OxPol, Política A Europa não está mais segura
Foto: Thijs ter Haar / Creative Commons / Flickr

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A Europa não está mais segura

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Os pilares de segurança do continente estão danificados de forma irreparável e os líderes europeus estão em negação. Espere turbulência pesada a partir do próximo ano

Por Jan Zielonka*

A ordem pacífica pós-1989 no Velho Continente repousava em três pilares fundamentais: a OTAN, a União Europeia e o mosaico dos partidos de centro-esquerda e centro-direita no poder. OTAN forneceu o hardware, a UE entregou o software, e os partidos no poder ofereceram legitimidade. Todos estes três pilares estão agora danificados de forma irreparável.

A vitória de Donald Trump enterrou a OTAN. Defesa coletiva e dissuasão funcionam apenas se não forem objeto de especulação. Trump deixou claro que deseja manter suas opções em aberto. A política do vale tudo é receita para anarquia, não para segurança. E nem sequer me refiro às ligações de Trump com Vladimir Putin.

O referendo do Brexit enterrou a UE. Nos próximos anos, a UE será absorvida pelo desagradável processo de divórcio, deixando-a sem tempo e energia para projetar seu soft power no exterior. Isso significa que sua vizinhança será cada vez mais instável, gerando fluxos de refugiados e dificultando o comércio de mercadorias e bens. Muitas pessoas criticaram a política de alargamento da UE, mas Turquia e Ucrânia poderiam muito bem se assemelhar à Romênia ou Polônia se a política de alargamento não tivesse sido congelada (Naturalmente, isto não quer dizer que Romênia ou Polônia sejam campeãs de estabilidade e boa governança).

A ascensão espectacular de partidos anti-establishment enterrou o consenso liberal sobre o qual a segurança da Europa foi tão dependente durante as últimas três décadas. Este consenso contemplava fronteiras abertas, ajuda ao desenvolvimento, diplomacia multilateral e promoção de direitos humanos e democracia. Todos esses ideais estão sendo abertamente questionados por essa “novas geração” e o eleitorado parece não se importar mais.

Trump, Brexit e a insurreição contra-revolucionária contra os valores liberais não são um acidente da história. Os liberais dos partidos de centro-esquerda e centro-direita traíram seus ideais repetidamente: invadiram outros países por motivos duvidosos e até torturaram prisioneiros. Não é de se admirar que o eleitorado tenha se tornado cínico e começado a apoiar partidos e políticos alternativos. O Brexit ocorreu devido à incapacidade da UE de se reformar e encontrar formas de empoderar os cidadãos comuns e não apenas burocratas e lobistas. Trump é uma criança das patologias democráticas dos Estados Unidos responsáveis por desigualdades rampantes, paralisia governamental e esgotamento imperial.

Atualmente ninguém sabe como resolver essa confusão toda e fazer os europeus sentirem-se seguros. Não está sequer claro quem vai realizar a operação diplomática de limpeza. A Alemanha acaba de designar um novo ministro de Relações Exteriores cujo estilo abrasivo no Parlamento Europeu antagonizou a maioria dos líderes do continente. A Itália nomeou recentemente um ministro das Relações Exteriores que, além de não possuir nenhuma experiência diplomática, não tem um partido real por trás dele. O novo secretário de Relações Exteriores do Reino Unido é famoso por fazer piadas tolas, mas não por visões estratégicas. O ministro das Relações Exteriores da Polônia parece mais interessado em combater ciclistas, vegetarianos e ambientalistas do que fazer acordos internacionais significativos. Com diplomatas proeminentes como estes, não é provável que a Europa passe com segurança pelo esperado período de turbulência.

A experiência dos últimos anos sugere que a maioria dos problemas chegará à mesa da Sra. Merkel. Devido às próximas eleições alemãs, ela não ficará nada satisfeita com isso. Mas a quem ela pode pedir ajuda? Sra. May, Szydło ou Le Pen? Não tenho certeza de que a solidariedade de gênero terá efeito.

Segurança não é necessariamente sobre construir um equipamento militar adequado contra o inimigo declarado. Trata-se mais de criar um ambiente propício à paz por meio de regras comuns de engajamento, confiança mútua e convergência normativa. É por isso que instituições como a OTAN e a UE foram cruciais para manter a paz em conjunto com o consenso liberal sobre o comportamento legítimo e ilegítimo. Sem esses pilares da ordem europeia, um pequeno e inesperado conflito pode sair de controle produzindo insultos mútuos e suspeitas, levando à ruptura da comunicação, teorias de conspiração, comportamento irracional e agressão.

Quase ninguém esperava que o assassinato do Arquiduque Franz Ferdinand da Áustria em Sarajevo em 1914 fosse provocar uma guerra que matou milhões de pessoas. Não sabemos que tipo de surpresas nos esperam um século depois, mas à medida que entramos em um novo período de confusão e turbulência, é importante afivelar os nossos cintos de segurança e parar de discutir uns com os outros.

Este artigo foi traduzido para o português por Gabriel Bonis sob a orientação do Politike. 

*Jan Zielonka é professor de Política Europeia na Universidade de Oxford e autor de “Is the EU Doomed?” (Polity Press, 2014).

Artigo publicado originalmente em OxPol. Acesse o texto original aqui.

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