao tentarem impressionar o presidente, sabotaram-se mutualmente criado manobras como as que atingiram a empresária. Yakovleva passou meses presa porque se recusou a pagar propina para ser libertada. Ela conseguiu provar sua inocência nos tribunais em grande parte devido a campanhas nacionais e internacionais pedindo sua libertação.

Embora tenha sido publicado há quase três anos, Nothing Is True and Everything Is Possible não deixa de ser atual e um esforço interessante para decifrar uma Rússia em busca de uma nova identidade e assertividade internacional.

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