OxPol, Política A grande mídia alimentou a polarização no Brasil? 

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A grande mídia alimentou a polarização no Brasil? 

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Apesar de suas falhas profundas, jornais e emissoras não podem ser culpados pelo ambiente político tóxico que tomou conta do País – o quadro é muito mais complexo

Este é o segundo texto da série especial produzida pelo Politike e pelo OxPol sobre a crise no Brasil. 

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Como qualquer país com uma democracia minimamente funcional, o Brasil tem uma relação ambivalente com sua grande mídia. E, como em todos os países com uma economia de mercado minimamente funcional, a grande mídia brasileira tem sido afetada por plataformas digitais personalizadas. Esses dois elementos, e como eles se emaranharam, são essenciais se quisermos compreender o papel do sistema de mídia na agitação social que toma conta do Brasil desde o ano passado. Meu argumento é simples: apesar de suas falhas profundas, jornais e emissoras não podem ser culpados pelo ambiente político tóxico que tomou conta do País – o quadro é muito mais complexo.

Pela primeira vez na história brasileira, a narrativa de uma grave crise política tem sido construída por um sistema de mídia incrivelmente fragmentado. Isso, acredito, desafia apontares de dedo simplistas e afeta o debate sobre quem é de fato moralmente responsável pela erosão de uma comunalidade sempre frágil.

Algumas ressalvas iniciais. Primeiro, a maior parte do que vou dizer é baseada apenas em minha avaliação pessoal e observação crítica. Até onde sei, nenhum trabalho acadêmico (com algumas exceções, conforme destaco abaixo) explorou essas questões sistematicamente. Em segundo lugar, minha análise será focada na Operação Lava Jato, a origem imediata da crise política estrutural brasileira, mas não abordará os laços entre a mídia e a crise econômica – que é, ao menos, tão importante quanto a crise política. Finalmente, minhas opiniões são inevitavelmente moldadas pela minha experiência passada como jornalista na Folha de S.Paulo.

Grande mídia: concentrada, enfraquecida, odiada

O mercado dos meios de comunicação brasileiro é altamente concentrado, sabemos. Há três principais emissoras de televisão nacional: Globo, Record e SBT. Similarmente, a imprensa, com uma audiência relativamente minúscula, é dominada por três tradicionais jornais: Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e O Globo. O mercado das revistas semanais é ainda menos dinâmico. Apenas duas publicações (Veja e Época) podem se dizer relevantes em termos de circulação. Jornais e emissoras possuem seus próprios sites, com enorme audiências. Mas, apesar de algumas iniciativas interessantes, não há nenhuma empresa robusta de jornalismo online nativo.

Devemos também levar em conta que a grande mídia (especialmente os veículos impressos) foi fortemente atingida por enormes dificuldades financeiras nos últimos quatro anos. Enfrentando uma crise econômica geral, e sua incapacidade específica de competir com Facebook e Google por anúncios online, jornais e revistas (e algumas emissoras) realizaram demissões em massa, dispensando alguns de seus mais experientes repórteres e editores.

Ato contra o impeachment de Dilma Rousseff, em São Paulo, em 18 de março. Foto: Roberto Parizotti/ CUT

Ato contra o impeachment de Dilma Rousseff, em São Paulo, em 18 de março. Foto: Roberto Parizotti/ CUT

Se historicamente a concentração de mercado cria uma homogeneidade inter-empresas, demissões têm aprofundado um tipo de homogeneidade no interior das redações: menos pessoas, menos diversidade, menos incentivos para repórteres discordarem de ordens de editores e para editores resistirem a diretrizes impostas de cima para baixo. Não surpreende o declínio perceptível na qualidade técnica (escrita clara, análise sofisticada) e a pura falta de mão de obra. Contratar jornalistas sem experiência, como alguns veículos têm feito, não é o bastante. A mais importante crise política brasileira em décadas tem sido coberta por uma imprensa particularmente enfraquecida.

Isso explica, em parte, o papel passivo que a grande mídia teve em toda a cobertura da Lava Jato. Não recordo de um fato importante que tenha sido descoberto por jornalistas durante o escândalo. Como já se disse, o que tem sido feito é mais próximo de um “jornalismo sobre uma investigação” do que “jornalismo investigativo”. Repórteres basicamente trouxeram à tona o que agentes da Polícia Federal e procuradores descobriram, com maior ou menor qualidade. Até mesmo a dinâmica típica deste tipo de cobertura, na qual os “melhores repórteres” são os que possuem as melhores fontes entre os investigadores, desempenhou um papel menor na Lava Jato.

Isso porque um considerável número de documentos e decisões judiciais foram tornadas públicas instantaneamente por meio de um sistema online operado pelo Judiciário. Uma certa transparência disruptora foi a regra – uma tática raramente analisada que mudou a escala do escândalo, na medida em que publicizou um oceano de informação ao qual não apenas jornalistas profissionais tiveram acesso, conforme digo abaixo.

Essa passividade relativa não é equivalente à neutralidade – isso não existe. Mas diferentes veículos têm diferentes vieses.

A Veja está no extremo ruim do espectro. Em espiral negativa há pelo menos uma década, a ainda poderosa semanal se assemelha hoje a um tabloide barato. A revista já publicou histórias delirantes e repugnantes com a única intenção de atacar pessoalmente a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula. Outro momento de considerável ridículo ocorreu quando a GloboNews cobriu alegremente os imensos protestos contra o governo em uma longa transmissão, quase ininterrupta e acrítica. O Jornal Nacional também gastou uma quantidade de tempo absurda expondo as conversas telefônicas entre Dilma e Lula, sem questionar a forma como elas foram expostas por Sergio Moro, juiz responsável pela Lava Jato.

Outros veículos de comunicação têm, contudo, sido mais equilibrados e suas posições anti-governo são mais matizadas. A Folha de S.Paulo e O Globo, por exemplo, têm sido ferozes críticos de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara dos Deputados e nemesis de Dilma. A Folha publicou um editorial criticando exageros de Sergio Moro.  No último domingo, em editorial de capa, o jornal pediu, em suma, novas eleições — alinhado-se involuntariamente a grupos de extrema esquerda. E, de maneira geral, suspeitas sobre opositores do governo também receberam alguma atenção destas publicações.

Parece existir entre os donos de veículos de comunicação a percepção de que Dilma é tragicamente inepta, e seu impeachment, ainda que não ideal e possivelmente ilegal, poderia ao menos destravar a atual paralisia do governo. Mas, diferentemente de eventos históricos passados, como o golpe militar que inaugurou a ditadura  militar (1964-1985), a grande mídia tem sido, em geral, menos partidária, menos violenta e mais ambígua.

Ironicamente, isso impulsionou as críticas a ela. Para apoiadores do governo, a grande mídia é movida por um preconceito classista contra Lula e seus suposto projeto popular. Para atores anti-governo, ela está no bolso do Planalto, e qualquer eventual ambiguidade quanto à necessidade do impeachment é um pecado capital. Todos  amam odiar a grande mídia.

Por que? Há algumas razões, afora os problemas já citados.

Primeiro, o Brasil, assim como outros países, tem assistido à ascensão de um zeitgeist anti-establishment. Essa crise de representatividade também afeta a mídia: quem é a imprensa para definir o que é relevante?, questionam. Segundo, a mídia brasileira tem um péssimo histórico quando se trata de defender valores democráticos, conforme o golpe de 1964 demonstra. Terceiro, nos esquecemos que a compreensão das pessoas do noticiário é tão enviesada quanto à criação deste pelos jornalistas. Nós, leitores, entendemos o que queremos, e facilmente esquecemos a notícia que confronta os nossos preconceitos contra um jornal ou uma emissora. E, por último, as pessoas possuem agora um sistema de mídia muito mais fragmentado a sua disposição.

Passo a focar neste último elemento, o qual considero um componente crítico da crise.

Protesto pelo impeachment de Dilma Rousseff. Foto: Paulo Pinto/ Fotos Públicas

Protesto pelo impeachment de Dilma Rousseff. Foto: Paulo Pinto/ Fotos Públicas

Plataformas: fragmentadas, fortalecidas, adoradas

Em grande medida, a crise tem sido experimentada por meio de e nas plataformas digitais – o que revela algo sobre os descontentes, uma vez que mais de 40% da população brasileira não tem acesso à internet.

Sim, a grande mídia é quem inventou a crise como um “fato” público. E esse grande “fato”, constituído por milhares de “fatos” menores, tem sido uma espécie de fonte oficial de informação, sendo compartilhado, curtido, encaminhado e “memetizado” milhões de vezes. Aqui reside parte da ambivalência que mencionei no início deste texto: o mesmo leitor que odeia a Globo, por exemplo, avidamente utiliza a Globo como uma fonte de informação confiável de notícias sobre a crise. Sem, imagino, perceber a extensão da contradição do ato.

Parece claro que foram os jornalistas profissionais, e seus patrões, quem traduziram a investigação em uma sequência reconhecível de eventos, em uma narrativa pública, externa e coletiva. É importante, no entanto, notar que eles fundamentalmente não possuem o controle final sobre essa narrativa. Na verdade, a própria ideia de que há uma narrativa monolítica sobre a crise é risível, quando se considera o complexo e insanamente fragmentado mosaico que chamamos de “mídias sociais”.

As coisas mudaram dramaticamente. Primeiro, a Internet brasileira é populada por uma quantidade inumerável de atores altamente politizados (alguns deles ligados a diferentes partidos e grupos políticos organizados). Presentes em todas as plataformas, e representando todos os lados da disputa, eles têm sido bem ativos em revelar supostas “farsas da mídia” sobre fatos específicos ao trazer à luz arquivos produzidos por investigadores da Lava Jato, ou algumas vezes ao destacar aspectos esquecidos de arquivos ou decisões já explorados por jornalistas.

Ações como essas, por um lado, visam alterar a narrativa da grande mídia. Por outro, elas mesmas são à sua maneira contra-narrativas, sendo também compartilhadas, curtidas, encaminhadas e “memetizadas” milhões de vezes, frequentemente com interpretações adicionais pelos leitores. Muitas destas contra-narrativas são não apenas despudoradamente partidárias, mas altamente incorretas, sexistas, e intencionalmente enganosas.

Em segundo lugar, considere que plataformas diferentes possibilitam experiências diferentes. E isso também é crucial se quisermos entender o nível de polarização que o Brasil tem experimentado. Redes como o Facebook, que exalta e incentiva identidades “reais”, são menos propensas, ainda que nem de longe imunes, a narrativas degradantes, violentas e lunáticas. Principalmente porque compartilhar ou criar tais histórias pode resultar em custos sociais para os usuários.

Mas aplicativos como WhatsApp, usados em conversas pessoais ou em pequenos grupos que não ocupam um espaço nem sequer semi-público, como as do Facebook, se tornaram um canal importante para rumores alucinantes, sórdidos e apócrifos. No ambiente confortável e privado de um aplicativo de mensagens por celular as pessoas podem soltar suas piores fantasias. Nele, é muito mais simples dizer que comunistas devem morrer, que Dilma é uma “v….”, ou gozar da deficiência física de Lula. E há que se levar em conta a enorme quantidade de “robôs” (contas fantasmas controladas automaticamente por softwares) espalhando esses boatos.

Redes sociais têm papel relevante na polarização vivida no Brasil. Foto: Microsiervos / Flickr / Creative Commons

Redes sociais têm papel relevante na polarização vivida no Brasil. Foto: Microsiervos / Flickr / Creative Commons

Uma pesquisa liderada por Pablo Ortellado, da Universidade de São Paulo, tocou na superfície deste fenômeno, e mostrou que esses rumores circulando em mídias sociais essencialmente opacas, como o WhatsApp, desempenharam um papel importante em como indivíduos de classe média e formalmente educados se (des)informam sobre as investigações. Além disso, o WhatsApp parece ser a ferramenta mais importante para organizar protestos “espontâneos”. A grande mídia pode cobrir esses protestos, mas não os convocou explicitamente, como pessoas e “robôs” no WhatsApp e outros aplicativos fizeram. No entanto, esse fenômeno é difícil de detalhar.

Logo, além da já mencionada narrativa oficial (composta pela grande mídia) e as contra-narrativas (disseminadas majoritariamente em mídias sociais semi-abertas), há também narrativas opacas, que circulam em mídias sociais privadas, e sobre as quais sabemos muito pouco. Enquanto a primeira é fortemente escrutinada de acordo com certas tradições de excelência ética, e a segunda sofre algum controle social, as outras estão simplesmente flutuando por aí.

Pessoas diferentes experimentam narrativas diferentes ou uma mistura de narrativas, causadas não apenas pela inescapável interpretação subjetiva e socialmente situada (o que sempre aconteceu), mas pelo próprio substrato das mensagens. Isso é novo. Dependendo de quem segue nas redes sociais, uma pessoa lê sobre uma crise diferente, sustentada por “fatos” diferentes. Isso está relacionado tanto à seleção algorítmica executada por plataformas automatizadas, que visam exibir aos usuários apenas aquilo que eles supostamente querem ver, como com o velho e humano fato de que pessoas diferentes habitam redes sociais específicas — online e offline.

Responsabilidade distribuída? 

A questão persiste: as instituições de mídia são moralmente responsáveis por um clima político em que pessoas estão sendo espancadas por utilizarem camisas vermelhas associadas ao PT?

Afirmar que a grande mídia gesta um golpe ou irresponsavelmente inflama seu público, como muitos argumentam, é uma ilusão confortável. Ela nos remete a tempos passados em que os inimigos eram facilmente identificáveis e as hierarquias mais claras. É sedutor, claro e reconfortante — nós sabemos como desconstruir a narrativa oficial pois fazemos isso há décadas. Mas ainda assim é uma ilusão. Não porque os barões da mídia não queiram o impeachment, ou porque sejam campeões da democracia, mas porque nem se quisessem eles poderiam, sozinhos, dar um golpe. A grande mídia, a despeito de todo seu poder, não mais comanda a narrativa — e, acreditem, ela adoraria comandar. A fragmentação do sistema midiático também implica em uma fragmentação da ação moral, e com isso da responsabilidade moral também.

Aqui vai minha ideia um tanto radical, superficialmente tratada aqui, inspirada no que escreveu o teórico de mídia Roger Silverstone: em um mundo em que todos têm alguma voz, todos têm alguma responsabilidade. Em certa medida, todos que postaram, compartilharam, curtiram ou até mesmo silenciaram sobre a crise são parte do cenário que agora repudiam. Mas qual parcela cabe a cada um? Como dividir o peso de forma justa? E qual importância a chamada “nova grande mídia”,  os donos das plataformas, tem? Como as escolhas feitas por essas empresas para criar a lógica computacional de uma rede, determinando o que é visível ou invisível, afetam essa fragmentação moral? Ninguém tem uma resposta minimamente clara.

O sentimento de possuir um poder que não se sujeita a controles externos é uma das razões pelas quais amamos as mídias sociais. Podemos finalmente “ser a mídia”, com poucos limites, sem ombudsmen ou concorrentes, em meio a um excesso de informações que rapidamente apaga os absurdos que proclamamos todos os dias. O que eventos como a crise no Brasil – ou mesmo a ascensão de Donald Trump — demonstram é o que já sabíamos, mas sempre esquecemos: a liberdade de expressão é um direito individual com sérias consequências coletivas. Não temos ideia de como modular os efeitos dessas consequências em uma era de mídias personalizadas. Na verdade, não estamos nem perto.

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