Economia A América do Sul pode prosperar impulsionada por commodities? 

Economia

A América do Sul pode prosperar impulsionada por commodities? 

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on TumblrShare on Google+Share on LinkedInEmail this to someonePrint this page

Após período de crescimento econômico estável e integração geopolítica, países da região enfrentam dificuldades com uma procura menor por produtos

A história econômica da América do Sul tem sido caracterizada por ciclos de impulsos e aumentos de negócios impulsionados pela demanda internacional por commodities, tornando a região volátil e dependente da demanda internacional por esses produtos. Desde as altamente protecionistas políticas de industrialização por substituição de importações – destinadas a desenvolver a indústria durante os anos 1970 – à integração ao mercado nas últimas décadas, os doze países da região estão lentamente tentando superar suas dependências diversificando seus modelos econômicos e abordando questões sociais, como o combate a desigualdade. Mas as economias destes países são fortes o bastante para evitar a recessão e consolidar modelos únicos que atinjam as necessidades de suas populações?

Segundo o Banco Mundial, o cenário atual não é muito brilhante, uma vez que não apenas a América do Sul, mas também a taxa de crescimento de toda a América Latina diminuiu nos últimos dois anos. Em janeiro último, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) regional caiu para um terço do registrado em 2013, representando 0,8% ao ano. Brasil, a maior economia da região, com uma população de 200,4 milhões de pessoas, sobreviveu a um declínio consistente do crescimento econômico desde o início do ano. A Reuters reporta que “a mediana das estimativas para o crescimento econômico para o Brasil [que é uma estimativa do ano anterior aos resultados oficiais de crescimento do PIB serem liberados]caiu para 0,13% de 0,38% na pesquisa da semana anterior e 0,55% no mês antecedente”.

Nos países andinos – que são grandes exportadores de commodities – a situação também não é muito otimista. O Chile é responsável por produzir sozinho um terço do cobre do mundo, enquanto a Colômbia e o Peru são famosos por possuírem um setor industrial fraco tendo suas economias altamente focadas na exportação de commodities, que representa dois terços do total de suas exportações. Como consequência, “déficits em conta corrente [na soma dos dois países]devem atingir 5% do PIB neste ano”, um nível visto pela última vez “na década de 1990, quando a região estava associada à crise da dívida”.

Argentina e Venezuela podem receber mais atenção devido à turbulência política causada por governos altamente intervencionistas, frequentemente acusados de manipular números macroeconômicos, mas não são diferentes do resto da região quando se trata de commodities. As exportações de soja praticamente guiam a economia argentina, mas com a desaceleração da demanda global a dívida externa do país ainda é persistente e tornou-se um grande problema. Dados do Banco Mundial mostram que, durante o ano fiscal de 2014, as “contas registraram um déficit primário de 0,9% do PIB e um deficit total de 2,5% do PIB”. Consequentemente, “os ganhos do setor público aumentaram 42,5% enquanto as despesas subiram 45%”. Em termos gerais, isso significa que, em comparação com anos anteriores, o crescimento da Argentina deve ser próximo a zero.

Neste contexto, possuir grandes reservas de petróleo tem sido mais uma maldição do que uma bênção para a economia venezuelana, que enfrenta uma recessão. A queda recente dos preços do barril de petróleo para uma média de US$ 57 dólares (cerca de R$ 168) empurrou o país para a crise, já que o petróleo representa 96% das exportações da Venezuela. De acordo com o Financial Times, o cenário anterior coloca a Venezuela em um “espectro de preocupação“, uma vez que os investidores temem que o país não honre suas dívidas.

Apesar da impressionante desaceleração nas taxas de crescimento da região, a América do Sul nunca esteve tão integrada e aberta ao mercado. Um exemplo disso é o Mercado Comum do Sul (Mercosul). Composto por Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela, o bloco comercial garante uma união aduaneira completa aos seus membros, proporcionando uma redução das tarifas e barreiras comerciais intra-regionais. Em termos gerais, o bloco comercial é positivo para a América do Sul, pois assegura a livre concorrência entre os seus membros, o que leva a políticas macroeconômicas coordenadas, mesmo que seus regulamentos sejam plenamente implementados por todos os membros.

