Direitos Humanos Como o preconceito exclui pessoas com deficiência

Direitos Humanos

Como o preconceito exclui pessoas com deficiência

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on TumblrShare on Google+Share on LinkedInEmail this to someonePrint this page

Ausência de políticas públicas e rejeição familiar violam direitos humanos

Em fevereiro de 2015, o mundo conheceu a história de Leo, o recém-nascido portador de Síndrome de Down na Armênia que foi rejeitado pela mãe após o parto.  O pai se recusou a abandona-lo e a mãe pediu o divórcio. A história foi divulgada no Brasil pelo senador Romário Faria, um dos principais ativistas pela inclusão de pessoas com deficiência no País. Em novembro de 2014, um episódio ainda mais dramático chegou aos noticiários mundiais: crianças em uma instituição pública para pessoas com deficiência na Grécia eram mantidas trancafiadas em jaulas. Jaulas, como se fossem animais! Essa sequência de acontecimentos em países europeus colocou em pauta uma questão de enorme importância que, contudo, é frequentemente esquecida: a proteção de direitos humanos de pessoas com deficiência.

Recapitulando visões sobre deficiência

Durante séculos, mesmo em países desenvolvidos, a deficiência era vista como algo degradante e motivo de vergonha. Em 1913, o Reino Unido aprovou uma lei conhecida como Ato de Incapacidade Mental, que autorizava que pessoas com problemas mentais fossem mantidas em instituições questionáveis. O Ato resultou na internação de mais de 40 mil homens e mulheres. Na Alemanha Nazista, Hitler pregou o extermínio não somente de judeus, como também de pessoas com deficiência. Até a década de 1970 na Europa e Estados Unidos, a deficiência era vista como problema (impairment, em inglês) físico ou mental. Esta visão é conhecida atualmente como o “Modelo Médico” (Medical Model), que significa, por exemplo, que se uma pessoa é surda, sua deficiência é a surdez.

Em 1975, o Modelo Médico foi questionado pelo movimento inglês Union of the Physically Impaired Against Segregation (UPIAS), cujo objetivo era mudar o pensamento da sociedade britânica sobre deficiência. O UPIAS propôs uma diferenciação entre os termos impairment e disability, argumentando que o primeiro é “falta ou falha de um membro, órgão ou mecanismo do corpo humano” e disability (deficiência) é a “restrição em uma atividade causada por organizações contemporâneas que não levam em consideração pessoas com problemas físicos ou mentais e, assim, os excluem da vida social”.

Esta definição ficou conhecida como o “Modelo Social de Deficiência” e tornou-se a forma oficial de abordar o assunto no Reino Unido e, posteriormente, em outros países desenvolvidos. O Modelo Social gerou uma série de políticas e projetos que tinham como principal objetivo melhorar provisão de serviços públicos sociais. Apesar de ter sido uma evolução, atualmente o modelo é criticado por focar exclusivamente na parte social de inclusão, deixando de lado aspectos importantes como programas de prevenção e reabilitação.

Tais críticas levaram ao desenvolvimento de abordagens mais multidimensionais, nas quais a deficiência é vista como o mal infligido às capacidades dos indivíduos, resultantes de restrições do ambiente social e de problemas oriundos de seu impairment. Essa visão abre espaço para programas e políticas públicas mais humanas, que priorizem não apenas as necessidades do grupo como um todo, mas também atentam para o preconceito e outras necessidades do dia-a-dia provocadas por cada impairment. Deve-se notar que em português, assim como em muitas línguas, ainda não há diferença entre deficiência e impairment.

Tily adora nadar. Foto: Andreas Photography / Creative Commons / Flickr

Tily adora nadar. Foto: Andreas Photography / Creative Commons / Flickr

O papel do preconceito na vida de pessoas com deficiência

Em muitos países em desenvolvimento, deficiências são encaradas como algo vergonhoso, como uma maldição ou até mesmo uma punição de Deus. É comum pessoas esconderem familiares com deficiência em casa, impedindo-os de ter uma vida em sociedade. De acordo com o especialista Modjeh Bayat, “na maioria dos países africanos, crianças com deficiência são praticamente invisíveis na sociedade e existe pouca ou nenhuma informação oficial sobre elas”. Uma vez que muitas destas pessoas são mantidas em casa, não há dados confiáveis nem mesmo em Censos nacionais. Ou seja, quase nada se sabe sobre como vivem indivíduos com deficiência em muitos países.

Mesmo quando não há vergonha, existe um senso comum de que pessoas com deficiência são incapazes de viver uma vida normal. O problema começa porque, segundo a especialista Sarah Irwin, a “independência [financeira e social]é altamente valorizada, enquanto dependência é vista como algo bastante problemático”. Portanto, devido à falta de estrutura em países em desenvolvimento, pessoas com deficiência são altamente dependentes de suas famílias. Adultos que não são financeiramente independentes acabam normalmente marginalizados, reforçando o sentimento de vergonha e da noção de incapacidade.

Estas noções geram uma série de problemas. O primeiro é o impacto do preconceito na formação da personalidade de pessoas com deficiência. A vergonha da família acaba gerando um processo dialético, no qual a ideia de incapacidade (ou maldição) é internalizada pela pessoa. Tendo ouvido durante toda sua vida que são incapazes e um fardo aos familiares próximos, indivíduos com deficiência internalizam esse sentimento de inferioridade e, consequentemente, estão mais suscetíveis a problemas de baixa autoestima.

Atualmente, em muitos países da África e Ásia (ou em países europeus), o pior preconceito vem da própria família, que considera uma vergonha ter um parente com deficiência. A personalidade das crianças com deficiência, que contam com parentes adultos para quase tudo em seu cotidiano, é significativamente influenciada pelo preconceito destes parentes. Dado que crianças em seus primeiros anos de vida são altamente influenciadas pelo ambiente familiar, elas em geral desenvolvem baixa autoestima e questionam suas capacidades. Ademais, o preconceito contribui para que estas crianças não frequentem escolas, não recebam tratamento médico adequado (o que muitas vezes acaba piorando seu quadro médico) e gera um ciclo vicioso entre vergonha, sentimento de inferioridade e exclusão social.

Na Costa do Marfim, pais escondem crianças com deficiência em casa por acreditarem que “qualquer morte, doença ou desastre natural pode ocorrer por conta de uma maldição infligida naquela comunidade, resultado do espírito maléfico de seu filho”. Na Tanzânia em 2013, 70 crianças foram encontradas escondidas em casa por seus pais na região norte de Kilimajaro. Os pais confessaram que, por vergonha, as crianças eram trancadas desde o nascimento e seus movimentos eram restringidos para que vizinhos não soubessem de sua existência.

Em Uganda, Martha de 16 anos, abandonou a escola porque outras crianças recusavam-se a falar com ela e até mesmo a humilhavam por conta de sua deficiência visual. O comportamento dos alunos era incentivado por professores e familiares, que acreditavam que Martha era amaldiçoada. Portanto, estas crianças escutam durante grande parte de suas vidas que são incapazes ou amaldiçoadas. Logo, acabam reproduzindo esse sentimento em suas vidas, como Martha, que abandonou a escola.

O segundo problema é a ausência de políticas públicas específicas. Uma vez que há vergonha, não há incentivos da população para que o governo desenvolva programas sociais voltados a este grupo populacional. O resultado é visto em indicadores sociais: dois terços das crianças que estão hoje fora da escola em países em desenvolvimento possuem alguma deficiência. A situação é ainda mais problemática para meninas, que precisam lidar também com o preconceito de gênero.

Mesmo em casos menos extremos, pais ainda consideram que garantir a educação de filhos com deficiência não gera benefício, uma vez que não se crê que estes conseguirão arrumar emprego mesmo tendo frequentado a escola. Como educação é, em geral, tida como a única forma de se atingir independência financeira e dado que a maioria das pessoas com deficiência é dependente de parentes, as famílias tendem a acreditar que educar crianças com deficiência é inútil. Nota-se uma tentativa de reverter esse quadro por parte das próprias crianças. Em estudo conduzido em Ghana e na Tanzânia, crianças declararam querer estudar “para demonstrar capacidade e conquista numa sociedade que esnoba seu potencial”.

Nesse sentido, a educação é a chave para mudanças. Garantir educação para meninos e meninas com deficiência promove a noção de cidadania e um senso de compartilhamento de direitos com pessoas não deficientes. Da mesma forma que existe um ciclo vicioso entre preconceito e dependência, também pode haver um ente educação e autonomia. Como defendido pelo ganhador do Prêmio Nobel, Amartya Sen, promover educação de qualidade para crianças com deficiência é um mecanismo para garantir sua liberdade de viver uma vida autônoma, para ser visto por outras pessoas como iguais e para verem a eles próprios como cidadãos e indivíduos plenamente capazes.

14 Responses to Como o preconceito exclui pessoas com deficiência

  1. debora disse:

    Parabéns pelo texto! Pode me dizer em qual edição foi publicada está matéria?

  2. LUCAS ALVES disse:

    PARABÉNS vivia seu texto e muito bom

  3. Maria disse:

    Não é sempre que nos deparamos com abordagens de extrema importância como esta, cujo tema, infelizmente, é pouco abordado pela mídia nacional. Valeu a leitura!

  4. Cilene disse:

    Seu texto é claro muito fácil de se entender, algo que a sociedade insiste em não fazer há séculos. Tenho um irmão adulto com mania e esquizofrenia, talentoso, engraçado e criativo. Através dele, ampliei meus horizontes.
    As pessoas preconceituosas não aceitam um ser que não gere lucro para a sociedade, e os deixa na geladeira, assim como fazem com as pessoas em condições de pobreza extrema. Já fui considerada louca por colegas de trabalho (no sentido próprio da palavra) por cuidar de alguém portador de necessidades especiais, que eu prefiro simplesmente chamar de gente, mas muito gente mesmo!
    O ser humano é arrogante e acha que nada nunca vai atrapalhar sua estrada florida.

  5. Daniela disse:

    Olá Viviane,

    Gostaria de saber as fontes de pesquisas utilizadas sobre as questões sobre deficiência em países africanos. Grata Daniela

    • Vivian Alt disse:

      Olá, as fontes estão no corpo do texto na forma de hyperlinks. Quando se interessar por alguma parte específica é só clicar no hyperlink. Alguns textos estão disponíveis em pdf, mas outros são artigos de periódicos pagos. Espero ter ajudado. Vivian

  6. Robson Lopes disse:

    Bela matéria, deve ser compartilhada.
    Sabes se há estudos para implementar denominações diferentes para “deficiência” no Brasil?

    • Vivian Alt disse:

      Oi Robson, obrigada. Eu confesso que não sei, pois somente trabalhei com o tema na Tanzânia e na Inglaterra. Eu li alguns textos em português para ver se já havia um termo específico e não encontrei. Eles usam palavras como doença, lesão ou limitação corporal para caracterizar impairment. Na Inglaterra existe um debate muito forte atualmente sobre isso e o mais impressionante é que as políticas públicas acompanham esse debate. Mas eu fiquei mesmo curiosa e vou procurar saber se existe algum movimento no Brasil para criar um termo para impairment.

  7. Roberto leite disse:

    Sou cego
    Estou no 5º período de direito
    Sensacional este texto
    Parabéns

    • Vivian Alt disse:

      Obrigada Roberto e boa sorte na faculdade. Tenho um amigo que também é cego e hoje trabalha na Rio 2016. Ele tem um blog chamado Histórias de Cego e um dos posts recentes foi justamente debatendo tipos de educação e a importância que isso teve na formação pessoal e profissional dele. Infelizmente hoje as histórias de sucesso são decorrentes de esforço próprio e não de políticas governamentais, o que é muito triste. Mas tudo é um processo e bons exemplos são essenciais para promover mudanças positivas!

  8. Rodrigo disse:

    Parabéns pelo texto, tenho uma filha com sindrome de down, e mais difícil do que lidar com as limitações da sindrome, é lidar com o preconceito.

    • Vivian Alt disse:

      Obrigada Rodrigo. Eu imagino que seja realmente uma luta diária contra o preconceito. A ignorância é um mal a ser combatido, mas continue na sua luta, pois exemplos positivos são essenciais para promover mudanças. Eu sei que estamos muito longe de países desenvolvido, mas o Brasil não é nem de longe o pior dos exemplos. Isso me dá esperanças de que estamos no caminho certo, por mais longo que ele possa ser.

  9. Mário disse:

    Legal.
    Lendo o que escreveu ajuda as pessoas a refletirem sobre o assunto. Se somarmos as minorias iremos descobrir que todas elas (minorias) juntas formam uma maioria.

  10. Eric Reis disse:

    Parabéns pelo texto Vivian. Em dias caóticos como esses onde a mídia vende informações irrelevantes e as vezes até fora de sua originalidade, um texto como o seu é raro de se encontrar. Por favor, não pare!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *