Direitos Humanos, Política A construção do Estado Islâmico como ameaça global

A construção do Estado Islâmico como ameaça global

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Porque uma coalizão de cerca de 60 países está determinada a destruir o grupo jihadista

Em 17 de fevereiro, a Casa Branca abriu a Cúpula de Enfrentamento ao Extremismo Violento (Summit on Countering Violent Extremism, em inglês), com a presença de autoridades dos EUA, líderes estrangeiros, oficiais da ONU e outros participantes das sociedades civil e privada. O evento visava buscar formas de prevenir a radicalização de “extremistas violentos e seus aliados” e evitar que outros indivíduos ou grupos cometam “atos de violência”. Embora as discussões tenham envolvido diferentes atores terroristas, havia uma grande preocupação sobre o Estado Islâmico no Iraque e na Síria (ISIS, na sigla em inglês), também conhecido como Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL).

O espectro global do encontro indica que o ISIS se tonou um problema internacional. Essa posição foi reforçada no evento em dois momentos pelo presidente dos EUA, Barack Obama. O Democrata afirmou que a luta contra o terrorismo é um “desafio para o mundo” e que o esforço global para deter o Estado Islâmico não iria “abrandar” a missão de “degradar e destruir” o grupo. Esse esforço global é uma coalizão de cerca de 60 países criada em 2014, envolvendo Alemanha, Egito, EUA, França, Itália, Jordânia, Líbano e Reino Unido. A ação inclui esforço militar, fornecimento de armas, equipamentos e treinamento de “aliados”, além de impedir o fluxo de combatentes estrangeiros para o Iraque e Síria.

O ISIS surgiu do braço iraquiano da al-Qaeda, embora não esteja mais associado ao mesmo. Nos últimos dois anos, o grupo jihadista ganhou território no nordeste do Iraque e da Síria ao capitalizar nos conflitos internos dos dois países, assumindo o controle de grande cidades e impondo uma interpretação extrema da Sharia (lei islâmica). Com isso, a brutalidade tem se tornado a maior arma de propaganda do grupo, com execuções de prisioneiros sendo filmadas e divulgadas online.

Neste sentido, o movimento organizado de países Ocidentais e do Oriente Médio contra o ISIS mostra uma percepção comum do grupo jihadista como uma ameaça à segurança internacional. Mas como um autoproclamado Estado sem fronteiras definidas pode provocar um sentimento global de insegurança? Seria o seu abuso sistemático dos direitos humanos o bastante para construir essa imagem? Ou seria a forma como o ISIS usa a brutalidade como propaganda?

A resposta passa pela forma como as ações do ISIS são percebidas por outros atores do sistema internacional. Sendo assim, é útil entender o processo de interação entre Estados e demais atores para compreender a construção da imagem do Estado Islâmico. Uma abordagem não ortodoxa do sistema internacional pode considerar Estados e outros atores – grupos terroristas, por exemplo – como profundamente sociais. Isso significa que eles desenvolvem suas percepções interagindo entre si e não por meio de pré-conceitos.

Ameaças são construídas, não naturais 

Conforme Alexander Wendt argumenta, “ameaças sociais são construídas, não são naturais”. Os atores internacionais interagem enviando sinais uns aos outros, como um anúncio de compra de armamentos, por exemplo. Sinais como este são interpretados de forma distinta por diferentes atores, de acordo com a relação que possuem e experiências passadas. Logo, para um Estado essa atitude pode ser considerada uma ameaça, enquanto para outro não se trata de um problema. Essa interpretação vai gerar uma resposta dos envolvidos na interação. Todo esse processo de mensagens é um “ato social” que cria significados inter-subjetivos para certos atores ou conceitos e os ajuda a decidir como comportar-se em relação uns aos outros. Logo, mesmo que violações de direitos humanos tendam a ser negligenciadas como um assunto interno dos países, a sua sistemática e grave repetição pode criar agitação social, conflitos e instabilidade política, que tendem a causar tensões além da nação afetada.

Neste caso, o ISIS já opera ilegítima e brutalmente dentro de dois países extremamente turbulentos. Desta forma, há um imenso potencial de propagação para outras regiões, em especial porque o auto-proclamado Estado não tem fronteiras ou território. Seus militantes podem simplesmente infiltrar em nações vizinhas ou criar bases em países soberanos, o que representa uma ameaça real ao conceito amplamente aceito de que Estados são unidades invioláveis do sistema internacional e a única autoridade dentro do seu território.

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Por meio da interação de atores internacionais, é possível encontrar diversas mensagens subliminares, algumas das quais carregam valores conhecidos por todos, a exemplo do conceito de soberania, como Friedrich Kratochwil destaca. Neste contexto, é importante notar que ideais, crenças e valores são estruturas importantes para moldar o comportamento dos atores no sistema internacional, exercendo uma influência poderosa na ação política e social dos mesmos. É na base de identidade e ideologia que relações de amizade e inimizade se criam, destaca Christian Reus-Smith.

Logo, quando militantes do ISIS lançam homens acusados de homosexualidade do topo de prédios, perseguem indivíduos devido a sua identidade ou decapitam prisioneiros, há um entendimento pre-concebido de que atos tão brutais não são apenas inapropriados, mas altamente capazes de causar inquietação social. Neste sentido, graves violações de direitos humanos e o uso extremista da religião para justificar a violência, criam um choque de valores e concepções como liberdade, democracia, legitimidade e governança com atores que possuem, por exemplo, valores liberais democráticos e apreço por instituições. Esses atores irão se sentir ameaçados, associando ISIS a sentimentos de inimizade.

Esse conflito de valores é claramente identificado no discurso do secretário de Estado dos EUA, John Kerry, emitido logo após a execução do piloto jordaniano Moaz al-Kasasbeh, capturado pelo ISIS. Em um comentário curto, o Democrata define o grupo jihadista como sem compaixão, interessado apenas em “para matar e destruir” e incapaz de valorizar a vida. Em sua fala no evento na Casa Branca, Kerry ainda disse que os “adversários” não possuem “um conjunto amplo de responsabilidades a cumprir” e “não têm os mesmos deveres institucionais que possuímos para garantir as necessidades de nossos cidadãos”.

Comunicação sem barreiras 

Como o ISIS, um Estado auto-proclamado e sem território definido, interage com atores fora de seus limites de forma a ser percebido como ameaça? Por meio da comunicação, e não necessariamente por fronteiras geográficas. O grupo jihadista tem produzido vídeos mais elaborados de suas execuções, incluindo decapitações e incineração de prisioneiros estrangeiros. O objetivo é usa-los como propaganda para atrair militantes ao “califado” e também para serem vistos como uma ameaça/mensagem de guerra por outros atores: a maioria dos prisioneiros estrangeiros decapitados eram nacionais de países da coalizão de combate ao ISIS. Isso pode ser entendido como um esforço para mostrar que nacionais destes países podem ser alvejados devido suas identidades em qualquer lugar do mundo por militantes.

Neste sentido, o poder da propaganda jihadista e o uso extremista do Islã são preocupantes, especialmente para a Europa. O grupo atraiu mais de 20 mil militantes estrangeiros, de acordo com o Centro Internacional para o Estudo da Radicalização e Violência Política (ICSR, na sigla em inglês). Essa é a maior mobilização de lutadores estrangeiros em países de maioria islâmica desde 1945, ultrapassando o conflito do Afeganistão em 1980. Eles vieram de mais de 50 países, mas quase 20% eram residentes ou nacionais de Estados da Europa ocidental.

Ao justificar a barbárie com o islamismo, o ISIS tenta estabelecer sua legitimidade como um Estado religioso. Algo que países ocidentais se recusam a aceitar, conforme Obama defendeu na cúpula da Casa Branca. “Eles tentam se apresentar como líderes religiosos, guerreiros sagrados em defensa do Islã […] Eles propagam a noção de que os EUA — e o Ocidente — está em guerra com o Islã. […] Eles não são líderes religiosos, são terroristas. E não estamos em guerra com o Islã. Estamos em guerra contra as pessoas que perverteram o Islã”, disse.

Entretanto, criar a percepção de uma guerra entre o Ocidente e o Islã é uma ferramenta eficiente para radicalizar jovens e continuar atraindo militantes estrangeiros para o ISIS. Por isso, a coalizão internacional deve cooperar não apenas para deter geograficamente o grupo jihadista, mas também para neutralizar os efeitos de sua retórica extremista em jovens estrangeiros. A ameaça do ISIS deve ser enfrentada além das trincheiras militares, usando também vastos esforços de comunicação e (des)construção de imagem.

17 Responses to A construção do Estado Islâmico como ameaça global

  1. Felipe M. Alvarez disse:

    Acho bem pertinente o caminho direcionado por parte do texto acima nos sugerindo que a intervenção e a coligação são frutos de temor pelas violações de fronteiras, elevado número de militantes (principalmente na Europa) e pressões políticas dos países que, possivelmente, podem ser afetados. Porém, a questão levantada a respeito dos conflitos de valores é essencialmente hipócrita.
    No passado recente (século XIX), iniciou-se a prática do imperialismo, ou neocolonialismo, a partir da revolução industrial e avanços tecnológicos, que tinha como principal característica o domínio (político e econômico) de uma nação sobre a outra, sendo que os maiores beneficiados dessa prática compõem a coalizão citada no texto, e, mais recentemente, todos nós conhecemos diversas intervenções e também, sem dúvida de empregar o termo, terrorismo americano sobre outras nações.
    Há uma passagem no texto acima nos dizendo que a principal motivação do ISIS é “[…] uma interpretação extrema da Sharia (lei islâmica) […]”. Acho oportuno realizar uma comparação dizendo que o neocolonialismo e o terrorismo americano são uma interpretação extrema do capitalismo, portanto, os conceitos e motivações são outros, porém o resultado é o mesmo. Obviamente, para ilustrar melhor meu argumento, não posso deixar de lembrar de dois grandes acontecimentos recentes: bombas atômicas americanas e o holocausto.
    Dito isso, é no mínimo cômico, para não dizer inútil, a declaração de Kerry: ‘[…] Em sua fala no evento na Casa Branca, Kerry ainda disse que os “adversários” não possuem “um conjunto amplo de responsabilidades a cumprir” e “não têm os mesmos deveres institucionais que possuímos para garantir as necessidades de nossos cidadãos” […]’.
    Somente para finalizar, no passado um pouco mais distante o cristianismo era igual, senão pior, do que os ditos extremistas do EI. Portanto, podemos citar diversos motivos para o combate ao terrorismo, mas sem falar em valores ou religião, pois quem conhece minimamente a história ocidental achará uma explicação como essa cômica.

  2. […] também: A construção do Estado Islâmico como ameaça global Intervenção militar no Estado Islâmico perpetuaria tensões no Oriente Médio A falácia da […]

  3. Daniel disse:

    Só faltou uma coisa… quanto de petróleo tem nessas regiões em que o ISIS vêm atuando?

  4. Augusto disse:

    Entendo que as mensagens enviadas pelo ISIS ao Ocidente mostrando decapitações tenha o objetivo de chamar a atenção do ocidente para o grupo, consequentemente recrutando mais indignados com o Status Quo. Mas discordo que estas violações de direitos humanos ,sistematicamente repetidas conseguem criar uma tensão social que acaba por mobilizar os Estados ocidentais e também muçulmanos. Se assim fosse, a violenta repressão da Arabia Saudita a seu povo e seu posicionamento extremamente conservador em relação a direitos civis, sociais e religiosos levaria os Estados Ocidentais a repelir qualquer forma de cooperação com aquela monarquia.
    Creio que a aliança EUA/Europa com alguns estados muçulmanos se pautam muito mais pelos interesses economicos do que uma visão semelhante sobre direitos humanos. Creio que o termo direitos humanos é usado de forma parcial pela mídia ocidental para formar uma opinião nestas sociedades e consequentemente apoiar as intervenções.

  5. Jorge disse:

    Para variar, algumas pessoas apelam para o óbvio dizendo que é culpa dos EUA. Assim como ocorre no Brasil, onde tudo é culpa do FHC,

    Quem são os líderes do tal do EL ? O cortador de cabeças que aparece nos vídeos é um inglés, bem nascido. o “big boss” aparece de relógio caríssimo nos vídeos conclamando seus mercenários a combaterem o Ocidente, certamente não é nehum ignorante, os mercenários que abandonam suas casas na Europa e vão lutar no Oriente também não são coitadinhos.

    Acho que estes bandidos estão colocando a sociedade dita civilizada em cheque. Ou esta sociedade os extermina de vez ou realmente a coisa vai pegar.

    No mais, análises superificiais não acrescentam nada ao debate.

    • Sergio disse:

      Não creio que sejam tão superficiais, tem seu fundo de realidade. A história da humanidade, os fatos, os povos têm um início, uma causa. Terroristas são motivados por causas e não apenas por terrorismo. Ganância? Poder? Religião? Defesa? Injustiças?
      A pergunta é, o que levaria seres humanos a criarem grupos tão violentos e extremistas?
      A mesma ignorância existe tanto no Oriente médio como no ocidente, o que é terrível pois acreditamos que somos melhor que eles…

  6. Julio Bittencourt disse:

    Gabriel, pelo jeito você não conhece o islã. Quando fala “Eles não são líderes religiosos, são terroristas” há um grande problema, basta ir no youtube um sem-número de vídeos de clérigos maometanos apoiando esses grupos terroristas que, sim, baseiam suas ações no alcorão. Dessa forma, “terroristas” não são somente os que pegam nas armas para matar inocentes, mas os que silenciam em suas atrocidades e, pior, dão suporte teológico para as barbáries. O Islã é uma religião medieval, que não possui uma brecha sequer para reformas. É, portanto, muito mais que um “choque de civilizações”.

    • Tenório Lima Sobrinho disse:

      Sr. Júlio, o Sr. se esquece que o cristianismo é uma religião tão intolerante quanto o Islã. O neopentecostalismo incita os seus fiéis contra as demais denominações e religiões, promovendo invasões a templos do candomblé e igrejas católicas para destruir as imagens desses templos. Sem falar que as lideranças cristã, na sua extrema maioria, são representantes da extrema-direita, que praticam um discurso racista, misógino, sexista e refratário a qualquer pensamento diverso do seu.
      O problema não está em uma ou outra religião, qualquer que seja ela será intolerante, principalmente se ela for proselitista, como é o caso do islamismo e do cristianismo.

      • Julio Bittencourt disse:

        Não acho que o cristianismo seja uma religião tão intolerante quanto o Islã. Ultimamente o Vaticano tem sido uma ponte para muitos diálogos, apesar de muitas alas conservadoras olharem atravessado esses possíveis avanços e em hipótese alguma tem apoiado ações terroristas contra outros grupos étnicos. Você está comparando ações isoladas de grupos, que infelizmente acontecem, mas não é o que os clérigos católicos tem pregado ultimamente (ou você tem alguma imagem de um padre ou pastor pregando o terror – sequestrar, escravizar, explodir, degolar, etc, por aí?).

  7. Alisson Andrade disse:

    Excelente explicação. Gostei muito de ter colocado os links pras fontes originais.

  8. Leonardo S. de Lima disse:

    Este é o legado que a intervenção dos EUA deixa para a História. Quando os norte-americanos destituíram Saddam Hussein do poder criou-se uma laguna a ser reivindicada. Com o Iraque arrasado pela guerra, grupos radicais se organizaram vindo a forma o EI. Este grupo tem por objetivo instaurar um califado, baseado em antigas e tradicionais interpretações do Alcorão. Antes o Iraque possuía um ditador como governante, mas o que esperar se esse grupo ascender ao poder?

  9. Lucas Gabriel Pereira disse:

    Boa matéria! Ontem, dia 25/02, li um texto sobre terrorismo do teologo Paulo Brabo excelente. Merece leitura para melhor compreensão do tema e da maneira como damos esfoque e agora enfrentamento ao Terrorismo.

    http://www.baciadasalmas.com/2015/como-nao-ter-medo-do-terrorismo/

  10. Vágner Rondon disse:

    A China respondeu ao capitalismo com capitalismo. Para um país e um povo devastado pelas guerras hoje é respeitado nem que seja na força do dinheiro.
    Simples assim.

  11. João Lima disse:

    Eu sou totalmente contra as ações públicas deste grupo extremista. Violência não constrói, se construísse as duas guerras mundiais seriam até hoje veneradas e idolatradas, o que não ocorreu.

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