Apesar do aumento da integração e dos esforços internos para desencadear o crescimento econômico, a desaceleração na atividade econômica da América do Sul apenas prova que a região ainda não é forte o suficiente para resistir com maior eficiência a choques internacionais. A produção industrial pode ser significativa para países como o Brasil, mas que carece de consistência em Estados como Chile e Peru. Logo, as commodities ainda são a principal força por trás da economia local. Para se tornar mais competitiva globalmente, a América do Sul precisa fortemente desenvolver um ambiente econômico consistente e confiável, no qual as commodities não sejam percebidas como um problema, mas uma solução para aumentar as reservas em tempos de crise.

Isso só pode ser alcançado por meio da consolidação das instituições públicas e privadas que tenham sido historicamente questionadas por escândalos de corrupção envolvendo o governo, como é o caso da Petrobras no Brasil. Instituições mais fortes trazem credibilidade e o desenvolvimento de um ambiente favorável às empresas, o que gera crescimento econômico e de investimentos. Por exemplo, a América do Sul precisa  investir em educação, a fim de obter uma transição de uma força de trabalho pouco qualificada para uma altamente qualificada. Os países da região precisam investir em pesquisa e desenvolvimento e aumentar o seu nível tecnológico, para depois possuir indústrias inovadoras e especializadas capazes de competir em escala global.

Por enquanto, a América do Sul registra grandes déficits em conta corrente causados pela queda da demanda externa por commodities e altos níveis de inflação, que pode atingir 8% até ao final de 2015 no Brasil e 16,5% registrados na Argentina em março último. A tendência é haver um aumento nas taxas de juros e desvalorização das moedas dos países da região. Com taxas mais elevadas, os preços sobem e os empréstimos ficam mais caros. Logo, com menos dinheiro circulando a economia tem seu dinamismo reduzindo e as empresas diminuem suas atividades.

Neste sentido, há uma necessidade urgente de alterar a política econômica da região como um todo, visando ajustes fiscais e consequentes cortes nos gastos públicos. Isso pode ser atingido, por exemplo, estimulando a privatização de empresas e aumentando o investimento estrangeiro para evitar a repetição do ciclo histórico de dependência desencadeada pela demanda internacional.

6 Responses to A América do Sul pode prosperar impulsionada por commodities? 

  1. Roland Matt Rola disse:

    O último parágrafo simplesmente “destruiu” tudo que foi proposto nos anteriores.
    Cortar gastos com custeio faz sentido, mas cortar investimentos, não faz o menor.
    Se observarmos que a maior parte daquilo que se conhece como “investimento estrangeiro direto” nada mais é que a fusão ou aquisição de empresas nacionais por grupos estrangeiros, a privatização só iria transferir o controle sobre o capital às empresas do exterior, o que elevaria ainda mais as remessas de lucros e juros sobre empréstimos intercompanhia. Como resultado, um déficit em conta corrente ainda maior, e que em 2014 foi de US$ 104,835 bilhões! Privatizar capital está longe de ser uma saída adequada.

  2. Daniela disse:

    Discordo sobre as privatizações. Nos anos 90 elas foram feitas em paises como Argentina e Brasil, e entramos numa forte recessão e em muito desemprego. Paises como China e EUA investiram fortemente em empresas estatais e por isso são grandes Potências. O Brasil precisa investir em ferrovias estatais e transporte público. Precisa investir em estradas e portos e a iniciativa pricada só quer lucros. Então é d extrema importancia q o governo invista mais n infraestrutura e em pesquisa e novas tecnogias

  3. João Lima disse:

    Esta de que o país ou bloco é forte, pois resiste e passa indene numa ampla crise econômica internacional é uma falácia. Que o digam os países europeus e a própria UE, quando embarcaram na composição norte-americana e saíram disso fortemente abalados. Logicamente, países em desenvolvimento não sairão indenes após uma forte crise, que os atinja diretamente. A Argentina sempre lutou por prosperidade e mesmo sem condições reais buscou aparentar que a tinha. Deixou de pagar o Clube de Paris e foi tachada de “caloteira”, perdendo o crédito bancário internacional. A Venezuela com Cháves adotou políticas econômicas suicidas e hoje encontra-se na lona. Estes dois países então se agarraram um ao outro naquela época e depois caíram juntos; a Argentina menos, a Venezuela bastante. Concordo que a América do Sul precisa investir em educação, em pesquisa e desenvolvimento e ainda aumentar o seu nível tecnológico, para os fins indicados no artigo. Este debacle da Petrobras foi bem ruim, mas deixou claro a todos, que a empresa não pode servir ao saque e pilhagem, disfarçados em pagamentos e investimentos. Uma lição, que o Brasil e os brasileiros precisam aproveitar. O capital privado produtivo nacional e estrangeiro são necessários para permitir o desenvolvimento brasileiro e sul-americano. Mas, sem a participação do Estado e seu apoio eles não florescerão em nenhum dos doze países do subcontinente. A luta continua, vamos em frente, pois o potencial brasileiro é grande e nos ajudará a vencer as dificuldades existentes.

  4. Felipe disse:

    Olá Priscila! Achei interessante a sua contextualização, descrevendo como a economia da AL está se comportando nos últimos anos. Contudo, a partir da discussão sobre as commodities no meu ponto de vista sua análise passou a ser bastante superficial. “Para se tornar mais competitiva globalmente, a América do Sul precisa fortemente desenvolver um ambiente econômico consistente e confiável, no qual as commodities não sejam percebidas como um problema, mas uma solução para aumentar as reservas em tempos de crise.” A região está em crise após se especializar em commodities e sua proposta é considerá-las uma SOLUÇÃO? A partir daí começa a falácia da sua argumentação…pontos que discordo: a). o Mercosul não é uma união de livre mercado; b). argumentação extremamente simplista sobre educação e P&D; c). “estimular privatizações e investimento estrangeiro para evitar a repetição do ciclo histórico de dependência desencadeada pela demanda internacional”. Diversas das suas propostas já foram tentadas nos anos 90…e ainda estamos aqui. Abraço!

  5. Caio disse:

    Olá Priscila. Bastante informativo e boa análise no seu texto! Me pareceu que há uma lacuna nas suas propostas, pois numa certa altura você diz “os países da região precisam investir em pesquisa e desenvolvimento e aumentar o seu nível tecnológico, para depois possuir indústrias inovadoras e especializadas capazes de competir em escala global”. E posteriormente: “Neste sentido, há uma necessidade urgente de alterar a política econômica da região como um todo, visando ajustes fiscais e consequentes cortes nos gastos públicos. Isso pode ser atingido, por exemplo, estimulando a privatização de empresas e aumentando o investimento estrangeiro para evitar a repetição do ciclo histórico de dependência desencadeada pela demanda internacional”. Então a política econômica que você defende deve atender à iniciativa privada nacional e o capital estrangeiro? Porque me parece que se assim for, o investimento que você também defende pode não se realizar, uma vez que no Brasil (e na AL), está tarefa ficou a cargo do Estado. Penso que falta alguma coisa para ligar uma proposta a outra.

  6. Jorge Alberto Rodrigues disse:

    O recente e efêmero crescimento econômico de alguns países da América Latina foi motivado por fatores incapazes de sustentar o crescimento a longo prazo. Alguns países da região se beneficiaram do preço alto das commodities (exemplos: Brasil com o ferro e produtos agrícolas; a Venezuela com o petróleo). Os governos de viés esquerdista da região implantaram artificialismos que durante um curto período fomentaram o desenvolvimento. Alguns dos artificialismo são: estímulos ao consumismo, fartura de crédito e ampla distribuição de benesses para os mais pobres. Como seria de se esperar, assim que a torneira secou, os países entraram em recessão. A lastimável situação econômica da Venezuela, Argentina e, em menor grau, do Brasil comprovam que políticas econômicas xenófobas, baseadas no populismo, com excesso de intervencionismo estatal, que abusam de artificialismos e manipulações (a principal receita dos economistas “desenvolvimentistas”), que usam o assistencialismo com intenções eleitorais, têm aversão à iniciativa privada, prezam monopólios e reservas de mercado, apelam para a maquiagem fiscal e são lenientes com a corrupção estão fadadas ao fracasso.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *